====== Epílogo 1983 ====== //PÖGGELER, Otto. Der Denkweg Martin Heideggers. Pfullingen: Neske, 1963. (Com sucessivas edições revistas e ampliadas: 2. Aufl. 1983; 3. Aufl. 1990; 4. Aufl. Stuttgart: Klett-Cotta, 1994).// **Epílogo à segunda edição alemã [1983]** * O caminho do pensamento de Heidegger não constitui uma evolução linear rumo a uma doutrina acabada: seus percursos sucessivos põem à prova possibilidades herdadas da filosofia e transformam, a cada passo, a própria questão que os orienta. * A força histórica de um pensamento se revela nas novas questões que torna possíveis, como ocorreu com Platão, Aristóteles e Kant; também a importância de Heidegger depende da transformação que imprimiu à filosofia, e não da possibilidade de encerrar sua obra em um conjunto estável de teses. * Ser e tempo abre uma via que ultrapassa tanto a determinação clássica do ser pela substância e pelo ente supremo quanto a busca moderna de um acesso seguro aos entes pela autoconsciência; a historicidade da existência conduz à questão da verdade do próprio ser como acontecimento apropriador (Ereignis). * Os termos fundamentais desse percurso adquirem sentidos diferentes em seus diversos momentos, de modo que sua compreensão requer acompanhar as decisões, revisões e dificuldades que os fizeram surgir. **I** * O encontro inicial com a pergunta aristotélica pelos múltiplos sentidos do ser, favorecido pela leitura de Brentano e Braig, abriu um problema que não pode ser reduzido a uma influência única e permanente sobre toda a trajetória de Heidegger. * A formação filosófica e teológica inicial reuniu o aristotelismo, a escolástica, o neokantismo, a fenomenologia e a reflexão cristã sobre a existência histórica, cujas tensões deram impulso à procura de outra maneira de compreender a vida fática. * A experiência cristã do tempo e da decisão, sobretudo em Paulo, Agostinho, Lutero e Kierkegaard, contribuiu para interrogar a existência em sua realização concreta, sem que suas respostas religiosas pudessem simplesmente ser incorporadas como fundamentos da filosofia. * A fenomenologia de Husserl permitiu ultrapassar a primazia do juízo e considerar a experiência anterior à predicação, mas sua orientação para uma ciência filosófica rigorosa ainda podia reconduzir o aparecer dos fenômenos aos pressupostos platônicos e cartesianos que era preciso questionar. * A hermenêutica da vida fática deslocou o interesse de uma determinação abstrata do que a existência é para o modo como ela se realiza historicamente, amadurece no tempo e se relaciona com aquilo que encontra. * As interpretações de Aristóteles, especialmente da prudência prática, da atividade e da potência, acompanharam esse deslocamento; sua importância excede a questão dos diferentes significados da palavra «ser» e alcança o problema da verdade situada na ação. * A gênese de Ser e tempo não deve ser apresentada como convergência predeterminada de uma via metafísica com outra histórica: a prioridade da existência fática antecede a tentativa posterior de reunir a multiplicidade dos modos de ser por meio da temporalidade. * A busca de um modo de ser condutor a partir do ser-aí (Dasein) cede progressivamente à interrogação pela abertura histórica do próprio ser, que já não pode ser garantida por uma analogia centrada em um ente exemplar. * A interpretação da atividade aristotélica como ser em obra permite entrever outra relação entre potência e manifestação, embora permaneça necessário distinguir cada etapa dessa leitura das formulações posteriores do acontecimento apropriador (Ereignis). **II** * O envolvimento político de Heidegger em 1933 exige interrogar a relação entre suas decisões e a orientação de seu pensamento, pois o reconhecimento posterior do erro não esclarece, por si só, as condições que tornaram possível sua adesão. * A radicalidade da crítica à situação existente e a esperança de uma transformação histórica expuseram o pensamento ao risco de reconhecer no movimento nacional-socialista a realização de uma renovação que ele pretendia compreender em termos filosóficos. * A interpretação da historicidade como destino singular e coletivo, a procura de uma nova dimensão do sagrado e a aproximação à tragédia e a Hölderlin adquiriram peso especial nos anos de crise que se seguiram a Ser e tempo. * O discurso do reitorado vinculou a missão da universidade e da ciência ao ressurgimento histórico do povo alemão; a posterior oposição de Heidegger ao racismo e à submissão da cultura ao poder totalitário não apaga o sentido de sua intervenção inicial. * A referência de 1935 à «verdade e grandeza internas do nacional-socialismo» exprime uma distinção entre o movimento efetivo e a possibilidade histórica que Heidegger ainda acreditava nele encontrar; sua reformulação e suas explicações posteriores requerem confronto com a cronologia dos textos. * O afastamento progressivo da política do regime acompanhou o reconhecimento de que a mobilização técnica, a organização totalitária e a disputa pelo domínio mundial contrariavam a transformação esperada, sem converter retrospectivamente a adesão de 1933 em simples mal-entendido. * A catástrofe da guerra e de seus desdobramentos impôs ao pensamento uma experiência do fracasso mais grave do que a figura filosófica de um declínio trágico podia antecipar; a procura posterior do que salva passou a concentrar-se também nas coisas mais simples. * A interlocução com Nietzsche, os primeiros pensadores gregos, a tragédia, Hölderlin e a obra de arte não possui um significado invariável em todo o percurso: cada aproximação responde a uma situação distinta e está sujeita a revisões e dificuldades próprias. * As interpretações de Platão, Aristóteles e Sófocles suscitam questões filológicas e filosóficas que não desaparecem diante de sua fecundidade especulativa; o acesso ao que permaneceu impensado na tradição exige examinar também os limites das leituras que pretendem abri-lo. * A publicação e o estudo dos primeiros cursos tornam necessário distinguir com maior rigor a fenomenologia da vida fática, o projeto de Ser e tempo e os caminhos posteriores, sem projetar sobre os escritos iniciais as conclusões da história do ser. * Nenhum momento final do percurso pode ser tomado como sua chave definitiva: permanecem abertas as questões da natureza, da ação, da história, da linguagem e da dimensão religiosa, cuja investigação requer receber os impulsos de Heidegger e desenvolver, diante deles, caminhos próprios. {{tag>Pöggeler dizer linguagem Sein}}