====== Struction ====== //Aurélien Barrau and Jean-Luc Nancy, Dans quels mondes vivons-nous? Paris: Éditions Galilée, 2011.// **I** 1. A unidade deve ser pensada como movimento alternado de descida e reunião, no qual o um é desmembrado em muitos por uma força titânica e os muitos são novamente recolhidos em um por uma força apolínea, de modo que a unidade já se apresenta como tensão entre dispersão e recomposição. 2. A tecnologia simultaneamente suplanta e suplementa a natureza, tomando seu lugar quando esta não fornece determinados fins e acrescentando-se a ela quando prolonga seus meios e suas finalidades, de maneira que a lógica derridiana do suplemento encontra na relação entre natureza e técnica sua estrutura exemplar e faz de tecnologia, artifício e arte modalidades próximas de uma mesma operação. 3. A suplementação tecnológica pressupõe que a natureza apresente faltas capazes de suscitar necessidades não satisfeitas e que, ao mesmo tempo, ofereça materiais e forças sobre os quais a técnica possa enxertar-se, como se evidencia desde o fogo até a eletricidade, os semicondutores, as fibras ópticas e a energia nuclear, pois a tecnologia não inventa ex nihilo suas condições materiais, mas transforma recursos naturais segundo novos fins. * A natureza oferece abrigo, mas não produz casas, enquanto os animais do gênero Homo desenvolvem necessidades de habitação, aquecimento e proteção que excedem suas disponibilidades imediatas. * O fogo exemplifica particularmente o encontro entre suplementação e substituição, pois ocorre naturalmente, mas sua conservação e produção controlada constituem uma invenção técnica. * O mesmo esquema vale para formas posteriores de energia e materiais, nas quais a tecnologia reorganiza forças já presentes na natureza. 4. A tecnologia não procede de um exterior da natureza, porque encontra nela seu lugar e sua condição, e se natureza designa aquilo que realiza por si seus próprios fins, então o surgimento de um animal capaz e necessitado de tecnologia deve ser compreendido como um dos próprios fins da natureza. 5. A tecnologia desenvolve progressivamente uma ordem relativamente autônoma que deixa de responder apenas às faltas originárias e passa a gerar expectativas e exigências próprias, fazendo com que materiais, forças, dados e dispositivos sejam produzidos em função de novos fins que, por sua vez, abrem possibilidades inéditas de organização técnica. * A seleção artificial de plantas e animais já manifesta a capacidade da técnica de produzir novas condições a partir de suas próprias possibilidades. * Máquinas simples deixam de constituir o paradigma suficiente quando vapor, petróleo, gás, eletricidade, átomo, cibernética e cálculo digital passam a exigir sistemas inteiramente novos de tratamento e montagem. * A tecnologia torna-se assim uma ordem de produção de condições para outras produções. 6. O verdadeiro princípio do desenvolvimento técnico não reside na máquina considerada isoladamente, porque toda máquina é previamente maquinada por fins, investigações e projetos que a concebem e estruturam, de modo que invenção tecnológica, economia, finanças, direito e organização sociopolítica pertencem ao mesmo processo de configuração do espaço comum da vida. * A invenção não se reduz a descobertas casuais, porque a casualidade só adquire sentido no interior de pesquisas orientadas por determinados objetivos. * Ir mais rápido, atravessar oceanos, produzir mais, atingir à distância e transportar mercadorias são fins que organizam antecipadamente os meios inventados. * Tecnologias financeiras, náuticas, jurídicas e políticas formam conjuntamente o ambiente no qual a inovação técnica se torna possível. 7. A tecnologia excede o conjunto restrito das técnicas e constitui uma estruturação indefinida de fins, isto é, uma forma de pensamento, cultura e civilização em que os fins se ramificam, se combinam e incessantemente reconstroem suas próprias condições, transformando simultaneamente aparelhos, modos de vida, relações sociais, sexualidade, afetividade e temporalidade humana. 8. Fins e meios passam continuamente a trocar de função, porque novos fins são concebidos a partir dos meios disponíveis e os próprios meios adquirem valor de finalidade, de modo que a tecnologia generaliza um regime no qual viver mais, fazer o dinheiro produzir mais dinheiro ou converter tudo em imagem, som e ritmo podem valer por si mesmos, enquanto a arte se torna simultaneamente modelo máximo de finalidade em si e lugar privilegiado da interrogação sobre o próprio sentido dos fins. 9. Construção e desconstrução pertencem ao mesmo movimento, pois aquilo que é construído segundo relações entre meios e fins começa a desconstruir-se quando os fins se revelam intermináveis e os meios tornam-se fins provisórios geradores de novas construções, como ocorre com o automóvel, as rodovias, a transformação das cidades e as tecnologias digitais que alteram simultaneamente os meios formais e o próprio sentido das artes. **II** 10. O problema geral que emerge dessa transformação é o do sentido, porque os fins anteriormente relacionados a finalidades últimas — história, sabedoria ou salvação — multiplicam-se indefinidamente e tornam-se substituíveis e equivalentes, fazendo com que tecnologia e niilismo se encontrem precisamente na proliferação de valores cujo crescimento dissolve sua pretensão de finalidade absoluta. 11. A tecnologia torna manifesta uma característica já pertencente à própria natureza: sua ausência de finalidade última, pois o “sem porquê” da rosa ainda podia ser secretamente associado a uma gratuidade ou glória oculta do ser, ao passo que a técnica radicaliza essa ausência de fundamento e retira dela qualquer reino secreto capaz de garanti-la. 12. A tecnologia desfaz a expectativa de uma glória escondida da natureza e perturba simultaneamente tendências metafísicas, teológicas, espirituais e poéticas, enquanto a necessidade simplesmente vital tende a converter-se em servidão diante de um sistema técnico-capitalista que produz indefinidamente valores intercambiáveis e crescimento autorreferencial. * A vida submetida à necessidade perde o horizonte de uma grandeza exterior capaz de justificá-la. * O capitalismo aparece como correlato manifesto da técnica ao converter valor em expansão quantitativa indefinida. * O rendimento financeiro constitui a forma exemplar de um crescimento que se reproduz sem florescimento ou fruto exterior a si mesmo. 13. O capitalismo exibe a proliferação infinita de fins e sentidos aberta pela técnica ao transformar crescimento em finalidade própria, enquanto a expectativa marxiana de ultrapassar esse regime pressupunha ainda uma espécie de natureza capaz de reaparecer por meio da própria expansão técnica e produzir um valor não submetido à equivalência, à acumulação ou à medida. 14. A realidade contemporânea não apresenta, contudo, o desdobramento de uma [[lx>termos:p:physis|physis]] reconciliada consigo mesma, e se a tecnologia deriva da própria natureza, já não é possível simplesmente opô-las sem reproduzir uma dialética que terminaria por postular uma segunda natureza. 15. Torna-se necessário abandonar a oposição rígida entre natureza e técnica, pois a tecnologia simultaneamente constrói a ideia de natureza como imanência, autofinalidade e florescimento e destrói essa mesma ideia, levando ao limite a oposição aristotélica entre physis e technē mediante aquilo que Derrida denomina suplemento e Heidegger compreende como envio do ser ([[lx>termos:s:schickung|Schickung]] des Seins). * A técnica aparece como aquilo que acrescenta à natureza fins que esta aparentemente desconhece. * Ao fazê-lo, produz retrospectivamente a própria representação de uma natureza autônoma e autossuficiente. * Essa operação desconstrói simultaneamente a ideia de natureza e a rede de representações que estruturou grande parte do pensamento ocidental. 16. O motivo da destruição acompanha significativamente o surgimento da modernidade, aparecendo em Baudelaire, Mallarmé e Rimbaud como experiência estética e existencial em que a destruição deixa de significar apenas perda e passa a participar da própria possibilidade de transformação e renovação. 17. Mesmo antes da modernidade, a ruína já possuía uma ambivalência semelhante, pois os edifícios destruídos adquiriam um encanto melancólico precisamente enquanto monumentos de sua própria decomposição. **III** 18. A construção moderna amplia-se para além da edificação arquitetônica e passa a significar montagem, composição e organização de forças, substituindo progressivamente o modelo do fundador pelo do engenheiro e transformando construção em elaboração de esquemas operacionais, dinâmicos e produtores de energia segundo fins igualmente inventados e tecnicamente definidos. 19. A disseminação do paradigma construtivo pela urbanização, transportes, exploração de energias e cálculo provoca como resposta uma destruição que não significa demolição, mas desprendimento do próprio construtivismo, encontrando na destruição ([[termos:d:destruktion|Destruktion]]) heideggeriana da ontologia — explicitamente distinta da demolição (Zerstörung) — sua formulação filosófica e aproximando-se da desconstrução derridiana. * A destruição (Destruktion) não visa simplesmente eliminar a tradição ontológica, mas desarticular seu modo de construção. * Ela corresponde filosoficamente às experiências estéticas de destruição presentes em Baudelaire e Mallarmé. * O próprio modelo de instrução, enquanto ordenação do saber, pertence ao mesmo campo semântico e histórico da construção. 20. A destruição não deve desembocar numa reconstrução nem num retorno aos gestos de fundação, instituição ou constituição, porque aquilo que precisa ser pensado para além tanto da construção quanto da desconstrução é a //struction// enquanto tal. 21. Struo significa amontoar ou acumular, indicando não uma organização ordenada, mas uma copresença contígua de elementos sem princípio coordenador, isto é, um conjunto não reunido por uma arquitetura comum. 22. As noções de natureza e tecnologia pressupunham diferentes princípios de coordenação — uma ordem espontânea ou divina no primeiro caso e uma ordem regulada pelos fins humanos no segundo —, mas a ação retroativa da técnica sobre a natureza dissolve essa alternativa e revela uma //struction// constituída pela simultaneidade contingente e não coordenada de seres, forças, formas, espécies, impulsos e tendências. * Nenhuma ordem possui privilégio absoluto dentro dessa profusão. * Instintos, reações, equilíbrios, conexões, metabolismos e forças encontram-se expostos à colisão, à dissolução e à confusão recíproca. * A //struction// designa assim uma coexistência sem princípio superior de integração. 23. O paradigma passa progressivamente do arquitetônico ao estrutural e finalmente ao //strucional//, pois a composição deixa de significar construção orientada por finalidade e torna-se agregação lábil, desordenada e amalgamada, sem necessidade de conjunção ou reunião orgânica. 24. A //struction// coloca em questão a própria possibilidade da associação, porque um socius supõe normalmente um “com” ativo e positivo que compartilha alguma coisa, enquanto a //struction// designaria precisamente um estado do “com” reduzido à contiguidade e à contingência, aproximando-se de um “com” meramente categorial e não existencial, em contraste com a constituição ontológica do ser-aí-com ([[lx>termos:m:mitdasein|Mitdasein]]). **IV** 25. A strução pode constituir a lição mais radical da tecnologia, porque a construção-desconstrução conjunta de natureza e arte conduz a uma copresença em que o “co-” já não significa comunidade ou partilha, mas simples justaposição, ao mesmo tempo que a cosmologia contemporânea enfraquece a ideia de universo delimitado ao falar de expansão finita e multiverso, cujos mundos não se situam num além, mas constituem modos de relação com aquilo que está fora de si. 26. A ideia tradicional de universo conserva um esquema arquitetônico de fundamento e totalidade unificada, mas copresença e coaparecimento dissolvem essa estrutura ao fazer do ser não uma realidade em si, mas contato, tensão, cruzamento, distorção e montagem, abrindo o real à ausência de fundamento prévio e realizando, por essa via, a dissolução da oposição entre [[lx>termos:t:techne|technē]] e physis. * O ser deixa de ser pensado como fundamento subjacente à totalidade. * A realidade não se dissolve em irrealidade, mas aparece como realidade de sua própria ausência de pressuposto. * O multiverso implica distribuições recíprocas sem uma substância única que as sustente. 27. O percurso histórico ocidental chegou ao ponto em que arquitetura e arquitetônica deixam de valer como modelos essenciais da realidade, porque sua capacidade de organizar o ser segundo uma construção fundamental se esgotou internamente. 28. Não se trata apenas de uma construção particular destruída pelo tempo, mas do enfraquecimento do próprio princípio segundo o qual alguma coisa deveria ser pensada mediante o modelo da construção. 29. A concentração de motivos de destruição em torno de 1900 manifesta a saturação e ruptura do paradigma construtivo, revelando que a própria construção continha desde o início a semente de sua desconstrução, pois a ampliação de instrumentos, energias e gestos de domínio acaba por transformar-se em sistemas de combinação, interação e retroação. * Ferramentas inicialmente prolongavam corpos e capacidades simples. * A técnica posterior passou a administrar energias e processos cada vez mais complexos. * A lógica do comando converte-se então em interdependência, combinação e feedback. 30. Uma organicidade ou quase-organicidade desenvolve-se no próprio interior do paradigma técnico, fazendo com que a construção ultrapasse a si mesma, se sobreconstrua e tenda a uma autonomia cuja consequência é a transformação da sobreconstrução em //struction//. **V** 31. A autonomia técnica prolonga-se para além do corpo e da mente humanos por meio de máquinas altamente autorreferenciais que reorganizam reciprocamente nossos comportamentos, temporalidades e competências, inserindo-nos numa massa tecnológica instável e metamórfica em que se tornam progressivamente indetermináveis as fronteiras entre sujeito e objeto, homem e natureza, organismo e mundo. * O uso de computadores, sistemas de navegação, redes de informação e técnicas de criação altera simultaneamente habilidades e formas de espaço-tempo. * A repetição técnica pode ser extremamente padronizada e, no entanto, produzir constantemente novas configurações de realidade. * O mundo já não aparece como território parcialmente desconhecido a ser descoberto, mas como proliferação de fragmentos, zonas, redes, partículas, nós e projeções que nos envolvem e deslocam. 32. Talvez já não se esteja propriamente num mundo no sentido do cosmos como bela unidade regida por uma ordem superior, mas numa ecotecnologia formada por fragmentos proliferantes cuja composição não remete a construção primeira ou final e se aproxima antes de uma criação contínua na qual se renova incessantemente a possibilidade de mundo ou, mais precisamente, de uma multiplicidade de mundos. 33. A //struction// abre uma temporalidade que não corresponde à sucessão linear de passado e futuro, mas a um presente jamais plenamente realizado em presença, no qual o acontecimento significa passagem, ocorrência e transitoriedade misturada com uma espécie de eternidade. * O presente não constitui um corte imóvel da diacronia. * Ele é o próprio apresentar-se, acontecer e vir-a-ser. * O tempo //strucional// possui, portanto, uma dimensão sincrônica sem abandonar a passagem. 34. Há no coração do tempo alguma coisa fora do tempo, mas essa exterioridade já não deve ser compreendida segundo a oposição entre aparecimento e desaparecimento, pois aparecer significa antes vir à presença, aproximar-se e apresentar-se, sendo sempre essencialmente aparecer-com. 35. No aparecer-com desloca-se o dispositivo fenomenológico tradicional, porque a questão deixa de concentrar-se na relação entre uma intenção e seu preenchimento e passa para a correlação dos aparecimentos entre si, fazendo do sentido do mundo a profusão de remissões pelas quais o mundo se refere a si mesmo e existe como aparecimento conjunto de tudo aquilo que há. **VI** 36. A evidência bruta da //struction// poderia parecer uma regressão a um estado rudimentar em que nada restaria além da existência sem justificativa, sobretudo porque a técnica dissolve fins supremos e deixa a razão proliferar desmedidamente em sua própria autossuficiência, como um crescimento canceroso incapaz de prestar razão do mundo. 37. A chegada à //struction// não significa necessariamente degeneração, pois pode representar um avanço para além dos processos de construção, instrução e destruição, libertando o pensamento da obsessão de compreender o real ou o ser por meio de um esquema construtivo e da busca interminável por um arquiteto ou mecânico do mundo. 38. A //struction// oferece uma desordem que não é simplesmente oposição, destruição ou ruína da ordem, mas pertence ao campo da contingência, do acaso, da dispersão, da errância, da surpresa, da invenção e do encontro, sendo essencialmente a copresença ou o aparecer-conjunto de tudo o que aparece. 39. O que existe não aparece a partir de um ser em si anterior ao fenômeno, porque o próprio ser coincide integralmente com aparecer, de modo que nada antecede ou sucede esse aparecimento e cada ente somente “é” como aparecer e aparecer-com, enquanto tudo remete a tudo indefinidamente e sem princípio nem fim. 40. A questão torna-se saber se é possível aprender a lógica, ontologia, mitologia ou ateologia desse aparecer-com simples e inextricável que se manifesta na ecotecnologia em que já se converteram nossas ecologias, economias, equilíbrios ambientais e formas de administrar a subsistência. 41. A técnica multiplica indefinidamente fins que já não se distinguem claramente de meios e prolonga a vida, produz serviços, amplia conhecimentos biomédicos e cria novas possibilidades de intervenção sem aproximar o pensamento do significado de “vida”, pois os próprios limites entre vida e matéria se tornam progressivamente incertos à medida que os instrumentos de investigação se entrelaçam com os objetos investigados. * Prolongar a vida torna-se um fim cuja finalidade já não se encontra além do próprio prolongamento. * O crescimento das capacidades bioquímicas e biomecânicas gera continuamente novas necessidades e possibilidades. * A questão da vida tende a convergir com a questão das montagens, combinações, ações e reações tradicionalmente atribuídas à matéria. 42. Matéria, vida, natureza, Deus, história e humanidade perdem simultaneamente o estatuto de substâncias-sujeitos, de modo que a morte de Deus significa também a morte prolongada dessas categorias, enquanto o desenvolvimento técnico mistura benefícios e danos e torna cada vez mais difícil estabelecer critérios seguros para distinguir progresso, vantagem, risco e destruição. * As mortes conceituais dessas substâncias não são eventos instantâneos, mas processos prolongados. * Elas coexistem com novas possibilidades concretas de destruição da vida humana, dos viventes e até do próprio mundo. * Fins, meios, desvios, benefícios e prejuízos tornam-se progressivamente indiscerníveis. 43. Mesmo quando se preservam princípios elementares de conduta relacionados à sobrevivência, à dignidade ou à igualdade, cada um deles reconduz imediatamente às questões de fundamento e finalidade: que significa vida digna, qual igualdade se exige, em que sentido cada ser humano é fim e quais forças econômicas, políticas, religiosas e ideológicas continuamente o reduzem novamente a meio? 44. Já não é possível pressupor que o conjunto do mundo responda, sob sua aparência problemática e aporética, a um projeto inteligente, porque essa hipótese apenas projeta sobre a natureza a própria technē que a natureza supostamente teria produzido. 45. A transformação ocidental foi simultaneamente tecnológica e religiosa e talvez tenha aberto duas possibilidades opostas de divino: um Deus arquiteto e concebente do mundo e um Deus caracterizado pela distância e não-presença, diferentemente de cosmologias em que deuses permanecem presentes e ativos no próprio mundo como dimensões da natureza. 46. A imagem de Deus como arquiteto, relojoeiro, construtor e técnico tornou-se dominante na cultura ocidental ao combinar o demiurgo platônico com a onipotência de um criador exterior ao começo e ao fim do mundo, mas a queda dessa figura arrastou consigo também a divindade pessoal e viva que constituía seu duplo, tornando simultaneamente insustentáveis tanto a teodiceia construtiva quanto o recurso compensatório à salvação, graça e amor. 47. Nem providência nem promessa permanecem capazes de organizar a situação comum produzida pela técnica, porque todo projeto inteligente pressupõe uma inteligência técnica que só pode fundamentar-se em sua própria produção e é obrigada a reconhecer os limites de uma razão incapaz de explicar por que existe precisamente quando abandona as projeções de finalidade, segunda natureza ou totalidade racional. 48. Enquanto técnicas antigas podiam oferecer modelo para imaginar um primeiro técnico orientando meios a uma finalidade, a tecnologia contemporânea, compreendida antropológica, cosmológica e ontologicamente, manifesta uma pulverização de fins incompatível com o esquema de qualquer projetista soberano. 49. A hipótese de um projeto inteligente deve ser abandonada, pois mesmo a tentativa de transformá-lo numa inteligência superior que nos destinaria à errância apenas deslocaria o problema para uma nova hipótese acerca do sentido dessa errância, reproduzindo indefinidamente a questão da finalidade e aproximando-se da destinerrância derridiana. 50. A transformação técnica não acontece diante de sujeitos que permaneceriam exteriormente intactos, porque nós próprios já estamos integrados à tecnosfera, e a tecnologia ultrapassa ferramentas, instrumentos e máquinas para constituir uma expansão reticular da inteligência que excede o antigo domínio de meios subordinados a fins e passa a valer indefinidamente como meio e fim de si mesma. 51. Como já não é possível recobrir a errância da //struction// com um sentido previamente dado segundo um modelo supostamente bom de inteligência, torna-se necessário reinventar o próprio sentido segundo a destinerrância, compreendendo que a ausência de termo providencial, destino trágico ou história fabricada não elimina o movimento de avançar, atravessar, vagar e fazer experiência até seus limites extremos. 52. A proliferação contemporânea do ilimitado — nas manipulações genéticas, finanças, redes, desigualdades e patologias tecnossociais — não pode ser enfrentada simplesmente impondo limites externos àquilo que estruturalmente ignora a limitação, de modo que a alternativa decisiva passa entre a autodestruição de uma construção que cresce até desabar e a possibilidade de reconhecer sentido na própria strução, onde não há finalidade, meio, montagem, desmontagem, alto, baixo, leste ou oeste, mas apenas um estar-todos-juntos. {{tag>Nancy struction}}