===== RAFFOUL (2020:310-311) – RESPONSABILIDADE COM O ACONTECIMENTO ===== Com relação a essa responsabilidade ética para com o acontecimento e sua inadequação, menciono brevemente aqui a compreensão de Heidegger sobre a ética como uma ética do acontecimento e do segredo. Heidegger fala, de fato, de uma “reivindicação do acontecimento” sobre o ser humano, abrindo para uma responsabilidade que não deve ser tomada em um sentido moral “mas, sim, com relação ao acontecimento e como relacionada à resposta” (Die “[[termos:v:verantwortung:start|Verantwortung]]” [[termos:i:ist:start|ist]] [[termos:h:hier:start|Hier]] [[termos:n:nicht:start|Nicht]] “[[termos:m:moralisch:start|moralisch]]” gemeint, sondern ereignishaft und bezogen auf die Antwort). O ser humano pertence ao acontecimento do ser, ou seja, ao [[termos:e:ereignis:start|Ereignis]], respondendo e correspondendo ao seu chamado. No entanto, esse pertencimento é afetado por uma certa expropriação, pois a correspondência ao acontecimento do ser sempre implica retirada e expropriação. Enfatizo que, para Heidegger, o ser é a retirada e se oculta na dação dos entes. Isso explica a noção crucial de uma fenomenologia do inaparente na qual este livro insistiu e a “abertura para o mistério” (die [[termos:o:offenheit:start|Offenheit]] für das Geheimnis) que Heidegger evoca em [[termos:g:gelassenheit:start|Gelassenheit]]. Em sua própria agitação, o ser se retira, é o mistério: tal retirada, enfatiza Heidegger, nos chama (Ruf). De fato, como afirmado em What Is Called Thinking? (GA8) é a partir de uma certa retirada que o [[termos:d:dasein-hlex:start|Dasein]] se vê chamado. Como citado anteriormente, Heidegger afirma que “o que se retira de nós, nos atrai por sua própria retirada, quer tenhamos ou não consciência disso imediatamente, ou de forma alguma”. A responsabilidade para com o ser seria, então, uma responsabilidade para com um segredo e um inapropriável. O que deve ser enfatizado é que a resposta ao chamado, seja o chamado da consciência em Ser e [[termos:t:tempo:start|tempo]] ou o endereçamento do ser nos escritos posteriores, é sempre uma resposta ao que permanece inadequado em tais chamados. Por exemplo, ao discutir os estados de ânimo (Stimmungen (Stimmung)) em Ser e Tempo, Heidegger começa enfatizando o elemento de opacidade e retraimento neles contido. Ter um estado de ânimo leva o Dasein ao seu “aí”, diante do puro “isso” do seu Aí, que, como tal, “olha diretamente para ele com a inexorabilidade de um enigma”. Ao estar em um estado de ânimo, o ser do Aí “se manifesta como um fardo [[termos:l:last:start|Last]]”, acrescentando Heidegger: “Não se sabe por quê”. De fato, o Dasein “não pode saber por que” (SZ, 134), não por causa de alguma fraqueza de nossos poderes cognitivos, mas porque o “isso” de nosso ser é dado de tal forma que “o onde e o para onde permanecem obscuros” (SZ, 134). No fenômeno dos humores, há um “permanecer obscuro” que é irredutível. Em um curso de 1928-1929, Introdução à Filosofia (Einleitung in die Philosophie (GA27)), Heidegger também evoca essa “escuridão das origens do Dasein”, contrastando-a com o “brilho relativo de sua potencialidade-para-ser”. Em seguida, ele afirma o seguinte: “O Dasein existe sempre em uma exposição essencial à escuridão e à impotência de sua origem, mesmo que apenas na forma predominante de um profundo esquecimento habitual em face dessa determinação essencial de sua facticidade.” Essa escuridão é irredutível. E, no entanto, é nessa conjuntura, nesse exato momento aporético, que Heidegger situa paradoxalmente a responsabilidade do Dasein. Conforme observado anteriormente, Heidegger fala do “fardo” do Aí sentido em um estado de espírito. É interessante notar que o próprio conceito de peso e fardo reintroduz, por assim dizer, a problemática da responsabilidade. Em uma nota marginal adicionada a essa passagem, Heidegger esclareceu mais tarde: “‘Fardo’: o que pesa (das [[termos:z:zu:start|zu]]-tragende); o ser humano é carregado com a responsabilidade (überantwortet) do Dasein, apropriado por ele (Übereignet). Suportar (tragen): assumir algo de fora do pertencimento ao próprio ser” (SZ, 134, trans. ligeiramente modificado). O fardo é “o que pesa”, o que tem de ser carregado. No curso Introdução à Filosofia (GA27), Heidegger explicou que é precisamente aquilo sobre o qual o Dasein não é senhor que deve ser trabalhado e sobrevivido: “(O que) . . não surge por decisão própria e expressa, como a maioria das coisas para o Dasein, deve ser apropriado de tal ou qual maneira, mesmo que seja apenas no modo de suportar ou se esquivar de algo; aquilo que para nós não está inteiramente sob o controle da liberdade no sentido estrito . . . é algo que é de tal ou qual maneira assumido ou rejeitado no Como do Dasein” (GA 27, 337). A ética é, portanto, o “transporte” da inadequação — ou segredo — do acontecimento do ser. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}