====== 8 Outro início ====== //PÖGGELER, Otto. Der Denkweg Martin Heideggers. Pfullingen: Neske, 1963. (Com sucessivas edições revistas e ampliadas: 2. Aufl. 1983; 3. Aufl. 1990; 4. Aufl. Stuttgart: Klett-Cotta, 1994).// * O outro início exige retomar a questão do fundamento esquecido pela metafísica: a verdade do ser acontece historicamente e só pode ser experienciada mediante a inserção nesse acontecer, cuja proveniência deve ser procurada na história ocidental. * O percurso inicial por Aristóteles, pela teologia cristã, por Kierkegaard, Dilthey e Kant cede lugar ao confronto com Nietzsche, pois nele a metafísica moderna alcança uma consequência extrema que exige uma decisão sobre seus próprios pressupostos. * A investigação histórica de Dilthey permanece presa à exigência moderna de estabelecer o verdadeiro como constante e verificável; o historicismo reconhece a situação histórica do conhecimento, mas deixa de perguntar por essa situação como lugar em que a verdade do ser pode acontecer. * A oposição religiosa de Kierkegaard a Hegel, assim como a de Pascal a Descartes, conserva a estrutura conceitual da metafísica que contesta; por isso, uma resposta de fé que simplesmente se contraponha ao pensamento metafísico não alcança o fundamento histórico deste. * A relação entre pensamento e fé torna-se uma questão decisiva quando a tradição judaico-cristã passa a ser interrogada quanto a seus vínculos com a ontoteologia, embora permaneça em aberto a possibilidade de que sua exigência histórica seja novamente ouvida. * A busca de um vestígio mais originário da verdade do ser conduz ao pensamento grego anterior à metafísica, à tragédia e à arte gregas; a palavra poética de Hölderlin torna-se decisiva porque acolhe e transforma essa proveniência para outro tempo histórico. **O primeiro início do pensamento** * Parmênides, Heráclito e Anaximandro tornam possível interrogar a experiência grega inicial do ser como desocultamento, anterior à sua fixação metafísica como presença constante e fundamento disponível. * O início grego não constitui uma etapa passada que possa ser simplesmente restaurada: sua força reside no que permaneceu impensado na passagem do desocultamento à determinação metafísica do ente e que ainda pode solicitar o pensamento. * Em Anaximandro, a presença dos entes remete a uma articulação temporal na qual surgimento e desaparecimento pertencem ao modo como cada ente demora; a justiça não se reduz, assim, a uma regra moral aplicada às coisas. * Em Heráclito, o aparecer mantém uma relação essencial com o ocultar-se: a reunião dos contrários não elimina o conflito, mas deixa entrever a tensão na qual o ente pode mostrar-se. * A proximidade entre o pensamento inicial e a palavra poética não apaga sua diferença: ambos guardam, cada qual a seu modo, a abertura da verdade, enquanto o pensamento a acolhe pela interrogação e a poesia pelo dizer que nomeia. **O caráter inicial da arte** * A obra de arte torna-se decisiva para a questão do ser porque nela a verdade acontece, em vez de apenas servir como objeto de uma apreciação estética ou representar uma verdade previamente estabelecida. * A análise do mundo em Ser e tempo, orientada sobretudo pela relação cotidiana com os utensílios, ainda não explicita suficientemente aquilo que se resguarda no aparecer dos entes; a meditação sobre a arte permite pensar a verdade na tensão entre mundo e terra. * Mundo designa a abertura de relações na qual uma existência histórica encontra sentido, enquanto terra designa o que se abriga e resiste ao esgotamento por qualquer exposição; sua disputa pertence ao próprio acontecer da verdade na obra. * A obra não copia uma realidade já plenamente conhecida: ela instaura um modo de aparecer no qual as coisas, os lugares e as relações humanas podem adquirir sua determinação histórica. * A verdade que a arte põe em obra preserva uma dimensão de ocultação; por isso, o nada e o retraimento deixam de significar apenas ausência e passam a indicar aquilo que impede a redução da abertura a um fundamento inteiramente disponível. * A obra funda história ao abrir um mundo e fazer surgir a terra como aquilo que o sustenta e excede; sua força inaugural não pode ser deduzida das possibilidades já reconhecidas em uma época. * A interrogação pela verdade da arte conduz também à questão do sagrado: a abertura histórica pode acolher uma manifestação do divino, mas não oferece ao homem posse ou garantia sobre ela. **Hölderlin e o outro início** * A poesia de Hölderlin ganha importância singular porque nomeia o sagrado em um tempo marcado pela ausência dos deuses, sem converter essa ausência em simples falta que a vontade humana pudesse suprir. * O retorno ao lar exige a travessia pelo estrangeiro: o próprio só se torna acessível mediante uma experiência histórica do que lhe é estranho, e não pelo fechamento em uma origem já possuída. * Os rios da poesia de Hölderlin abrem lugares de habitação e de passagem; seu curso reúne proveniência, distância e chegada, tornando sensível o caráter histórico do habitar humano. * O poeta e o rio participam da instituição de um lugar para os mortais porque, situados entre estes e o divino, deixam entrever o sagrado sem transformá-lo em objeto de domínio. * A tragédia de Sófocles e os hinos de Hölderlin tornam manifesta a inquietude da existência humana: sua capacidade de abrir caminhos, construir e ordenar não lhe concede poder para fundar por si mesma a verdade em que habita. * O dizer poético de Hölderlin é um nomear originário, e não a atribuição de um significado simbólico a coisas previamente conhecidas; ao nomear o rio ou a terra, deixa que apareçam em uma essência que a descrição científica pressupõe sem poder instituir. * A verdade como acontecimento apropriador (Ereignis) requer um pensamento capaz de escutar a palavra poética sem se confundir com ela, interrogando como o desocultamento pode mostrar-se como sagrado e reunir-se historicamente na proximidade do divino. * Terra e céu, divinos e mortais compõem a quadratura (Geviert) na qual o mundo pode ser pensado para além da soma dos entes ou de um horizonte produzido pelo homem; o outro início exige aprender a habitar e a pensar a partir dessa pertença. {{tag>Pöggeler outro-início}}