====== 4 Identidade franca ====== //Identité: Fragments, franchises. Éditions Galilée, 2010.// 1. Uma identidade franca é uma identidade clara, distinta, indubitável, até enfatizada e, além disso, declarada, aberta, exposta com sinceridade resoluta, sendo necessária, para apresentar-se, para exibir substancialmente quem se é, para além dos números e códigos do controle administrativo de identidade, uma certa franqueza de fala, um franc-parler no qual se diz o que se pensa, sendo necessária a mesma franqueza para dizer a alguém como se o vê. 2. Essa sinceridade resoluta só é possível através do caráter livre ou afrancado daquele que se identifica desse modo, franco no sentido de franc-bourgeois ou de franc-tireur, não sujeito a nenhuma autoridade nem tutela, livre e franc du collier, como se costumava dizer. 3. É por ser franco no segundo sentido que se pode sê-lo no primeiro, medindo e comprometendo sua independência sua sinceridade, que não é ausência de dissimulação mas expressão do fato de estar livre de toda dependência, de toda proveniência, referência ou aliança. 4. Isso significa sem dúvida também que a afrancação pode tornar-se inteiramente interna, podendo afirmar-me sob ameaça que buscasse extorquir de mim outra coisa, tendo sido, no fim, moribundos que gritaram Vive la France! ao caírem sob as balas na fortaleza de Mont Valérien, sendo, no fim, um olhar incapaz de fala que encara o SS ou outro carrasco, significando-lhe que oferece a ele, inteira, franca, para sempre retirada, portanto inacessível, a identidade que o outro buscava reduzir. 5. Se dissermos, por convenção, que o assassinato encerra uma vida enquanto uma execução busca aniquilar uma identidade, então em toda forma de execução encontraremos essa afirmação que, da vítima, ressoa em direção ao carrasco: aqui estou, para sempre inatacável, estando essa afirmação na base de toda afirmação de identidade. * Vive la France! * Aqui estou, para sempre inatacável. 6. A afrancação e a independência são mais profundas que minha dependência de mim mesmo, meu gosto, meus desejos e meus medos, situando-se infinitamente atrás, num lugar em que eu sou antes de ser alguém, não significando isso de modo algum que eu não reconheça ou incorpore em minha identidade mais de um traço vindo de outro lugar, de tantos outros lugares e tantas identidades igualmente distintas. 7. A questão é o lugar de onde a identidade, a minha, a dele, a dela, a sua, se enuncia, se declara, o ponto franco de um eu sou que, antes de qualquer qualificação ou atribuição, enuncia, o que equivale a dar, a condição de possibilidade de qualquer enunciado do tipo eu sou x, onde x não designa primeiramente a incógnita que será resolvida pelas particularidades de todo tipo, mas antes uma precondição. * Sou franco; digo em toda independência que e como posso dizer que sou, que me identifico. 8. A história ensinou-nos demasiado bem sobre as identidades extorquidas, o eu sou cristão ou o eu sou resistente, para mencionar dois exemplos de declarações frequentemente obtidas por violência ou astúcia, importando pouco se seu conteúdo é verdadeiro ou falso, pois é preciso em cada caso descobrir por que, como e para que fim a declaração foi feita, revelando isso porém que, quando não se trata primeiramente de fornecer prova ou dar referências, a franqueza está plenamente em jogo: asseguro que sou livre para afirmar quem sou, não podendo nenhuma declaração de outrem mudar isso. 9. A reservatio mentalis usada pelos marranos, e, como eles mas de modo menos sistemático, por muitos que se converteram por necessidade, pode ter parecido, em outros contextos, uma astúcia jesuítica, exprimindo contudo o fato de haver em algum lugar um franc-penseur inalienável e irredutível, exceto executando-o, o que suprime a questão levantada, havendo uma zona franca, governada por nenhuma autoridade, nem mesmo a de minha vontade ou de meu desejo, zona sobre a qual nada posso dizer em termos de identificação, mas sobre a qual sei que ela é, anterior a mim, aquilo a partir do qual posso ao menos tentar identificar-me, ou deixar que outros tentem o mesmo. 10. O nome França e o adjetivo francês carregariam assim um grande privilégio, pois a palavra franco, como nome do povo e como adjetivo, foi generosamente dotada dos sentidos de independência e não-aliança, sendo o franco, maiúsculo ou não, o próprio nome daquilo que uma identidade requer: não primeiramente seus atributos mas a disposição franca de seu estatuto, e portanto a franqueza de sua declaração. 11. Poder-se-ia dizer: a identidade é necessariamente uma franquia nos dois sentidos da palavra, isenção e veracidade, abrindo esse duplo aspecto da franquia imediatamente a identidade como tal, isto é, em sua diferença consigo mesma e com o resto, dizendo eu francamente, a partir da distância em que me afranquei, que ali me mantenho, podendo assim abrir-se uma relação. 12. Esse privilégio é evidentemente partilhado com muitos outros nomes de povos que se designam a si mesmos como os livres, ou como o povo, absolutamente, ou até como humanos, não havendo lei, mas talvez uma tendência pela qual grupos gostam de identificar-se tendenciosamente como a própria identidade, como absoluto. 13. No caso da França, é interessante que os nomes da nação e do povo tenham perpetuado, junto com toda a semântica de franco na língua francesa, da qual dei alguns exemplos, e que se espalhou até nomes de cidades ou disposições como as franquias das primeiras universidades, esse duplo sentido de isenção e veracidade atribuído aos francos, isto é, que os francos atribuíam a si mesmos. 14. Os francos eram germânicos, segundo as taxonomias protohistóricas, tendo mais tarde, durante a era dos nacionalismos, alguns franceses se ressentido disso e tentado torcer a história para identificar claramente a França como não-germânica, chegando ao ponto de buscar um desvio via Troia e Eneias, a fim de encontrar uma origem menos bárbara. {{tag>Nancy identidade}}