====== 0 Introdução ====== //POLT, Richard F. H. The emergency of being: on Heidegger’s contributions to philosophy. Ithaca, NY: Cornell Univ. Press, 2006.// **A Emergência do Ser** 1. A presente obra propõe uma confrontação com os //Contribuições à Filosofia// (Beiträge zur Philosophie) que não visa reduzir o texto a conceitos familiares nem refutá-lo, mas engajar-se com ele numa confrontação sobre "as coisas mesmas", respeitando e aprendendo com esse modo de pensar precisamente ao lutar com ele. * Numa confrontação, mais deve estar em jogo do que conjuntos concorrentes de afirmações, e as partes devem permanecer focadas numa preocupação compartilhada. * Embora se busquem vários pontos de entrada no texto, o objetivo principal poderia ser chamado de "extradução": conduzir a si mesmo e aos leitores através do texto e para fora dele, a fim de encontrar as questões em jogo. * A própria distinção entre dentro e fora é, em última análise, artificial, pois não se pode habitar "dentro" de um texto sem interpretar o tema que jaz "fora" dele. 2. O tema central da confrontação com os //Contribuições// é a emergência (Not), pensada como o modo pelo qual o ser entra no que lhe é próprio, e o encontro genuíno com os entes (das Seiende) exige um momento raro e urgente de apropriação e de ser apropriado pela significância dos entes como um todo. * Heidegger costuma chamar essa significância de ser (Sein), enquanto o evento de apropriação, no qual o ser emerge, é chamado de //Seyn//, traduzido como "ser-endo" (be-ing). * O coração da história, para Heidegger, não é uma sequência de ocorrências, mas o acontecimento do ser-endo — a erupção de significância em "inícios" (inceptions) ou conjunturas críticas que decidem o curso de uma época. * Um início apropriar-se-ia de nós ao tornar todo ente, incluindo o nosso próprio ser, uma questão urgente; embora tal momento possa não exigir ação imediata, a palavra emergência descreve apropriadamente como um evento extraordinário nos põe em questão. 3. Heidegger acusa a tradição de esquecimento da emergência do ser, e as três alternativas políticas do século XX — democracia liberal, comunismo e fascismo — vêm todas a ser atacadas, pois a política contemporânea, junto com a ciência, a filosofia e a religião, faz parte de uma cultura ocidental que Heidegger vê como alienada do acontecimento da história. * Esse esquecimento traz consigo a hybris de supor que se pode estabelecer um modo absoluto e ahistórico de representar e manipular os entes, o que constitui uma traição ao papel único do //Dasein// (ser-aí) como guardião e cultivador do ser emergente. * Os //Contribuições// tentam nos chocar para uma consciência da crise atual — a emergência da falta de urgência (die Not der Notlosigkeit) — ao expor o esquecimento do ser. * Heidegger busca um caminho para além dessa crise refletindo sobre suas raízes antigas e desenvolvendo um novo modo de pensar apropriado ao evento de apropriação. 4. As questões centrais da interpretação proposta são: como o ser emergiria numa emergência? Como essa emergência nos atrairia para o nosso próprio mundo e nosso próprio modo de abordar tudo o que é? E como pensar e falar adequadamente desse evento? * Interpreta-se o //Ereignis// (evento de apropriação) como um acontecimento único que não é efetivamente a priori ou "sempre já", mas um evento possível que exige ser pensado numa tonalidade futuro-subjuntiva, como um "e se?". * Tal pensamento não é descrição do que é direta ou indiretamente dado, mas um pensamento experimental que se aventura na possibilidade do evento que se oculta a si mesmo ao dar. * Contra a maioria dos intérpretes, escolhe-se a //difficilior lectio// — uma leitura mais difícil, não porque contradiga o texto de Heidegger, mas porque perturba nossos modos recebidos de conceber. 5. Embora a confrontação com os //Contribuições// exija uma interpretação cerrada do texto, não se pretende um comentário exaustivo, dada a extensão e riqueza do livro, oferecendo-se leituras detalhadas de passagens particularmente importantes e percorrendo o texto livremente para reunir referências relevantes. * Discutem-se todas as principais ideias "positivas" dos //Contribuições//, mas pouco se diz sobre suas ideias "negativas", pois as críticas de Heidegger à filosofia tradicional e ao mundo moderno não podem ser julgadas adequadamente antes de confrontarmos sua fonte — o pensamento do //Ereignis//. * No capítulo final, no entanto, engaja-se com partes da crítica de Heidegger — seus ataques ao liberalismo e à razão — a fim de iniciar uma resposta à sua caracterização do Ocidente. 6. Outra tarefa que se teve de abandonar é uma exposição do lugar dos //Contribuições// no conjunto dos escritos de Heidegger, bem como suas infinitas conexões com outros pensadores, embora se recorra a outros textos heideggerianos e se discuta em algum detalhe a evolução desde //Ser e Tempo//. * O foco principal é o que se considera distintivo dos próprios //Contribuições//, que possuem um tom e uma abordagem características que se coadunam com sua compreensão de apropriação — uma compreensão que pode não coincidir com obras posteriores, que parecem diluir a urgência, a unicidade e a historicidade do //Ereignis//. * Determinar a relação precisa entre os //Contribuições// e os escritos posteriores de Heidegger exigiria muito mais trabalho textual e filosófico do que se realizou, e ainda se aguarda a publicação de alguns textos privados dos anos imediatamente seguintes aos //Contribuições//. * Seria provavelmente verdade que se poderia encaixar os //Contribuições// numa interpretação unitária do pensamento de Heidegger se simplesmente se descartasse sua "linguagem apocalíptica... o drama cósmico, as metáforas místicas, o bombástico teutônico". 7. Antes de descartar essa linguagem, porém, deve-se meditar sobre o apocalipse, pois //apocalypsis// significa exatamente o mesmo que //aletheia//: desvelamento, revelação, e pode ser que a verdade aconteça num momento de crise. * Pode ser que o foco dos //Contribuições// na emergência ofereça uma compreensão distinta e valiosa da verdade e do ser — incluindo o nosso próprio ser. * Entre as tendências decisionistas de //Ser e Tempo// e a //Gelassenheit// quase quietista dos textos posteriores, os //Contribuições// podem deixar espaço para a ação livre, pensando muito além dos conceitos tradicionais de subjetividade e vontade. 8. A primeira e mais próxima interpretação de um texto em língua estrangeira é a tradução, e a tradução de Parvis Emad e Kenneth Maly dos //Contribuições// representa anos de labor interpretativo; no entanto, apresentam-se aqui traduções e paráfrases próprias, primeiro para não se poupar o trabalho de interpretar cada palavra de novo, e segundo porque a tradução existente é frequentemente peculiar, inconsistente ou enganosa. * Apesar de algumas criações felizes (como "be-ing" para //Seyn//, adotada com gratidão) e do fato de Heidegger inventar palavras nos //Contribuições//, os tradutores recorreram a neologismos com demasiada frequência, e suas construções mais bizarras (como "enswaying" e "charming-moving-unto") tornaram a névoa em torno do texto quase impenetrável. * Esse tipo de esoterismo é extrínseco e impede os leitores de confrontar o mistério intrínseco; prefere-se usar palavras inglesas estabelecidas, permitindo que suas conotações se adaptem a um novo contexto, pois Heidegger mesmo costuma adotar palavras normais (como //Ereignis// e //Wesen//), de modo que, mesmo ganhando novos significados, mantêm conexão com o antigo. * Em particular, não se conseguiu empregar "enowning" como contraparte inglesa significativa para //Ereignis//, e os argumentos dos tradutores contra "event" e "appropriation" são pouco convincentes, traduzindo-se //Ereignis// por "apropriação", "evento apropriador" e "evento de apropriação". 9. Decidiu-se também traduzir //Da-sein// (geralmente hifenizado nos //Contribuições//) como "ser-aí" (being-there), pois, desde a publicação da versão de Macquarrie e Robinson de //Ser e Tempo// em 1962, a maioria dos estudiosos anglófonos deixou //Dasein// sem tradução, com a notável exceção de William J. Richardson, que usa "There-being" em sua obra de 1963. * Segue-se Daniel Dahlstrom quanto a ser hora de encontrar modos de falar sobre a questão em inglês, pois //Dasein// corre o risco de servir como jargão tão familiar que não mais se para para considerar o que significa. * Dahlstrom recomenda "being-here"; para os propósitos aqui, "being-there" é melhor, porque os //Contribuições// sugerem que ainda não somos //Da-sein//, ou não plenamente. * Em "ser-aí" devem-se ouvir vários significados: primeiro, ser-aí é estar situado num "aí", habitando um lugar ou mundo; segundo, é um modo de ser o "aí" — existindo como um sítio (SZ 133); terceiro, é o "aí" para o ser — o sítio onde o significado dos entes como tais pode ser manifestado, cultivado e transformado. **A Turbulência Esotérica dos Contribuições** 1. Até aqui não se confrontaram os //Contribuições//, mas apenas se anunciou a confrontação; a confrontação mesma precisa começar pelo estilo do livro, perguntando como ele resiste ao desejo de uma doutrina direta e consistente, por que é tão turbulento e esotérico e o que exige de seus intérpretes. 2. Heidegger afirma que a busca de seu único "caminho" filosófico exige uma mudança de pontos de vista (84); se a filosofia é uma doutrina — um sistema de asserções —, essa afirmação é um paradoxo, pois uma mudança nas asserções é uma mudança na filosofia. * Heidegger sempre insiste que a verdade não é uma questão de asserções; asserções repousam sobre um desvelamento mais primordial, uma abertura para os entes e para o ser. * Um texto ponderado deve deixar suas afirmações brotarem sempre de novo de uma experiência de uma questão (21) e tentar evocar uma experiência análoga no leitor; tal texto não prova nada, se provar significa estabelecer que uma asserção é indubitavelmente correta. * A filosofia prova-se apenas ao ser bem-sucedida em exibir a questão para a qual suas asserções apontam, e o esforço de exibição tem de envolver tanto o escritor quanto o leitor; o processo é vacilante — "colapso e escalada" (84) — porque a revelação nunca é total. 3. Mas por que um foco persistente na mesma questão levaria a uma mudança de pontos de vista? É preciso olhar mais de perto para as limitações da exibição. * //Ser e Tempo// tenta mostrar que a presença requer a interação de passado e futuro (SZ 350); nosso passado, nossos hábitos e herança, é a fonte da qual extraímos possibilidades futuras, e graças a essas possibilidades somos capazes de lidar com as coisas — compreendê-las. * Interpretar é, então, um evento intrinsicamente finito: nunca pode abolir nem a arremessabilidade (thrownness) incontrolável que vem com o ter um passado, nem as antecipações preconceituosas que vêm com o ter um futuro. * A interpretação nunca pode garantir sua completude e permanência assegurando um acesso imediato e puro ao seu objeto; mas, embora não se possam eliminar os limites da interpretação, pode-se trabalhar com eles e desafiá-los numa divulgação contínua. * Nosso passado pode ser criticado e recuperado; nossos preconceitos podem ser alterados numa tentativa de fazer justiça à coisa que interpretamos (SZ 153); este é o significado de //Sachlichkeit// — devoção às //Sachen//, às coisas mesmas —, uma disposição para lutar com as questões e consigo mesmo numa interpretação que reconhece sua própria temporalidade. 4. O desvelamento não está contido em nenhuma asserção particular gerada por essa interpretação; ele ocorre no próprio movimento interpretativo, desde que continuemos a confrontar a questão em pauta e os limites de nossa compreensão. * Consequentemente, uma afirmação que participa do evento da verdade num momento pode, num momento posterior, ficar presa numa compreensão estagnada que já não interpreta ativamente. * Interpretações da mesma coisa devem permanecer em movimento para permanecerem leais à coisa. 5. Movimento não é idêntico a alteração; a interpretação pode permanecer em movimento mesmo que consista simplesmente em esforços repetidos de apreender algo com as mesmas palavras e conceitos. * De fato, esse estilo repetitivo é comum nos //Contribuições// e em outros manuscritos privados de Heidegger; a tarefa é evitar repetir suas afirmações como mantras e pensá-las de novo a cada ocasião. * Desse modo, nossa compreensão permanece em movimento, mesmo que se mova apenas em círculo; no entanto, a alteração pode e deve fazer parte do movimento da interpretação. * O círculo pode tornar-se um verdadeiro círculo hermenêutico — ou uma hélice que aprofunda sua abordagem ao tema a cada nova volta; à medida que descobrimos nossas limitações, nossas palavras e pensamentos podem mudar. * Tal progresso não é progresso ascendente, a construção de uma catedral do pensamento; é progresso descendente, a escavação de nossos próprios fundamentos, a descoberta de um leito rochoso esquivo que sempre ameaça ser coberto novamente pelos escombros que geramos ao desobstruí-lo. * A turbulência dos //Contribuições// — sua busca ora apressada, ora hesitante de novas abordagens ao mesmo tópico — não se deve ao fato de o texto ser um conjunto de notas e não uma obra acabada; a turbulência é um aspecto essencial da interpretação como Heidegger a vê. 6. Mas o livro não é apenas hermenêutico; é hermético; não apenas está engajado numa luta constante, mas também parece recusar-nos acesso ao seu santuário interior, frustrando o desejo de clareza em pontos cruciais. * Qual é a fonte desse esoterismo? Um texto esotérico mantém seu significado no "interior", onde apenas alguns têm o privilégio de entrar. * Mas o que significa estar dentro ou fora de um texto? E pode-se escrever sobre um texto esotérico sem ser esotérico? 7. Ser admitido num texto é ser admitido numa experiência da questão do texto; um texto esotérico mantém vigilância sobre quem é admitido na vizinhança de sua questão, tendo uma política de admissões restritas. * Como os //Contribuições// impõem essa política? Quem eles admitem e excluem? Por que são exclusivos em primeiro lugar? 8. Por décadas, os //Contribuições// foram privados num sentido óbvio: não publicados, e sua própria existência era matéria para conhecedores; Heidegger mostrou o texto apenas a alguns confidentes que comunicaram breves seleções a outros estudiosos. * Nos últimos anos de Heidegger, ele especificou que os //Contribuições// e outros textos privados só poderiam ser publicados após todos os seus cursos (513). * Isso faz bastante sentido: os //Contribuições// são escritos num estilo tão condensado e alusivo que garantidamente afugentam um noviço em desespero, enquanto os cursos geralmente começam pela tradição e pelo senso comum, dedicando-se primariamente a desafiar nossas pressuposições. 9. Os cursos, então, fornecem a chave que destranca os //Contribuições// e nos admite a uma experiência da questão em jogo? * Os //Contribuições// frequentemente pressupõem familiaridade com os cursos e com //Ser e Tempo// — não há razão para discutir com a recomendação de Heidegger de que leiamos outros textos primeiro. * No entanto, isso não apagará o esoterismo dos próprios //Contribuições//: "Os cursos sempre permanecem superficiais; dentro da disposição fundamental, começam num trecho aparentemente arbitrário do caminho e, desse ponto, oferecem vistas do todo" (GA66, 421). * Para compreender por que os pontos de partida dos cursos não são realmente arbitrários, é preciso já compartilhar a disposição fundamental: é preciso já estar iniciado na experiência do tópico do pensamento de Heidegger. * "Talvez em algum momento posterior, alguns consigam experienciar o que é mantido em silêncio [nos cursos]... e então sejam capazes de situar o que é explicitamente dito dentro de seus [próprios] limites" (GA66, 421). * Os cursos, então, sempre "vêm de fora" (GA69, 173); como textos exotéricos, não podem ser plenamente compreendidos a menos que já se compreenda a posição a partir da qual Heidegger fala — portanto, é preciso lutar com os //Contribuições// esotéricos. 10. Quando nos voltamos para os próprios //Contribuições//, por mais bem que conheçamos os cursos, descobrimos que o estilo do livro impõe seu esoterismo — tanto que, embora o texto tenha sido publicado, seu significado dificilmente pode ser considerado público. * Considere-se o segundo parágrafo do §1: ele nos adverte desde o início que o texto "ainda não é capaz de juntar [fugen] a junção livre [Fuge] da verdade do ser-endo a partir do próprio ser-endo"; seu centro de gravidade ainda não jaz no coração de seu tópico (4). * Assim, para compreender o texto, já devemos ter construído nosso próprio caminho para uma questão que não é abordada com sucesso no próprio texto. * Quando Heidegger tenta dizer algo sobre o coração da questão, na conclusão do parágrafo em consideração, recorre a uma frase enfática mas altamente obscura, expressa em termos idiossincráticos: a "essência do ser-endo em seu tremor... então se fortalece no poder da brandura liberada de uma intimidade daquela divinização do deus dos deuses, a partir da qual a atribuição do ser-aí ao ser-endo, como a fundação da verdade para o ser-endo, entra no que lhe é próprio" (4). * As palavras são como emissárias do santuário interior, tokens enviados do centro oculto; como palavras de um oráculo, parecem falar uma linguagem privada. * Esse parágrafo usa jogos de palavras, sons repetidos e neologismos: fugen, Fuge, Gefüge; Götterung des Gottes der Götter; //Ereignis// ecoa em sich ereignet ("entra no que lhe é próprio" ou, em seu sentido usual, "acontece"). * A expressão estranha "tremor" (Erzitterung) é aplicada ao ser-endo, sem explicação; de fato, nenhuma das palavras-chave é explicada ou definida. * Algumas delas são enfatizadas, mas como não somos iniciados em seu significado, a ênfase apenas aumenta o mistério; essa passagem da abertura do livro nos mostra que o livro não tem abertura: o começo pressupõe um vocabulário que nunca será definido em termos familiares. * Não há estrada real para o significado do texto; em vez disso, Heidegger experimenta com famílias de palavras, esboçando e desesboçando conexões, esforçando-se por dizer o que sabe que está falhando em dizer. * O efeito desse estilo é que nenhuma passagem isolada é inteligível por si só; em vez disso, devemos debater-nos e aprender a nadar. 11. Quem afundará e quem permanecerá à tona? O estilo de Heidegger exclui aqueles que não estão familiarizados com seus escritos anteriores; aqueles que não estão familiarizados com a história da filosofia ou demasiado entrincheirados em alguma de suas fases; e, acima de tudo, aqueles que não estão dispostos a experienciar uma transformação. * Os admitidos são aqueles que seguiram muito do caminho de Heidegger até agora e que estão dispostos a ir mais longe — não porque é o caminho dele, mas porque também faz parte de seu próprio caminho. * Devemos experienciar sua tentativa como vinda de longe e pertencente intimamente a nós (8). 12. Talvez isso possa ser dito de qualquer texto: apenas aqueles com o background necessário e tenacidade serão admitidos a uma experiência da questão sobre a qual o texto trata. * Mas um texto não esotérico não apresenta barreiras deliberadas aos não qualificados, e pode até tentar superar as barreiras que esses leitores carregam consigo. * Um texto esotérico, em contraste, afasta ativamente os não qualificados; ou os impede de ver qualquer coisa, ou os aponta para uma mensagem pública (exotérica) que oculta e protege a mensagem verdadeira. * Os //Contribuições// são do primeiro tipo: aos não qualificados, não apresentam uma mensagem enganosa, mas nenhuma mensagem — são ininteligíveis. 13. Por que escrever esotericamente? Um motivo pode ser a proteção pessoal contra perseguição política ou religiosa. * Esse motivo pode parecer aplicar-se a Heidegger: os //Contribuições// frequentemente atacam a ideologia nazista, e certamente não poderiam ter sido publicados no final dos anos trinta sem expor Heidegger a sério perigo. * De fato, o texto está em desacordo não apenas com o nazismo, mas com todas as formas correntes de organização política; e Heidegger estava preocupado com sua posição política (testemunhe sua estipulação de que sua entrevista de 1966 com Der Spiegel só poderia ser publicada após sua morte). * Mas a cautela de um autor não torna, por si só, um texto esotérico; um manuscrito tratado com sigilo, não publicado durante a vida do autor, não é necessariamente um manuscrito esotérico. * De fato, os //Contribuições// são bastante diretos em suas críticas políticas, mesmo que raramente entrem em especificidades; a dimensão política deste livro não é a raiz de seu esoterismo. 14. Num escritor como Platão encontramos motivos mais profundos para a escrita esotérica; não apenas Platão é politicamente cauteloso (como um seguidor de Sócrates bem poderia ser), mas também representa os seres humanos como pertencentes a diferentes ranks. * O verdadeiro retórico deve ser um psicólogo especialista que adapta seu discurso à alma de sua audiência (Fedro 271d, 277b-c). * Livros — os comuns, isto é — falam a todos com a mesma voz, então são desajeitados e frequentemente prejudiciais (Fedro 275c). * Platão parece ter concebido seus diálogos de tal modo que diferentes audiências serão afetadas de modo diferente por eles, mas cada efeito será benéfico para a audiência particular afetada. * Por exemplo, o Fédon apresenta uma série de argumentos para a imortalidade da alma, todos falhos, bem como uma série de mitos; aqueles que aceitam os mitos ou os argumentos sairão com uma crença salutar; aqueles que desafiam os argumentos e reconhecem os mitos como mitos sairão com algo melhor: tornar-se-ão participantes da vida examinada. 15. Nos //Contribuições//, Heidegger não escreve desse modo platônico; o seu é o tipo de texto esotérico que é simplesmente opaco aos de fora, em vez de lhes oferecer uma alternativa salutar à mensagem esotérica. * No entanto, ele compartilha a insistência de Platão em classificar os seres humanos (§5, §45, §§248-52) e, como Platão, usa a capacidade para a filosofia como seu principal critério. * Para Heidegger (e discutivelmente para Platão), filosofia significa um engajamento autotransformador no questionamento, não a construção argumentativa de teorias (13-14). * Suas sentenças são elusivas, evocativas, inter-relacionadas mas não sistemáticas, de modo que qualquer um que queira extrair uma teoria do texto ficará frustrado; ele assim exclui o establishment filosófico. * Aqueles que procedem além do brando e vazio "título público" //Contribuições para a Filosofia// e que conseguem pensar //Of Appropriation// serão "os poucos e os raros" capazes de questionamento solitário (11). * Heidegger afirma não se importar com os mal-entendidos que possam assolar seu projeto entre os muitos: se uma decisão em favor do ser-endo alguma vez se expressar, é inevitavelmente mal interpretada, e esse próprio mal-entendido a protege do "apalpar vulgar" (92). 16. O elitismo é profundo nos //Contribuições//; Heidegger frequentemente expressa desprezo pela compreensão média, que associa à racionalidade. * Ele afirma que a razão destrói a verdade ao ignorar diferenças de rank e tratar o desvelamento como se fosse igualmente acessível a todos (343, cf. 65). * Pode-se perguntar se ele fez justiça à razão — mas essa avaliação crítica terá de esperar. * Por ora, devemos ver que seu desgosto pela acessibilidade e clareza racional está ligado à sua compreensão da verdade e do ser-endo. * O acontecimento do ser-endo não é algo que possa ser representado a qualquer momento, como se queira, a quem se escolha (251). 17. Aproximamo-nos do sentido mais profundo em que este texto é esotérico; os tipos de esoterismo considerados até agora baseiam-se na prudência: seria incauto declarar certas visões diretamente, porque isso poderia ser danoso ao autor (se as visões são controversas), à audiência (se não está preparada para apreender as visões adequadamente) ou ao significado do texto (se cai nas mãos de intérpretes que o julgariam por um padrão alheio). * Todos esses tipos de esoterismo são extrínsecos: o mistério dos pensamentos filosóficos não é crucial para os próprios pensamentos, mas é imposto pelo estilo cauteloso do autor. * No entanto, pode haver também um esoterismo intrínseco, como sugere Schelling: "A filosofia é necessariamente esotérica, por sua própria natureza. Não há necessidade de tentar mantê-la secreta, pois, em vez disso, ela é essencialmente misteriosa." 18. Mesmo que tenhamos nos qualificado como pensadores genuínos no sentido de Heidegger e tenhamos nos familiarizado com sua linguagem, os //Contribuições// não podem nos dar acesso direto ao seu tópico, porque esse tópico é ele mesmo intrinsicamente inacessível ao pensamento "direto". * O evento do ser-endo se retrai no próprio momento de conceder o ser (a significância dos entes); o ser nasce no clarão ofuscante de um início que deve permanecer inexplicável — pois toda explicação fica aquém do início e o degrada (188). * O evento de emergência não é ele mesmo algo que emergiu; a fonte da abertura não é ela mesma aberta; a origem da doação não é ela mesma dada. * O que é claro e distinto, então, só pode ser o derivado; Heidegger põe isso nos termos mais histriônicos quando declara que, se a filosofia se torna compreensível, ela comete suicídio (435). * (Em "Das Ereignis" ele tira a conclusão de que verdadeiros filósofos nunca buscam compreender outros filósofos, mas apenas intensificar o questionamento.) 19. Muitos objetariam: não é a missão do filósofo precisamente clarificar o obscuro, lançar luz sobre o misterioso? * Em resposta, Heidegger insistiria que não é apenas seu texto que é esotérico, mas seu tópico mesmo que é escuro. * Temos de nos desacostumar da noção de que o escuro é o que ainda não foi iluminado, o que se mostraria plenamente se apenas encontrássemos o acesso correto a ele. * Quando se trata do ser-endo, o acesso correto é parcial e indireto; uma apresentação obscura de um tópico obscuro é, num sentido, mais clara do que uma apresentação clara desse tópico. * A apresentação obscura faz justiça à obscuridade da coisa; quando o tópico do pensamento é autovelante, então não há diferença entre buscar e encontrar (80): a questão obscura, a busca frustrada, é ela mesma a resposta mais apropriada à coisa. 20. O objetivo de Heidegger nos //Contribuições// era "dizer a verdade do ser simplesmente". * No entanto, o ser se revela enigmático, não porque seja demasiado complexo, mas precisamente porque é tão "simples" — tão básico para tudo o que fazemos e dizemos. * O dizer simples do tópico simples do ser torna-se um dizer que não diz, um silêncio revelador (78-80). * O silêncio revelador torna os //Contribuições// um texto intrinsecamente esotérico; como estilo de escrita, brota da "contenção" (restraint) como estilo de ser-aí (15, 33-34). * A existência e o discurso contidos estão sintonizados com o ser-endo como o que nos deixa sem palavras — o que não pode ser explicado proposicionalmente, mas apenas nomeado poeticamente (36). * A contenção nos permite responder ao estranho sem reduzi-lo ao familiar. 21. A contenção heideggeriana é paralela à ironia socrática; a ironia não é nem um cacoete pessoal de Sócrates que nada tem a ver com seu pensamento filosófico, nem uma tese que possa ser apoiada por um argumento socrático. * É um estilo de existir que permeia o que Sócrates faz, diz e não diz — um estilo que não é arbitrário, mas se baseia na própria experiência de Sócrates do que está em jogo na vida. * Fazemos violência à ironia socrática, diferimos de Sócrates, assim que tentamos explicar a ironia em vez de participar dela. * Mas podemos dizer que a ironia de Sócrates aponta para sua experiência de seus próprios limites, uma experiência que o torna menos limitado do que aqueles que ainda não experienciaram seus limites. 22. Heidegger, também, fala a partir de uma experiência de finitude — finitude como apropriação. * Como veremos, com base nessa experiência ele rejeita o postulado socrático-platônico das formas, as ideai que servem para orientar uma vida vivida em ironia socrática. * Teremos de perguntar se essa rejeição é justificada e se Heidegger mesmo evita postular uma ideia. **Lendo os Contribuições** 1. Revisitaremos o estilo dos //Contribuições// em maior profundidade quando estivermos prontos para conectá-lo mais completamente ao seu conteúdo; mas nosso olhar preliminar sobre a turbulência esotérica do livro já pode nos dar algumas diretrizes para lê-lo. 2. Primeiro, se o ponto de um texto filosófico é revelar uma questão, essa revelação deve depender do leitor pelo menos tanto quanto do escritor. * O texto exige que pensemos junto com ele: "compreender [um filósofo] sempre significa... deparar-se com os mesmos problemas por conta própria" (GA28, 185). * Mas como podemos ter certeza de que nós e o escritor estamos pensando sobre a mesma coisa? Não podemos. * Tudo o que podemos fazer é deixar as palavras do escritor ressoarem com nossos próprios pensamentos e descobrir se as intuições que ganhamos desse modo nos conduzem produtivamente de volta ao texto, mostrando-nos novas facetas dele. * Enquanto esse processo continuar, o leitor e o escritor têm boa chance de estar engajados num diálogo sobre o mesmo tópico. 3. Isso não sugere que o leitor deva concordar com o escritor ou usar as mesmas palavras; um foco compartilhado traz consigo a possibilidade e até a necessidade de pensamentos divergentes. * Como nossa situação difere da de Heidegger, nossos pressupostos e expectativas diferem; para desafiar esses limites de nossa compreensão, precisamos de meios que difiram dos dele. * Pensar o mesmo que Heidegger não significa ser "heideggerianos" que recitam suas palavras e imitam seus maneirismos; estritamente falando, não existe algo como um heideggeriano. * Tal criatura teria de aceitar todas as asserções de Heidegger — incluindo a asserção de que pensar não é uma questão de aceitar ou rejeitar asserções. * (Claro, sempre haverá aqueles que se chamam ou são chamados de "heideggerianos", assim como há "platônicos" e "nietzscheanos".) * Uma explicação de Heidegger em termos puramente heideggerianos é útil apenas como uma coleção conveniente de citações, um resumo para leitores; é uma ferramenta de referência, não uma obra de interpretação. 4. Como podemos desenvolver um vocabulário próprio que difira da linguagem de Heidegger sem descartá-la? Se estamos escrevendo em inglês, esse problema é especialmente agudo: somos forçados a "traduzir" os pensamentos de Heidegger para uma língua estranha. * E segundo ele, não apenas é impossível transferir um pensamento intacto de uma língua para outra, mas o grego e o alemão são unicamente adequados ao pensamento filosófico. * Antes de descartar essa visão como chauvinismo, temos de refletir sobre certas desvantagens do inglês. * Em alemão, é mais fácil transferir um significado de uma parte do discurso {{tag>Polt GA65 Sein Seyn Ereignis}}