====== Mais de um ====== //Aurélien Barrau and Jean-Luc Nancy, Dans quels mondes vivons-nous? Paris: Éditions Galilée, 2011.// **I** 1. A divisão do um não consiste na simples adição de um segundo termo ao primeiro, pois o duplo divide e suplementa o simples desde a origem, fazendo surgir imediatamente uma origem dupla acompanhada de sua repetição e conferindo à repetição uma estrutura ternária pela qual o infinito não é nem um, nem vazio, nem inumerável. 2. Um e dois não formam simplesmente uma sucessão aritmética, pois a retomada dessa divisão e dessa adição conta ela própria como mais um e produz o três, já que o dois divide, suplanta e suplementa o um, revelando que o um jamais ocorreu como unidade simples e somente acontece ao redobrar-se e repetir-se. 3. O “abismo da representação” consiste na não-presença que reaparece em toda oferta de significação, porque cada signo remete a outro signo sem que sua conexão alcance uma coisa, uma presença ou um dado último, de modo que o ritmo da significação se estabelece como signo, signo e nada. 4. O nada deixa de poder ser compreendido como pura nulidade quando se reconhece que, na própria língua, rien conserva a proveniência de res e rem, isto é, da “coisa”, tornando necessário pensar o modo como esse nada é referido pelo ritmo e permitindo distinguir o niilismo — para o qual nenhum signo remete a coisa alguma — da possibilidade de um “mais de um” em que ritmo, repetição e infinitude deslocam a alternativa simples entre um e nada. * O niilismo mantém que os signos apenas se encadeiam sobre uma nulidade e pressupõe, por isso, que “um” corresponde a uma unidade determinada. * O ritmo introduz mais de um sem simplesmente multiplicar unidades, fazendo aparecer uma estrutura que não é nem unidade, nem nulidade, nem pura inumerabilidade. * O infinito surge então como coisa sob a forma do “mais de um”, abrindo a possibilidade de uma saída do niilismo. 5. O di- da divisão e o re- da repetição produzem um “mais” que não acrescenta simplesmente outra unidade a uma série indefinida, mas instaura o intervalo entre um e dois, dividindo o um ao mesmo tempo que o substitui e suplementa, de modo que a articulação transforma a adição monótona em ritmo e permite compreender o retorno do mesmo em Nietzsche como abertura da época do “mais de um”. * O mesmo (das Gleiche) não coincide com o um, pois sua mesmidade exige precisamente que não seja uma identidade imóvel. * O retorno desloca a unidade em si mesma e revela que a história do um, de Heráclito a Derrida, sempre excedeu e desenraizou a unidade que parecia querer preservar. * A história do um não constitui, portanto, a história de uma unidade invariável, mas a do próprio deslocamento interno da unidade. 6. A tradição filosófica, teológica e mística oferece inúmeras figuras desse deslocamento do um — de Heráclito, Aristóteles e Plotino à Trindade agostiniana, ao Deus de Averróis e Tomás de Aquino, a Ibn ʿArabī, Eckhart, Leibniz, Hegel e Stirner —, permitindo entrever uma história do Um cujo próprio advento e cujas encarnações culminariam no momento em que o Um se desune de si mesmo, momento que já pertence à situação presente. 7. A expressão derridiana “mais de um”, aplicada à língua, à sessão, à lei e potencialmente ao próprio um, obedece à lógica do suplemento originário segundo a qual a unidade filosófica jamais foi simplesmente originária, pois desde o mais antigo começo da filosofia a origem já se encontra dividida e suplementada. 8. A própria filosofia é estruturalmente “mais de uma”, porque sua unidade nunca deixou de ser disputada entre a multiplicidade de filosofias, sua possível continuidade histórica e o anúncio de seu término em favor de outro pensamento, enquanto o philein introduz desde o princípio distância, variação e aproximação diante da unidade e da unicidade que se pretenderia atribuir à [[lx>termos:s:sophia|sophia]]. 9. A filosofia é sempre mais que filosofia, mais que uma filosofia e mais que uma única filosofia, porque o philein introduz originariamente um excesso sobre a unidade do próprio filosofar e sobre a unidade de seu tema, fazendo do “sentido único” uma das figuras decisivas da história que deve ser interrogada. 10. “Mais de um” significa inicialmente mais que uma coisa ou mais que uma unidade capaz de preencher uma intenção de significar, de maneira que a questão limiar do um coincide com a questão do niilismo enquanto alternativa entre nada e um. 11. “Mais de um” significa também, em aparência, mais de uma unidade numericamente enumerável — um, dois, três, quatro —, mas essa pluralidade imediatamente obriga a perguntar se sua natureza é adição, multiplicação, distinção ou dessemelhança. 12. Se a pluralidade for compreendida apenas como adição ou multiplicação, o “mais de um” prolonga-se indefinidamente na série dos números e produz uma numerosidade sem Um soberano capaz de reuni-la, de modo que a própria enumeração se torna princípio e a soma indefinida jamais se fecha numa unidade total. 13. A multiplicação da humanidade em bilhões de indivíduos ameaça dissolver qualquer suposta unidade de “homem” ou de “gênero humano”, fazendo aparecer a espécie humana como multiplicação indefinida de unidades sem aspecto comum plenamente determinável e levando ao limite a possibilidade de uma disseminação pura do humano. * A espécie humana tende a escapar à própria especificação, pois nenhuma figura única parece poder reunir sua multiplicidade. * Sua expansão quantitativa acompanha simultaneamente a destruição de outras espécies e a transformação genética de seres vivos, inclusive de si mesma. * Surge assim a questão de saber se a identidade humana pode subsistir quando passa a valer sobretudo como multiplicação exponencial de unidades contáveis. 14. A multiplicação revela, contudo, outro sentido do “mais de um”, pois a disseminação retira sentido e semente da unidade e da unicidade, fazendo da multidão não apenas proliferação quantitativa, mas eflorescência, superabundância e excesso de sentido. 15. O crescimento da população humana decorre de uma atividade pela qual o homem ultrapassa a simples reprodução das condições da vida e abre continuamente possibilidades de vidas imprevistas, tornando-se ele próprio, enquanto mais de um e mais que uma espécie, uma mutação do vivente que transforma a manutenção da vida em empreendimento. 16. Quando a vida deixa de apenas manter-se e se converte em empreendimento, seus ritmos tradicionais são desfeitos e substituídos por cadências cada vez mais complexas e aceleradas, enquanto população, finanças e universo passam ao regime dos grandes números e a mundialização ou globalização tende a apresentar como unidade aquilo que é apenas acumulação numérica, cumulativa e simultaneamente dissociativa. * A unidade global torna-se o desenvolvimento do “mais de um” na forma de “um mais um mais um”. * O “mais” deixa então de indicar ultrapassagem e passa a operar como simples sinal de adição. * A pretensão de unidade global encobre, assim, uma numerosidade indefinida incapaz de formar por si mesma um mundo. 17. A unidade do todo torna-se indistinguível da uniformidade da operação de somar, embora o valor de “mais” se transforme inteiramente quando se passa de “um mais um” para “mais de um”, pois o primeiro pertence à escrita aritmética e o segundo introduz uma alteração qualitativa no estatuto da própria unidade. 18. No “mais de um”, não se trata simplesmente de contar várias ocorrências do mesmo um, mas de transformar a própria natureza do um, pois a passagem de um a dois não apenas justapõe unidades idênticas, mas afeta tanto o primeiro quanto o segundo e todos os outros uns que possam seguir-se. 19. Essa afecção é simultaneamente divisão, suplementação e substituição, pois o primeiro um passa para o segundo em sua própria condição de um e, com isso, divide-se de si mesmo, enquanto a origem deixa de possuir a propriedade de unicidade que se pretendia reconhecer nela e se revela apenas no lugar daquilo que deveria ter começado. 20. Há, portanto, duas lógicas do um: uma que o coloca como unidade imóvel e depois enfrenta a dificuldade de passar ao mais de um, e outra que recebe o próprio um como passo que desde o início se divide, substitui e suplementa sua suposta inicialidade. 21. O um dividido não produz simplesmente “um + um”, mas dois uns oriundos da divisão de um primeiro que nunca chegou propriamente a acontecer, de modo que aos dois momentos acrescenta-se a própria divisão como terceiro momento, podendo essa estrutura ternária prolongar-se numa quaternidade como acontece tanto na dialética hegeliana quanto na Trindade cristã e, de outro modo, na quadrindade ([[lx>termos:g:geviert|Geviert]]) de Heidegger, enquanto abertura extensiva do mundo na qual a existência se torna possível segundo o acontecimento apropriador ([[lx>termos:e:ereignis|Ereignis]]). * O quarto momento não acrescenta simplesmente outra unidade ao três, mas manifesta a extensão ou tensão interna do ternário. * A quadrindade (Geviert) heideggeriana pode ser compreendida como figura dessa extensão e desvelamento do mundo. * O acontecimento apropriador (Ereignis) pode então ser pensado como acontecimento do um — de cada um e do um do ser — e simultaneamente como divisão ou partilha do próprio um. **II** 22. O um somente pode reconstituir-se numa unidade com os outros ao tornar-se outro para si mesmo, rejeitar-se, condenar-se e abolir-se em benefício desses outros, fazendo da alteridade interna a condição da própria unidade. 23. A recorrência histórica das figuras do três e do quatro na filosofia, teologia, mística e alquimia não deve ser reduzida a uma numerologia, pois já antes da filosofia a enumeração era acompanhada por especulações sobre o próprio um não enumerável, enquanto o decisivo passa a ser escutar sob os números uma batida, uma pulsação e um ritmo. 24. O um talvez jamais seja possível sem pulsação, pois mesmo a enumeração contém repetição, métrica e ressonância, de modo que por baixo do cálculo já opera um ritmo no qual a linguagem calculadora remete a algo que excede simultaneamente cálculo e linguagem. 25. O um pertence talvez menos à contagem do que ao ritmo, ao movimento, ao tempo, à vitalidade e à pulsação, deslocando a antiga disputa entre a prioridade do um e a prioridade do ser para uma unidade anterior à própria unidade numerável, como aquela que Pico della Mirandola atribui a Deus enquanto infinitude atual e intimidade consigo cuja verdadeira ciência coincide com uma ignorância total. 26. Há, portanto, “mais de um” no próprio coração do um e também do ser, pois embora nenhum ente possa ser sem ser um, o um e o ser podem pertencer a uma lógica diferente daquela da unidade numerável, sobretudo quando o ser deixa de ser pensado substantivamente e passa a ser considerado verbal e transitivamente, como por vezes exige Heidegger, de modo que o ser rasurado não é anulado, mas espaçado e a transitividade impossível do verbo permite pensar que ser espaça e separa os entes. 27. Ser não significa constituir um ente uno nem produzir os entes um por um, mas realizar o ato de espaçamento, distinção e divisão entre eles, sendo essa ação uma sem ser um ente uno e constituindo uma unidade transitiva que não precede os entes nem lhes sobrevém, mas atua no próprio acontecimento de seu advento. 28. Esse um não pode ser contado porque é o um do impulso, da pulsação e da pulsão que deixa ser aquilo que é, constituindo uma unidade rítmica simultaneamente composta e plural em si mesma e subtraída à contagem, mais próxima do bater de um ritmo e da dança do que da enumeração métrica de passos. 29. Ser significa ser lançado para fora, isto é, ex-sistir, e embora cada existente seja um existente, isso não significa que constitua uma unidade fechada em si e para si, pois a pulsação que projeta cada singular pertence a outra forma de unidade, segundo a qual o mundo pode ser dito um sem que essa unidade seja reconduzida à soma de sua imensa multiplicidade. 30. A pulsação originária não se revela como objeto de conhecimento nem se oferece à contagem, mas mostra-se em toda parte na profusão da natureza, na proliferação das máquinas, dos sinais e dos fins sem finalidade, como um envio que lança o mundo para um exterior cada vez mais distante de toda garantia de unidade de projeto, finalidade ou história. 31. O Um anterior a toda unidade talvez não apenas escape à apreensão, mas retire-se de si mesmo, e essa retirada pode ser expressa pela fórmula “Deus está morto”. 32. A retirada do Um anterior à unidade pode, entretanto, indicar uma unidade mais elevada, incomensurável e incontável que abandona o cadáver deserto do “um” e carrega consigo o inumerável dos grandes números, sendo una precisamente porque excede tanto toda multiplicidade quanto toda unidade contável inserida numa multiplicidade. 33. O um anterior ou além do Um é pontual e sem dimensão, não ocupa lugar nem tempo, mas abre a possibilidade de todo lugar e de todo tempo, e esse excesso não possui nada de mágico ou místico, pois decorre da própria natureza do um quando o ser é compreendido como impulso para fora e o um como energia rítmica dessa impulsão. 34. O maxime unum é o maior um porque é maxime indivisum, absolutamente insuscetível de divisão em partes, substância e acidentes, ato e potência ou qualquer determinação da coisa, de modo que o um excedente se subtrai a toda atribuição e só pode ser pensado como simplicidade absoluta de impulso, salto e ímpeto. 35. A unicidade absoluta do um excedente permite compreender a fórmula heraclítica segundo a qual o um se reúne consigo ao diferir de si, pois esse um “é” precisamente diferindo e diferindo-se no impulso que abre, espaça e dispersa todas as coisas, segundo uma lógica da différance na qual diferença e adiamento não lhe acontecem exteriormente, mas constituem seu próprio movimento. * O um excedente não produz diferenças permanecendo por trás delas como identidade substancial. * Ele coincide integralmente com o movimento de diferir e diferir-se. * O diapherō heraclítico deve ser compreendido também como transporte, movimento e estremecimento que leva para além de si. 36. O um excedente é um arrebatamento ou transporte decorrente do simples fato de que há mundo, mundos ou alguma coisa, e sua discrição anônima explode simultaneamente em multiplicidades indefinidas de unidades e unicidades sem transportar algo que já existisse antes desse próprio transporte. 37. Esse um constitui outro sentido do “mais de um”: não mais numeroso, mas mais uno que o um, não contagem, mas transporte, não unidade, mas envio, não dado, mas doação, unicidade absoluta que não reúne nada em si e abre o passo — ele próprio dividido — pelo qual a diversidade pode acontecer. 38. O Um é precisamente aquilo que menos autoriza qualquer união ou fusão, pois sua lógica não é a da confusão, mas a da profusão, fazendo do um não uma unidade que se recolhe sobre si mesma, mas um transporte de si para fora de si que produz linhas rítmicas e renova incessantemente a pluralidade dos singulares. * Cada singular repete esse transporte inicial e é simultaneamente prelúdio de novas profusões. * A própria vida, com seus momentos, acidentes e morte, constitui uma dessas cadências singulares. * A singularidade não deriva, portanto, de isolamento, mas da repetição diferenciada do impulso originário. 39. Se o mundo possui uma unidade, ela deve ser pensada não como unidade numerável, mas como unidade do ser enquanto singularidade rítmica, segundo a essência ternária do infinito, isto é, como profusão das espécies, aspectos e modos do existente, impulso fértil do vivente e também proliferação das máquinas, dispositivos, instrumentos e órgãos transplantados, transorgânicos, virtuais, fiduciários e fictícios. 40. Essa profusão somente pode constituir abundância se não for reduzida à acumulação aditiva de momentos, espaços ou indivíduos, pois a forma abstrata dessa adição é o dinheiro enquanto equivalência e intercambiabilidade de unidades contáveis, cuja expansão financeira permitiu a proliferação técnica e a entrada na era dos grandes números sem que ainda se saiba se estes significam enxameamento e congestionamento ou abundância, generosidade e riqueza. 41. A riqueza oferece outro nome para o “mais de um” porque expõe a bifurcação entre acumulação de unidades contáveis e generosidade proveniente de uma unidade anterior, constituída pelo ritmo infinito, permitindo compreender por que a civilização ocidental permaneceu tão profundamente preocupada com o um enquanto tensão entre aquilo que se adiciona a si mesmo e aquilo que se transporta para fora de si. 42. A tarefa presente consiste em repensar integralmente a alternativa, o intervalo e a complicação entre um e outro, perguntando não apenas pelo outro um, mas pelo outro do um e por aquilo que se encontra entre um e outro, questão que permanece aberta e exige continuação. {{tag>Nancy um}}