====== SURPRESA ====== //NANCY, Jean-Luc. Être singulier pluriel. Paris: Galilée, 1996 / Being Singular Plural. Translated by Robert D. Richardson and Anne E. O’Byrne. Stanford: Stanford University Press, 2000:24// 1. O título deve também ser escrito ou lido como a surpresa: do evento, pois aquilo de que trata a surpresa não é apenas um atributo, uma qualidade ou uma propriedade do evento, mas o evento mesmo, seu ser e sua essência, não sendo o que faz evento no evento apenas o fato de que ele acontece, mas que ele surpreende, e talvez até que ele mesmo se surpreenda. 2. Recomeça-se pelo começo, colhendo-se essa frase de Hegel segundo a qual a filosofia não deve ser uma narração do que acontece, mas um conhecimento daquilo que nisso há de verdadeiro, devendo compreender, a partir do verdadeiro, o que na narração aparece como um simples acontecer. * A filosofia não tem de ser uma narração do que acontece, embora seja um conhecimento daquilo que nele há de verdadeiro, e com base no verdadeiro deva depois compreender o que na narração aparece como um simples acontecer. 3. Segundo uma primeira leitura, a mais evidente e conforme à interpretação mais canônica do pensamento hegeliano, a filosofia teria por tarefa conceber aquilo de que o evento não é senão o fenômeno, havendo primeiro a verdade contida no que acontece e depois, à luz dessa verdade, a concepção de sua própria produção, que aparece exteriormente até ser conhecida como puro e simples evento, desacreditando assim o advento do verdadeiro como real o evento enquanto simples representação narrativa. 4. Essa primeira leitura não pode, contudo, limitar-se a isso, pois, para ser rigorosa, a lógica do conceito de que se trata não deve ser uma lógica da categoria ou da ideia pensada como abstrata generalidade, mas antes uma lógica da identidade do conceito e da coisa, sendo o conceito o elemento onde se revela que o fenômeno não é simplesmente algo desprovido de essência, mas manifestação da essência, sendo o conceito, na realidade, o fenômeno surpreendendo-se a si mesmo como verdade. * O fenômeno não é simplesmente algo privado de essência, mas é manifestação da essência. 5. Não é evidente, ainda segundo essa leitura canônica, que a expressão puro e simples evento deva ser compreendida de maneira unilateral, como se os predicados determinassem a essência do sujeito, podendo ao contrário subsistir uma consistência própria do evento não puro e simples, permanecendo o evento concebido justamente enquanto evento concebido, do que seria preciso extrair algumas consequências. * Diante da pura luz da ideia divina, que não é um simples ideal, desvanece-se a aparência de que o mundo seja uma sucessão de acontecimentos insensatos e loucos. 6. É necessário, portanto, considerar uma segunda leitura, atenta à diferença que articula a frase da Lógica entre, de um lado, o conhecimento do verdadeiro que se encontra na coisa que acontece, e, de outro e além disso, a concepção do que aparece como simples evento, ou seja, não a coisa que acontece, mas o fato de que ela acontece, isto é, a eventualidade de seu evento. 7. A tarefa da filosofia se decompõe assim em conhecer a verdade daquilo que tem lugar e conceber o ter-lugar como tal, apresentando Hegel, com base nessa diferença pouco evidente mas nítida, a tarefa filosófica como a de conceber, além do verdadeiro, o ter-lugar do verdadeiro, ou seja, uma verdade além da própria verdade. 8. Com essa diferença ou esse suplemento de verdade, Hegel abre a modernidade, não sendo essa abertura outra coisa senão a abertura do pensamento ao evento enquanto tal, à verdade do evento além de todo advento de sentido. 9. Trata-se, com efeito, de que a tarefa da filosofia não é substituir ao [[lx>termos:g:geschehen|Geschehen]] narrativo algum substrato ou sujeito que não aconteceria mas puramente seria, mas sim pensar que ele acontece, o acontecido ou antes o acontecer mesmo, que nunca é precisamente o mesmo daquilo que era, porque não aconteceu, tratando-se de pensar a mesmidade mesma enquanto mesmo que nada. 10. É talvez assim que se deve pensar a [[lx>termos:g:geschichte|Geschichte]] em Hegel, mais próxima do ato ou do ser inteiro, da entelequia do Geschehen, do que da história tal como a entendemos, não sendo ela a sucessão produtora de estados diferentes de seu sujeito, mas antes o acontecer, o chegar, um verbo não substantivado. 11. É justamente porque Hegel recusa que a filosofia se identifique com a narração de um desenrolar com suas peripécias que ele rejeita, olhando-se de perto, não a dimensão do acontecer como tal, mas antes o Geschehen compreendido como simples peripécia, não sendo o evento peripécia, mas aquilo que é, se é preciso dizer que é, que havia, isto é, que havia algo enquanto diferente da indiferença do ser e do nada. 12. Hegel tende também a pensar a essência do Geschehen enquanto Geschehen, isto é, a essência daquilo que excede uma lógica da essência entendida como substância, sujeito ou fundamento, em proveito de uma lógica do acontecer cuja essência inteira está em agitação que consiste em não subsistir, remetendo a origem e o uso semântico da palavra Geschehen à corrida, ao salto, à precipitação e à subitaneidade, e não ao processo ou ao que é produzido. 13. Confessa-se tocar aqui o limite extremo do que se pode fazer Hegel dizer, não se tratando de exercer violência interpretativa nem de forçá-lo além de seu tempo, mas de evidenciar que o tempo próprio de Hegel na filosofia, o tempo do fechamento-abertura moderno, comporta nele mesmo essa surpresa, uma surda inquietação a propósito do evento. 14. Um pensamento do evento em sua essência evenemencial surpreende, de dentro, o pensamento hegeliano, que se detém tão logo se abre a ele, deixando o Geschehen chegar e partir sem apreendê-lo, mas enunciando, para além de seu próprio discurso, que isso lhe acontece e que é ainda o que resta a pensar. 15. Poder-se-ia também dizer que Hegel apreende o Geschehen, detendo-o ou persuadindo-o em sua chegada-e-partida, fixando seu conceito como Geschichte, mas, ao fazê-lo, evidencia de modo inédito que é justamente ao apreendê-lo que o terá perdido enquanto tal, abrindo assim, quer queira quer não, a questão do enquanto tal do Geschehen. 16. O enquanto tal do evento seria seu ser, que não deveria ser o ser daquilo que acontece nem o ser do que acontece, mas o ser-acontecente, ou melhor, o ser-que-acontece, não o há, mas que há, esse sem o qual não haveria nada, consistindo a diferença entre é e há precisamente no fato de que o há evidencia a instância própria do ter-lugar do ser, sem a qual o ser não seria. 17. Aquilo que se abre com a questão do enquanto tal do evento pertence à ordem de uma negatividade do enquanto tal, sendo o pensamento aqui surpreendido no sentido forte do termo, pego em falta de pensamento, não porque não tenha ainda avistado seu objeto, mas porque não há objeto avistável, se o evento não pode sequer ser dito ou visado enquanto tal sem que se lhe subtraia sua eventualidade. 18. Há, portanto, algo a pensar, o evento, cuja própria natureza, a eventualidade, não pode senão suscitar surpresa e tomar o pensamento de surpresa, havendo que pensar como o pensamento pode e deve ser surpreendido, sendo talvez precisamente essa surpresa que o faz pensar, não havendo pensamento sem evento de pensamento. 19. Pensar a surpresa do evento, o que sem dúvida remete a pensar o cerne ou o salto do Geschehen hegeliano, a mola dialética no ponto em que, antes de ser recurso e motor, deve ser disparo ou desengate, deve ser algo distinto de dirigir-se a um impensável sob qualquer modalidade e distinto também de captar a surpresa para dela se desprender atribuindo-lhe como residência o conceito. 20. Que essa tarefa seja a da filosofia, e que a filosofia seja o pensamento surpreendido, é talvez o que se deve compreender retornando, bem antes de Hegel, ao topos platônico e aristotélico do espanto, repetindo-se continuamente esse topos como para excitar-se com a ideia de um espanto originário, ao mesmo tempo arrebatamento e confissão de ignorância, que empenharia o processo de sua auto-apropriação, isto é, de seu auto-reabsorvimento. 21. O que Aristóteles diz, lendo-se atentamente a Metafísica A 2, é que a filosofia é a ciência, nem prática nem poiética, que procede do espanto enquanto dá acesso à ciência que não tem outro fim senão a si mesma, não valendo o espanto tanto como ignorância a colmatar ou aporia a superar, mas antes como disposição para a sophia em si, sendo o espanto propriamente filosófico e podendo dizer-se que ele já está, por si, no elemento da sophia, e que esta retém em si o momento do espanto. 22. Assim, a surpresa do evento não seria apenas uma situação-limite para um saber do ser, mas também sua forma e seu fim essenciais, constituindo, do início da filosofia até seu fim que rejoga novamente seu início, toda a aposta em jogo, uma aposta literalmente interminável. 23. É ainda necessário permanecer exatamente no elemento do espanto, isto é, naquilo que não pode propriamente fazer um elemento, mas certamente um evento, cabendo perguntar como permanecer no evento, como nele se deter sem fazer dele um elemento ou um momento, e sob quais condições guardar o pensamento na surpresa que tem por tarefa pensar. 24. Recomeça-se a partir daqui: a surpresa do evento é, pois, uma tautologia, sendo precisamente essa tautologia o que primeiro se deve enunciar, pois o evento surpreende ou não é evento, estando tudo em saber o que é essa surpresa. 25. Num nascimento e numa morte, que não são exemplos mas mais que exemplos, a própria coisa, há o evento, por mais esperado que tenha podido ser, podendo formular-se que o que é esperado nunca é o evento, mas o advento, o resultado, o que acontece, de modo que, ao fim de nove meses, espera-se o nascimento, mas que ele tenha lugar é o inesperado estrutural dessa espera. 26. O inesperado não é o fato de que isso tem lugar, na medida em que esse fato pode ser circunscrito como sequência de um processo e dado da experiência, mas é o que mesmo do que acontece ou do que há, sendo melhor ainda ele acontece distinto de tudo que o precede e de tudo pelo qual é co-determinado, sendo o puro presente do acontece, e a surpresa consiste em ter que lidar com o presente como tal, à presença do presente enquanto acontece. 27. Para pensar algo que sobrevém numa série, é preciso, diz Kant, concebê-lo como mudança da substância, que permanece una e idêntica, e relacionar essa mudança à causalidade, pois fora desse conceito de mudança não haveria simplesmente conceito de alguma coisa, mas antes nascimento ou desaparecimento da substância, o que não pode ter lugar no tempo, mas apenas como o próprio tempo, não podendo o tempo ser percebido em si. * O conceito de mudança pressupõe justamente um mesmo sujeito com duas determinações opostas como existentes e, portanto, como permanente. 28. O puro sobrevir, isto é, o ex nihilo, assim como o ni nihilum, não é nada de que haja conceito, ou é o próprio tempo, sua paradoxal identidade e permanência enquanto tempo vazio, sendo o evento como tal o tempo vazio ou a presença do presente enquanto negatividade, isto é, enquanto ele acontece, portanto não presente, de tal maneira que nada o precede nem o sucede. 29. O tempo vazio, ou o vazio do tempo enquanto tal, condição de formação de toda forma e não vacuidade no interior de uma forma, não é uma coisa em si acessível a uma intuição originária, sendo antes o próprio tempo, não como sucessividade mas como aquilo que não sucede e que já não é a substância permanente, devendo dizer-se a permanência sem substância, o presente sem presença, o sobrevir da própria coisa, sendo isso, numa palavra carregada de tradição, a criação. 30. O tempo vazio, ou a negatividade como tempo, o evento, faz ele mesmo o em-si da coisa em si, sendo isso exatamente o que Kant não pôde captar e a que Hegel, e todos nós depois dele, não deixamos de tender, fazendo o tempo ou o evento a posição de existência como tal, o nihil/quid que não pode sequer ser enunciado como um do nihil ao quid, o evento do ser não como acidente nem predicado, mas como o ser do ser. 31. Nessas condições, o evento não é algo que estaria além do cognoscível e do dizível, reservado a um dizer-além e saber-além de uma negatividade mística, nem é uma categoria ou supracategoria distinta do ser, sendo antes diretamente o ser, a condição necessária para categorizar o ser, para dizê-lo, olhá-lo, interpelá-lo à altura da surpresa de seu sobrevir. 32. Enquanto ter-lugar, aparecer, desaparecer, o evento não é apresentável, excedendo os recursos de uma fenomenologia, mas não é por isso impresentável como outra presença oculta, sendo antes o impresentificável do presente próprio ao presente mesmo, sua diferença estruturante, o que não significa que não seja pensável, mas que o pensamento, para pensá-la, deve fazer-se ele mesmo surpresa de e em seu objeto. 33. Nessas condições não haveria evento enquanto tal, pois o evento como evento, segundo seu próprio modo, evenire quo modo evenit, não é, mais uma vez, o que é produzido e se pode mostrar, o espetacular, a criança nascida, o homem morto, mas é o evento como e-vem, como acontece, confundindo-se aqui o como modal com o como temporal. 34. O modo do evento, seu enquanto tal, é o próprio tempo como tempo do sobrevir, sendo o tempo do sobrevir o tempo vazio, o vazio do tempo, ou melhor o vazio como tempo, o que será a negatividade por si mesma com a qual Hegel definiu o tempo, mas, diferentemente de Hegel, essa negatividade não compreendida como abstratamente relacionada a si. * O nascer e o morrer. 35. O que não é nem a abstração nem o resultado é o sobrevir, a negatividade por si mesma, mas por si mesma enquanto posição de ser ou de existência, não sendo essa positividade da negatividade sua fecundidade dialética, mas antes seu exato reverso, sendo o ser ou o existente nem gerado nem ingerado, mas sobrevindo, sobrevindo, ou ainda, criado. 36. A negatividade aqui não se nega nem se revela por si mesma, mas faz outra coisa, sua operação ou inoperação obedecendo a outro modo, podendo dizer-se que ela se tende, tensão e extensão através das quais somente algo poderá aparecer em seguida como passagem e processo, extensão nem temporal nem local do ter-lugar como tal, espaçamento pelo qual o tempo surge, tensão do nada que abre o tempo, o vão de que fala Heidegger. 37. O sobrevir é o nada tenso até a ruptura e o salto do acontecer, onde a presença se pre-senta, havendo ruptura e salto não com o continuum temporal pressuposto, mas com o próprio tempo, isto é, com aquilo que não admite pressuposto algum, tratando-se de ruptura de nada e salto de nada no nada, tensão-extensão do ser, do há. 38. Se o evento do há tem por corolário a negação e não nada, ele não é seu negativo, não significando e não nada que não exista nada, mas ao contrário que nada existe senão alguma coisa, e que alguma coisa existe sem outro pressuposto além de sua própria existência, isto é, a extensão do nada como tensão de seu vir-a-ser presente, de seu evento. 39. Que nisso o pensamento da existência seja prova do nada, não se poderia deixar de reconhecer, mas a prova do nada não é necessária nem exclusivamente a angústia do nada, que arrisca projetar esse nada como pressuposto abissal do ser, sendo antes aquilo de que se tenta aproximar-se: o pensamento-surpresa do evento. 40. A surpresa é exatamente aquilo que já não se pode perguntar, sendo a surpresa nada, não uma novidade de ser que surpreenderia em relação ao ser já dado, pois quando há evento, seja um só para a totalidade do ente ou vários dispersos e aleatórios, é o já que salta, com o ainda não, saltando todo o presente apresentado ou apresentável, sendo esse salto o vir, ou a pré-sença, ou o presens mesmo sem presente. 41. Quando a criança nasce, como diz Hegel na célebre passagem da Fenomenologia, o evento não é que ela tenha nascido, pois isso é adquirido na ordem do processo e da modificação da substância, sendo o evento antes a interrupção do processo, o salto que Hegel representa como o salto qualitativo do primeiro fôlego, ou ainda, alhures, como o tremor que atravessa e divide no útero a substância materna, não sendo nascer ou morrer ser, mas salto no ser. 42. Só se pode pensar o salto com um salto do pensamento, com o pensamento como salto, que ele sabe e sente necessariamente ser, mas que sabe e sente ser assim como surpresa, sendo a surpresa nada, porque o salto é diretamente o ser, esse salto onde o evento e o pensamento são o mesmo, repetindo à sua maneira um pensamento da surpresa a mesmidade parmenídica do ser e do pensar. 43. O salto, quem, esse, não é nada nem ninguém, esse não é senão nesse salto, isto é, existe, se o ek-sistir da existência é feito da tensão e da extensão entre o ser e o ente, entre o nada e alguma coisa, sendo o salto no nada o modo como esse existe, sendo ele mesmo a articulação da diferença entre nada e alguma coisa, diferença que é também uma controvérsia, havendo desacordo entre o ser e o ente, o ser em desacordo com a entidade presente posta pelo ente, e o ente em desacordo com a essencialidade substancial fundadora do ser, fazendo esse desacordo o evento: a não presença do vir à presença, e sua surpresa absoluta. 44. Essa não é, contudo, uma surpresa para um sujeito, ninguém sendo surpreendido, assim como ninguém realizou um salto, não pertencendo a surpresa, o evento, à ordem da representação, sendo a surpresa que o salto, ou antes aquele que advém no salto e como o próprio salto, se auto-surpreende, sendo ele surpreendido enquanto é, coincidindo com essa surpresa sem representar-se a si mesmo nem sua surpresa, não sendo essa surpresa sequer ainda a sua. 45. Tensão, extensão do salto, espaçamento do tempo, desacordo do ser como sua verdade, eis a surpresa, surpreendendo o vão não por aquilo que viria a perturbar num sujeito que já estava ali, mas pelo fato de que ela toma alguém ali onde ele não está, ou antes o apreende, o transita enquanto ele não está ali. 46. Esse não estar aí é exatamente o modo mais próprio de estar aí quando se trata de saltar no ser, ou de existir, não sendo o não estar aí já estar aqui, mas ser o aqui mesmo, sendo essa a principal condição existencial do Dasein, sendo o aqui o espaçamento da tensão, da ex-tensão, o espaço-tempo, nem espaço nem tempo, nem acoplamento dos dois, nem ponto-originário fora dos dois, mas corte e quiasma de origem que os abre um no outro. 47. A surpresa é o salto no espaço-tempo de nada que vem antes ou de outro lugar, sendo portanto o salto no espaço-tempo do próprio espaço-tempo, sendo o ter-lugar do lugar, do aqui que não é um lugar para o ser, mas o ser enquanto lugar, o ser-o-aqui, não o ser presente, mas o presente do ser enquanto acontece e que, portanto, não é. 48. A surpresa do evento é também a própria negatividade, mas não a negatividade enquanto recurso, enquanto fundo disponível, enquanto nada ou abismo do fundo do qual viria o evento, pois esse evento seria ainda um resultado, sendo o nada que é nada no fundo e que não é senão o nada de um salto no nada a negatividade que não é recurso, mas a afirmação da tensão ek-sistente, sua intensidade, o tom surpreendente da existência. 49. Nessas condições, se fosse preciso um esquematismo da surpresa, e é precisamente disso que se trata aqui, seria preciso dar-se as condições a priori de uma apropriação da surpresa enquanto tal, de uma apropriação surpreendida da surpresa, podendo dizer-se que ela é precisamente o próprio esquematismo, sendo o esquematismo a produção de uma visão pura, anterior a toda figura, e sendo essa visão pura ela mesma exposição do tempo como afecção pura de si, pois na afecção pura de si a visão se vê vendo e assim vê o nada. 50. O esquematismo em geral é principalmente a visibilidade do nada como condição de possibilidade de toda visibilidade de alguma coisa, vendo-se toda visão de algo, ao início, como visão pura, vendo nada, não vendo nada ali, e no entanto já vista, não tendo, fora de si, nada da figura, sendo essa figura sem figura que traça num relâmpago o evento do ser. 51. Assim, o esquematismo, e com ele toda a imaginação transcendental, não estaria de modo algum na ordem das imagens, nem tampouco na ordem de uma arqui-imagem, nada além de um sublime abismo do afundamento das imagens, sendo antes, de modo mais imaginável, o evento-esquema, a fulguração da linha tensa diretamente ao nada e a pura afirmação da existência, nem sequer o nascimento nem a morte, mas apenas aquilo mesmo que esses cortes delimitam: o ser de um ente, seu evento. 52. Dir-se-á, consequentemente, que esse evento é único, à maneira como Heidegger fala do evento fundamental no Dasein, sendo, num certo sentido, sem dúvida, que não há senão um evento, e não há do evento espalhado aqui e ali sem conexão com a eventualidade essencial, havendo um evento, uma surpresa, e o existente não se apoia nela, não retorna dela: isso é existir. 53. A unicidade do evento não é, contudo, numérica, não consistindo em estar recolhida sobre si mesma num ponto de origem, pois para a ontologia não há big bang, sendo a unicidade do evento de natureza e estrutura dispersa no risco dos eventos e, consequentemente, também no risco daquilo que não faz evento e se retira discretamente no continuum imperceptível, no murmúrio da vida para a qual a existência é a exceção. 54. Se o evento fosse fundamental e único no sentido ordinário ou metafísico desses termos, seria dado, e essa doação seria justamente a dissolução originária de toda eventualidade, não havendo surpresa, sendo justamente porque o evento não é dado, mas acontece, que há surpresa e multiplicidade aleatória do que se poderia chamar os acontecidos do único evento, não havendo, nesse sentido, senão eventos, o que significa mais precisamente que o há é evenemencial, sendo eles não só diversos, discretos e dispersos, mas também raros, sendo o evento simultaneamente único, inumerável e raro. 55. O evento não cessa nunca de acontecer nem de surpreender, não cessando o pensamento de se surpreender ao vê-lo vir, olhar aberto sobre sua clareza de nada, sendo um pensamento um evento, aquilo que o pensamento pensa acontecendo-lhe ali onde ele não está, e sendo um evento um pensamento, tensão e salto no nada do ser, sendo nesse sentido que ser e pensar são a mesma coisa, tendo sua mesmidade lugar segundo a ex-tensão que corta a ek-sistência. 56. É nesse sentido também que se poderia dizer que a criação do mundo é o pensamento de Deus, mas se para nós o incondicionado deixou de estar submetido à condição do ser supremo, não se deveria pensar isso sequer sem Deus e sem criador, sendo isso o que significa a exigência de um pensamento do evento tal como nos chegou, ao menos depois de Hegel. 57. Seria talvez necessário prestar renovada atenção àquilo que, no próprio Parmênides, inscreve a verdade ontológica numa narração do evento, abrindo-se o poema sobre o presente de uma rápida corrida, os cavalos que me levam, da qual nada indicaria formalmente a parada, entrando a biga daquele que fala precisamente no domínio da deusa, domínio que não está presente de outro modo senão como a grande estrada aberta pela abertura escancarada que Diké aceitou abrir. 58. O jovem, aquele que sabe ou vê seu caminho ultrapassar todas as cidades, não desce de sua biga, sendo sem se deter, na passagem, que é instruído pela deusa, não do ser, mas do é, vendo, ao passar pela abertura, que há, sendo isso tudo o que lhe acontece, e nunca acontecendo mais nada além disso quando algo acontece. 59. Ainda assim é preciso dizer e pensar isso, não havendo outra coisa a dizer e a pensar, estando todo o sentido aqui, sendo o sentido aquilo que faz com que haja, aquilo que destina ou provoca o ser a acontecer, aquilo que transita o ser no acontecer, no chegar/partir, não podendo isso ser representado como axioma nem tampouco como fato, dizendo-se antes que isso é um deve. 60. Sob o título do último movimento do Quarteto opus 135, A decisão dificilmente tomada, Beethoven anotou, como se sabe, Muss es sein? Es muss sein, que se pode interpretar como Deve (ser)? Deve (ser), pois, se o ser fosse simplesmente, nada aconteceria e já não haveria pensamento, não sendo talvez o deve o enunciado de uma simples necessidade imanente de uma natureza ou de um destino, não podendo a própria necessidade ser senão a resposta determinada do pensamento à incerteza do ser onde ele é surpreendido: muss es sein? {{tag>Nancy surpresa Geschehen}}