====== Nascimento à presença ====== //NANCY, Jean-Luc. The Birth to Presence. Tr. Brian Holmes et alii. Stanford: Stanford University Press, 1993// **§ INTRODUÇÃO: O NASCIMENTO À PRESENÇA** 1. A época da representação é tão antiga quanto o Ocidente, e talvez o próprio “Ocidente” não constitua uma época singular e única, mas seja coextensivo à humanidade desde que o homo se tornou homo, de modo que o fim da representação não pode ser entrevisto nem mesmo quando a autossupressão da humanidade se torna possível em seu programa geral, pois talvez não exista humanidade — e sequer animalidade — que não inclua representação, embora esta possa não esgotar aquilo que, no homem, ultrapassa infinitamente o próprio homem. * “O Ocidente” talvez não seja uma “época” singular e única. * Talvez não exista humanidade, nem mesmo animalidade, que não inclua representação. * A representação pode não esgotar aquilo que, no homem, ultrapassa infinitamente o homem. 2. O limite do Ocidente permanece incessantemente à vista porque “o Ocidente” designa precisamente aquilo que se apresenta como limite e demarcação ao mesmo tempo que impele continuamente para trás as fronteiras de seu próprio império, aparecendo paradoxalmente como aquilo cuja vocação planetária, galáctica e universal consiste em estender ilimitadamente sua própria delimitação e, assim, abrir o mundo para o fechamento que ele mesmo constitui. * “O Ocidente” é precisamente aquilo que se designa como limite, como demarcação, mesmo quando impele incessantemente para trás as fronteiras de seu império. 3. Esse fechamento recebe múltiplos nomes — apropriação, cumprimento, significação, destinação — e particularmente o de “representação”, pois a representação determina-se por seu próprio limite ao constituir a delimitação de um sujeito e, por esse sujeito, daquilo que “em si mesmo” não seria nem representado nem representável. * O fechamento é nomeado como “apropriação”, “cumprimento”, “significação”, “destinação” e, particularmente, “representação”. * Aquilo que está “em si mesmo” não seria nem representado nem representável. 4. O irrepresentável, concebido como presença pura ou ausência pura, constitui ele próprio um efeito da representação, assim como “o Oriente” ou “o Outro Mundo” são efeitos do “Ocidente”, pois o sujeito da representação chega a representar para si mesmo, como um sol cegante, o objeto puro do conhecimento e do desejo que supostamente o dissolveria ao se apresentar absolutamente. * “O Oriente” e “o Outro Mundo” são efeitos do “Ocidente”. * O sujeito representa para si mesmo o objeto puro de conhecimento e de desejo que, ao se apresentar absolutamente, deveria necessariamente dissolvê-lo. 5. O pensamento representacional caracteriza-se por representar para si mesmo tanto a si próprio quanto o seu exterior, inclusive o exterior de seu limite, recortando uma forma sobre o fundamento e outra forma a partir do fundamento, de modo que nada mais pode advir, surgir ou nascer de qualquer fundamento. 6. Para aquele que vem depois do sujeito e sucede ao Ocidente, porém, a situação é diferente, pois ele não possui como essência algo já vindo, mas apenas o próprio vir, entendido como ação de chegar e não como resultado concluído, sendo a presença aquilo que nasce e que não cessa de nascer, de tal maneira que para aquele que vem só existe nascimento, precisamente porque ele sucede ao “sujeito” do Ocidente e encarna a vinda de um outro que o Ocidente simultaneamente exige e exclui antecipadamente. * “Vem” não significa “ter vindo”, mas um vir, a ação de vir e chegar. * A presença é aquilo que nasce e não cessa de nascer. * Trata-se da vinda de um outro que o Ocidente sempre exige e sempre exclui antecipadamente. 7. Em lugar da forma e do fundamento encontra-se o passo, a passagem e o vir nos quais nada permanece distinguido e tudo se encontra desatado, pois aquilo que nasce não possui forma e tampouco é o fundamento que nasce, sendo “nascer” antes transformar, transportar e fazer entrar todas as determinações. * “Nascer” significa antes transformar, transportar e fazer entrar todas as determinações. 8. Nascer não significa ter nascido nem estar numa condição já realizada, assim como pensar não significa já ter pensado, de modo que “nascer” constitui o verbo dos verbos, o estar no meio do acontecer que não possui começo nem fim, o verbo sem presença acabada que designa uma vinda à presença e a forma e o fundamento únicos do ser sem jamais se estabilizar como nome. * “Nascer” é o verbo dos verbos. * É o “estar no meio do acontecer” que não possui começo nem fim. * “Ser” significa não ter sido ainda e não já ter sido. * Nascer é o nome do ser e, precisamente por isso, não é um nome. 9. Desde o início do pensamento contemporâneo, particularmente desde Hegel, o nascimento é empregado para expressar aquilo que na representação excede absolutamente a representação, pois o próprio saber absoluto é apreendido como movimento de surgimento que engendra e nega toda representação dada junto com esse surgir, recebendo em Hegel o nome de “experiência da consciência”, isto é, uma travessia dos limites na qual o saber consiste na própria travessia e não existe conhecimento dela que não seja formado por esse atravessar. * O nascimento permite dizer aquilo que, na representação, excede absolutamente a representação. * Hegel compreende o saber essencial como movimento de surgimento e de negação de toda representação dada juntamente com esse surgimento. * Hegel denomina esse movimento “a experiência da consciência”. * Experimentar significa atravessar limites, atravessar enquanto saber, de modo que nenhum saber da travessia existe se não for formado pela própria “travessia”. 10. A presença somente se dá nesse surgir e nesse ultrapassamento que não alcançam nada além de seu próprio movimento, razão pela qual se pode dizer “eu = eu”, mas o eu não preexiste ao nascimento nem surge dele como uma identidade previamente constituída, pois nasce para a própria morte. * “Eu = eu.” * O eu não terá preexistido ao nascimento nem emergirá do nascimento: nascerá para sua própria morte. 11. A pergunta sobre se a própria morte pode nascer em alguém reconduz imediatamente à questão de saber se ela já está sempre nascendo, permanecendo impossível pensar outra coisa que não esse nascimento incessante. * “Posso pensar que a ‘morte’ nascerá em mim?” * “Ela já não está sempre nascendo?” 12. Nada terá preexistido ao nascimento e nada lhe terá sucedido, porque aquilo que nasce sempre “é” e jamais “é” de maneira acabada, de modo que nascer se torna o próprio nome do ser. * Aquilo que nasce sempre “é” e nunca simplesmente “é”. * “Nascer” é o nome do ser. 13. Se a morte fascinou o pensamento ocidental, isso ocorreu na medida em que esse pensamento acreditou poder construir sobre ela sua própria delimitação e seu paradigma de presença pura e ausência pura, fazendo da morte o significado absoluto e o selamento do sentido, enquanto a morte constitui propriamente o nome e “nascer” constitui o verbo. * A morte é o significado absoluto, o selamento do sentido. * A morte é o nome, mas “nascer” é o verbo. 14. Não é falso nem excessivo afirmar que toda produção de sentido — e qualquer constituição de sentido em sentido pleno — corresponde a um trabalho de morte, abrangendo assim todos os “ideais”, todas as “obras” e, de maneira notável, todas as filosofias, pois a filosofia distingue-se pelo modo singular de extrair proveito da morte, garantindo com isso sua própria perdurabilidade mediante uma espécie de luto permanente, na qual o “trabalho de luto” consiste precisamente no trabalho filosófico da representação que incorpora a morte para mantê-la à distância. * Toda produção de sentido — de um sentido que produza sentido — é um trabalho de morte. * Isso vale para todos os “ideais”, todas as “obras” e todas as filosofias. * O “trabalho de luto” constitui, em grande medida, o próprio trabalho da filosofia, isto é, o próprio trabalho da representação. * Ao final, o morto será representado e, desse modo, mantido à distância. 15. O luto propriamente dito, porém, permanece sem limites e sem representação, sendo lágrimas e cinzas que nada recuperam e nada representam, razão pela qual também é preciso nascer para aquilo que, na morte, permanece irrepresentado. * O luto não possui limites nem representação. * São lágrimas e cinzas. * Trata-se de nada recuperar e nada representar. 16. Nascer significa encontrar-se exposto e existir para fora de si, pois a existência constitui uma iminência incessante da própria existência, cada dia e cada instante expondo à sua necessidade, à sua lei e ao seu capricho, de modo que a existência não é algo constituído, mas o próprio existir do ser ao qual finalmente se reduz toda ontologia. * Nascer é encontrar-nos expostos, existir para fora de nós. * Cada dia e cada instante nos expõem à necessidade, à lei e ao capricho da existência. 17. O pensamento é pobre porque sua pobreza constitui precisamente aquilo que deve pensar: não representar a presença nem sua representação ou ausência, mas simplesmente nascer para a presença, fazendo com que a própria pobreza do pensamento coincida com o nascimento pensado. 18. Diante da filosofia e contra ela — inclusive no interior da própria filosofia —, “literatura”, “poesia” e “arte” em geral impõem essa pobreza ao pensamento somente sob a condição de não terem já sido completamente filosofadas, pois não se trata de gênero ou estilo, mas de discernir, numa voz, num tom ou numa escrita, se um pensamento está nascendo ou morrendo, se abre o sentido e o expõe ou se o sela e pretende impô-lo. * “Literatura”, “poesia” ou “arte” somente desempenham essa função na condição de ainda não terem sido completamente filosofadas pela filosofia. * Não se trata de uma questão de “gênero” nem de “estilo”. * Trata-se de saber se, numa voz, num tom ou numa escrita, um pensamento está nascendo ou morrendo, abrindo o sentido, expondo-o ou selando-o e pretendendo impô-lo. 19. A alternativa fundamental consiste em saber se um discurso nomeia e fixa aquilo de que fala ou se uma escrita é traçada pelo verbo que a atravessa, isto é, se permanece subordinada à nomeação representacional ou se deixa acontecer nela o próprio movimento do nascer. * Ou um discurso nomeia, ou uma escrita é traçada por seu verbo. 20. A distinção entre nomear e nascer talvez seja frequentemente indiscernível, mas na experiência não admite hesitação, pois experiência significa precisamente nascer para a presença de um sentido cuja própria presença é apenas nascente e jamais se completa, constituindo simultaneamente a destituição e a liberdade próprias da experiência. 21. Antes de toda apreensão representacional, antes da consciência e de seu sujeito, antes da ciência, da teologia e da filosofia, encontra-se aquilo que pode ser chamado de “há”, não como presença substancial nem como presença já dada, mas no modo de estar nascendo, pelo qual o próprio acontecer produz a presença, efetua o nascimento e incessantemente se retira, fazendo do nascimento esse deslizamento da presença por meio do qual tudo chega à presença. * Antes de toda apreensão representacional há aquilo que pode ser denominado “há”. * Esse “há” não está presente como substância nem como presença constituída. * Ele se encontra no modo de estar nascendo. * O nascimento é o deslizamento da presença por meio do qual tudo chega à presença. 22. Esse vir é simultaneamente um “ir-se”, pois a presença não advém sem apagar a Presença que a representação desejaria designar como fundamento, origem ou sujeito, fazendo do vir um “ir e vir” que excede em toda parte o mundo entendido segundo a direção de um Princípio ou de um Fim e que, dentro dos limites do próprio mundo, constitui o mundo mesmo como seu vir e como o nosso vir a ele e nele. * Esse vir é também um “ir-se”. * O vir é um “ir e vir”. * Esse ir e vir ultrapassa em toda parte a direção de um Princípio ou de um Fim. * O mundo é seu próprio vir e é o nosso vir a ele, nele. 23. O movimento próprio do nascimento realiza-se como um ir e vir incessante de nascimento a nascimento, de sexo a sexo, de boca a palavra e de pensamento a pensamento, sem termo originário ou final capaz de deter esse trânsito. * De nascimento a nascimento, de sexo a sexo, de boca a palavra, de pensamento a pensamento. 24. A presença não é “para” um sujeito nem é “para” si mesma, porque a própria presença é nascimento, o vir que se apaga e se reconduz, sempre mais atrás e sempre à frente de si, de modo que toda pretensão de retorno “ao Ideal”, à “práxis” ou “às próprias coisas” somente pode significar o nascimento ou a natividade não significante do vir de um mundo ao mundo. * A presença não é “para” um sujeito e não é “para” si mesma. * Quando um pensamento anterior dizia “o Ideal”, ou quando se diz “práxis”, ou “às próprias coisas”, somente este nascimento estava em questão. * Trata-se desta “natividade” que não constitui uma significação, mas o vir de um mundo ao mundo. 25. Chega um momento em que já não se pode experimentar senão uma cólera absoluta diante de tantos discursos e textos preocupados apenas em produzir um pouco mais de sentido, repetir ou aperfeiçoar delicadamente obras de significação, razão pela qual falar do nascimento exige não transformá-lo em mais um acréscimo de sentido, mas deixá-lo, se possível, como a própria falta de “sentido” que ele é, exposto e abandonado. * Trata-se de uma cólera absoluta contra tantos discursos e tantos textos preocupados apenas em produzir um pouco mais de sentido. * Falar do nascimento não deve transformá-lo em mais um acréscimo de sentido. * “Deixá-lo-ei, se isso for possível, como a falta de ‘sentido’ que ele ‘é’.” * “Deixá-lo-ei exposto, abandonado.” 26. Alegria e jouissance designam talvez o próprio sentido do nascimento, isto é, o sentido da iminência inesgotável do sentido, e a “poesia”, quando não se converte em ornamentação nem em repetição filosófica, jamais procura criar outra coisa senão esse vir e ir da iminência. * Alegria, jouissance, vir: talvez aí esteja o sentido do nascimento. * Esse sentido é o sentido da iminência inesgotável do sentido. * Quando não se converte em ornamentação nem em repetição da filosofia, a “poesia” jamais buscou criar outra coisa. * O vir e o ir da iminência. 27. “O deleite da presença” constitui a fórmula mística por excelência e, mais amplamente, a própria fórmula da mística como metafísica do presente, mas a presença não é um fruto cuja fruição ou consumação possa completar-se, pois aquilo que no “fruto” faz o fruto é precisamente seu vir, seu nascimento na flor e sua incessante renovação, de modo que o que está em jogo não é uma mística, mas um pensamento simples, retraído e nascente, cuidadoso, gracioso e atento, capaz de prevenir as filosofias e o pensamento apropriador e de corresponder à jouissance, à “grande” alegria evocada por Dante ao término de seu poema. * “O deleite da presença” é a fórmula mística por excelência. * Trata-se da fórmula da mística em geral, isto é, da metafísica do presente em toda mística. * Presentia frui. * Não existe “fruição”, nem qualquer “fruto” cuja consumação ou consumação plena seja possível. * O que no próprio “fruto” faz o fruto é seu vir, seu nascimento na flor, sempre renovado. * Não há aqui misticismo, mas apenas a exigência de um pensamento simples, retraído e nascente, cuidadoso, gracioso e atento. * Trata-se de prevenir as filosofias e de prevenir o pensamento apropriador. * Está em questão essa jouissance, essa “grande” alegria que Dante invoca ao final de seu poema. {{tag>Nancy presença}}