====== DAÇÃO – GEGEBENHEIT (2006:33-43) ====== //POLT, Richard F. H. The emergency of being: on Heidegger’s contributions to philosophy. Ithaca, NY: Cornell Univ. Press, 2006.// * A questão da doação ou //Gegebenheit// assombra o pensamento de Heidegger, evoluindo de uma determinação lógica categorial em 1915 para uma concepção fundamentada na experiência vivida e na apropriação em 1919. * Influência inicial de Heinrich Rickert e o problema lógico. * Redefinição da experiência vivida como algo que não passa diante do sujeito, mas é apropriado (//er-eignet//). * Reflexão tardia em 1962 sobre o ser como doação conjunta com o tempo através da apropriação. [1, 2] * A ruptura com Edmund Husserl origina-se na rejeição da orientação platônica que busca formas idênticas universais para garantir a unidade do sentido, ignorando a verdade situada no momento vivido. * Crítica à separação husserliana entre a expressão temporal e o significado atemporal. * Insuficiência do esquema de particular e universal para explicar a ação concreta. * Resistência à redução da coerência à identidade de espécies. * Proposta de um continuum heterogêneo baseada na analogia aristotélica. [3-5] * O objetivo heideggeriano é superar a dicotomia entre a verdade universal e o "próprio" (//das Eigene//), concebendo o particular não como uma instância de uma classe, mas como um instante único de insight. * Crítica ao psicologismo que objetiva a psique teoricamente. * Necessidade de pensar o próprio a partir de si mesmo. [6] * A introdução do termo //Ereignis// no semestre de emergência de 1919 visa distinguir os eventos vividos e apropriados dos meros processos (//Vorgänge//) observados de forma distanciada. * Vínculo entre significado, temporalidade e historicidade concreta. * Jogo de palavras entre //Ereignis// e //eräugen// (colocar diante dos olhos/manifestar). * Contraste com a atitude teórica que obscurece o "mundanizar" do mundo. [7, 8] * O desenvolvimento de uma ciência não teórica exige uma linguagem que indique formalmente os fenômenos, gesticulando em direção a eles sem pretender exaurir seu conteúdo com clareza teórica definitiva. * Necessidade de preservar a textura do pertencimento ao mundo vivido. * Função da indicação formal como convite à atenção existencial. [9] * Em //Ser e Tempo//, a análise da mundanidade contesta a primazia da teoria ao demonstrar que a identidade dos objetos presentes-à-mão (//Vorhanden//) deriva de uma familiaridade pré-teórica com a adequação dos entes à-mão (//Zuhanden//). * Oposição entre o objeto teórico isolado e o equipamento inserido em um contexto de uso. * Defesa de Husserl sobre a identidade do objeto através das variações subjetivas. * Argumento heideggeriano de que a identidade pressupõe um campo de apropriação e pertinência. [10-13] * A espacialidade e a temporalidade originárias não são abstrações matemáticas, mas dimensões de propriedade onde o espaço é um conjunto de lugares apropriados e o tempo é uma reunião de momentos oportunos. * Crítica ao espaço e tempo como recipientes vazios. * Caracterização do tempo como o momento certo ou errado. * Unicidade temporal dos entes em oposição à repetibilidade idêntica. [14] * A definição do //Dasein// pela existência implica que seu ser é sempre "meu" e está em jogo, resistindo à classificação sob universais ou gêneros antropológicos. * Distinção entre existência humana e a essência de coisas (quididade). * Risco de transformar o "eu" em objeto ao buscar definições regionais. * Necessidade de decidir sobre o próprio ser. [15] * A autenticidade e a inautenticidade constituem modos de pertencimento onde o //Dasein// ou se perde nas normas do impessoal (//das Man//) ou apropria sua tradição e situação de forma resoluta. * O "impessoal" como pertencimento e doação simulados. * Autenticidade como apropriação da herança e resposta ao futuro. * Impossibilidade de abolição total do "impessoal". [16, 17] * A angústia desempenha o papel crucial de romper a familiaridade cotidiana, revelando o não-estar-em-casa (//Unheimlichkeit//) que força uma transição da imersão passiva para a apropriação ativa diante da expropriação. * Descoberta da contingência do significado. * Retorno ao mundo de forma resoluta após o confronto com o abismo. [18] * A interdependência entre ser e //Dasein// é mediada pela temporalidade extática, que serve de horizonte transcendental para a projeção de possibilidades e a compreensão do ser. * //Dasein// como //Seinkönnen// (poder-ser) projetivo. * Caráter extático do tempo que leva o sujeito "para fora" em direção aos entes. * Falha na elaboração dos esquemas horizontais na terceira divisão planejada. [19, 20] * O projeto transcendental de //Ser e Tempo// difere do kantiano ao não buscar verdades a priori fixas, mas sim iluminar a condição situada e histórica do //Dasein//, mantendo a compreensão em um círculo hermenêutico contínuo. * Rejeição de proposições cegas e isoladas sobre o ser. * Natureza situada e finita de toda compreensão extática. * Fim da interpretação como decadência do entendimento. [21, 22] * A obra //Ser e Tempo// contém tensões não resolvidas entre a fenomenologia do particular histórico e a busca tradicional por estruturas necessárias a priori, ambiguidade que as //Contribuições// tentarão superar pensando o //Dasein// como possibilidade histórica futura. * Oscilação entre "possibilidades ônticas" e "necessidade a priori". * Instabilidade da distinção entre existencial e existenciário. * Dependência residual da distinção metafísica entre universal e particular. [23] {{tag>Polt dação Gegebenheit}}