====== 7 Discursos ====== //Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.// **Por que falar de identidade?** 1. Para quem trabalha no que se chama ciências sociais, historiador, sociólogo, etnólogo, psicólogo ou psicanalista, teórico de literatura ou de arte, mas também artista ou escritor, e filósofo, o anúncio de um debate sobre identidade nacional só poderia provocar de início um acesso de riso incrédulo, uma vez que se pretende debater subitamente três noções ao mesmo tempo, identidade, nacional, identidade nacional, cujas complexidades, dificuldades, por vezes aporias ou perigos, mas também limitações e oportunidades constantes oferecidas à ambivalência do imaginário, jamais deixaram, nos últimos quarenta anos, de ser objeto de intensa e fecunda pesquisa, incluindo, mencione-se de passagem, o trabalho de um de seus maiores representantes recém-falecido, Claude Lévi-Strauss, respeitado por todos. 2. Não é difícil imaginar o que ele teria pensado desse debate, não se exprimindo aqui o mau humor de uma corporação intelectual, mas o fato de que aquilo que duas gerações de cientistas, pensadores e artistas escolheram como campo privilegiado de pesquisa, a relatividade das identidades, o entrelaçamento dessa noção com uma diferença interna, a impossibilidade de atribuir identidades inquebrantáveis a um território, a uma cultura, a uma pessoa ou a uma língua, ou enfim a algo como um sentido ou à posição de uma partícula, tudo isso não surgiu de meros fantasmas ou especulações. 3. A identidade há muito não deixou de ser ferida, machucada ou simplesmente transformada, deslocada, desfigurada ou transfigurada, talvez simplesmente metamorfoseada, simples e abissalmente, devendo talvez dizer-se que a revolução industrial, a democracia burguesa e as mudanças trazidas pelas tecnologias digitais deslocaram mais que tudo a identidade dos papéis sociais, familiares, do pertencimento a comunidades locais, familiares ou religiosas, e por fim a da nacionalidade, que começou como emancipação de tiranias estrangeiras mas terminou em fixações imaginárias ou até mitológicas. 4. Os fascismos não foram senão uma hipertrofia de identidades infladas pela própria ideia, vazia, de identidade, nela podendo lançar-se qualquer coisa, tudo misturado: sangue e solo, terror e miragem, ambições militares, símbolos de todo tipo, anexações, uma nova ordem. 5. E agora nos é apresentada uma miscelânea ainda mais absurda, jogando-se juntos motivos nacionais, até étnicos, símbolos religiosos desprovidos de qualquer teologia, reescritas ou reajustes dos direitos humanos, apelos fervorosos a uma história já envelhecida, diversos truques para assegurar que o judiciário e mesmo o legislativo não perturbem demasiado a ação de um executivo tanto mais apressado quanto é, por assim dizer, perseguido por sua própria identidade. 6. Foi com base nessa identidade que se elegeu, sendo por ela responsável se quiser manter-se no poder, o que de fato deseja, pois é detendo o poder que se identifica, a si mesmo, em pessoa, e através dele o conjunto de interesses que busca servir, interesses que, em última análise, pouco se importam com a identidade ou identidades, exigindo apenas que um dólar seja um dólar, idêntico a qualquer outro dólar mas sem qualquer outra identidade, sublinhando-se que estas linhas não codificam apenas o nome de Nicolas Sarkozy, mas poderiam aplicar-se perfeitamente a muitos outros, Ahmadinejad, por exemplo, ou Netanyahu, Karzai, Putin, e assim por diante. 7. Não, o trabalho do pensamento em torno da identidade, isto é, evidentemente, por corolário obrigatório, também em torno da diferença, não foi modismo intelectual, retomando antes aquilo que a cultura europeia acabara de desafiar, uma série de identidades todas interligadas e de uma peça só, a identidade do homem, da mulher, do animal, de Deus, de uma ordem racional fundada num princípio de identidade, e a identidade, enfim, dessa Europa que jamais se identificara tão claramente, distinguindo-se dos outros e reconhecendo-se, quanto quando ainda não propagara em si aquele desejo de nacionalidades, e enquanto julgava possível impor-se ao mundo como a identidade, por definição única, da própria civilização. 8. Na verdade, desde o século vinte, é a identidade como tal, em todos os seus aspectos, que é posta em questão: ou já não consegue mais encontrar-se, sendo esse o caso arquetípico do europeu, ou se pergunta exatamente sobre o que é ou pode se construir, identidade saudita, argelina, malaia, mauritana, entre uma centena de outros exemplos de nomes que carregam fortes marcas de identidade mas cujas figuras são difíceis de delinear. 9. Estamos de fato todos no mesmo barco, flutuando num oceano de materiais formadores de identidade que nada mais parece capaz de cristalizar em identidades, as quais, além disso, não precisam ser nacionais, podendo incluir nação e cultura, religião, arte e língua. 10. É apenas nessa medida, aliás, que somos constrangidos a falar de identidade, pois no passado se era canaque ou cossaco, berbere ou bretão, francês ou inglês, inglês ou escocês, e se pertencia a tal paróquia, sinagoga ou mesquita, e a tal grupo, linhagem, totem, ilha ou vale, não se falando de identidade porque ela era indicada por signos, falando-se dela apenas quando já não há mais signos, ou quando estes já não remetem mais a nada. {{tag>Nancy identidade}}