====== 6 Ego ====== //NANCY, Jean-Luc. Corpus. Edition revue et complétée. Paris: Métailié, 2006.// 46. Não "meu corpo", mas corpus ego (corpo eu): "ego" só tem sentido ao ser pronunciado, proferido — e em sua proferição seu sentido é simplesmente idêntico à existência: "ego sum, ego existo" —, dizendo Descartes muito bem que a verdade desse enunciado se deve à circunstância, ao "cada vez" de sua enunciação. * "Cada vez que o pronuncio, ou que o concebo." 47. É preciso uma vez, uma quantidade discreta que dê o espaço de tempo da articulação, ou que lhe dê lugar, não sendo contraditório que essa "vez" tenha lugar sem cessar, a cada momento do existir, indicando isso simplesmente que o existir existe segundo essa discrição, essa descontinuidade contínua, isto é, seu corpo, sendo assim, na articulação do ego cartesiano, a boca ou o espírito tudo um: é sempre o corpo. 48. Não o corpo do "ego", mas corpus ego, "ego" que só é "ego" articulado, articulando-se como o espaçamento, a flexão, mesmo a inflexão de um lugar, não tendo apenas lugar a enunciação de "ego": ela é lugar, sendo apenas localizada — ego = aqui (havendo daí deslocação: ego também se pôs ali, depositou-se lá, à distância de articulação) — valendo todos os lugares para pro-ferir "ego", mas apenas enquanto lugares, não havendo atopia nem utopia de ego, mas somente a ec-topia articulatória, constitutiva da tópica absoluta, cada vez absoluta, de ego. * "Hic et nunc, hoc est enim... Aqui, agora." 49. Sou, cada vez que sou, a flexão de um lugar, a dobra ou o jogo por onde isso (se) pro-fere, sendo ego sum essa inflexão local, singular a cada vez, esse acento ou esse tom, implicando o axioma material, ou a arqui-tectônica absoluta, do corpus ego que não há "ego" em geral, mas apenas a vez, a ocorrência e a ocasião de um tom: tensão, vibração, modulação, cor, grito ou canto — sempre voz, e não "vox significativa", exigindo isso não menos que uma extensão que é a extensão mesma, o corpo partes extra partes. 50. Corpus ego é sem propriedade, sem "egoidade" (e muito menos sem egoísmo), sendo a egoidade uma significação necessária de ego: ego se ligando a si, ligando a desligação de sua proferição, ligando o corpo, apertando sobre si o laço de si, instaurando a egoidade o espaço contínuo, a indistinção das vezes de existência, com ela o horror da morte. 51. Corpus ego faz o sentido desatado, ou faz sua volta indefinida, discreta travessia de lugar em lugar, de todos os lugares, atravessando um corpo todos os corpos tanto quanto o atravessa a si mesmo: é o exato reverso de um mundo de mônadas fechadas, a menos que seja, enfim em corpo, a verdade da interseção e da compenetração das mônadas em totalidade. 52. Ego sempre se articulando — hoc, e hoc, e hic, e illic (isto, e isto, e aqui, e ali) —, ida-e-vinda dos corpos: voz, alimento, excremento, sexo, filho, ar, água, som, cor, dureza, odor, calor, peso, picada, carícia, consciência, lembrança, síncope, olhar, aparecer, enfim todos os toques infinitamente multiplicados, sendo o mundo dos corpos o mundo não-impenetrável, onde os corpos articulam primeiro o espaço em vez de estarem submetidos à compacidade do espaço. 53. Partes extra partes (partes fora de partes): o que é impenetrável aqui não é a espessura maciça da pars (parte), mas ao contrário o afastamento do extra, nunca um corpo "penetrando" a abertura de outro corpo senão ao matá-lo, sendo o "corpo" "dentro" de um corpo, ego "dentro" de ego, o que não "abre" nada: é já no aberto que o corpo está, infinitamente, mais que originalmente, tendo lugar aí essa travessia sem penetração, essa mescla sem mistura — o amor é o toque do aberto. 54. Mas "o aberto" não é e não pode ser um "substantivo": o "extra" não é uma outra "pars" entre as "partes", mas somente a partilha das partes — partilha, partição, partida. {{tag>Nancy corpo ego}}