====== Algoritmo e operação ====== //Jean-Luc Nancy, Philippe Lacoue-Labarthe. O título da letra : uma leitura de Lacan. Tr. Sergio Joaquim de Almeida. São Paulo : Escuta, 1991.// 1. Trata-se de visar, na linguística aberta por Saussure, a ciência da letra. 2. Do conceito de ruptura epistemológica, retém-se o elemento segundo o qual uma ciência deve ser instituída com base não no tratamento de um novo objeto empírico, mas na determinação prévia de um modo de cálculo e de uma conceitualidade correspondente, a partir do que se pode construir um objeto de ciência. 3. Tal determinação é interpretada como a posição inaugural de um algoritmo, que funda a emergência da disciplina linguística como se dá com qualquer ciência no sentido moderno. * Para apontar a emergência da disciplina linguística, diremos que, como no caso de qualquer ciência no sentido moderno, parece-se, no momento de se constituir, com um algoritmo que a fundamenta. 4. Fazer uso deste termo equivale a estender os conceitos da epistemologia bachelardiana, pois o algoritmo, que designa em seu primeiro sentido um processo de cálculo algébrico, designa em seu sentido moderno um processo de notação diferencial constitutivo de uma lógica, sendo por ora preciso tomá-lo no sentido estrito, uma vez que se trata essencialmente de fazer o signo saussuriano passar por um tratamento que equivale a impedi-lo de funcionar como signo. 5. O algoritmo é atribuído por Lacan a Ferdinand de Saussure, embora não se reduza estritamente à forma dos esquemas apresentados no Curso de linguística geral, homenagem que se apoia no fato de o ensino de Saussure só poder deter-se com base em seu próprio movimento, encontrando-se entre os esquemas saussurianos aquele que opõe significado e significante como o mais próximo do algoritmo lacaniano. 6. Comparado ao algoritmo, o esquema saussuriano apresenta o significante sob a barra e mantém sempre um processo de notação cômodo, enquanto quatro traços principais distinguem o algoritmo: o desaparecimento de um certo paralelismo entre os termos inscritos de cada lado da barra, o desaparecimento da elipse saussuriana, a substituição da fórmula das duas faces do signo pela designação de duas etapas do algoritmo e o acento colocado sobre a própria barra que separa S de s. * O próprio Lacan destaca que a temática da linguística está pendente da posição primordial do significante e do significado, como ordens distintas e separadas inicialmente por uma barreira resistente à significação, o que tornará possível um estudo exato das ligações do significante e da amplitude de sua função na gênese do significado. 7. A posição de duas ordens distintas do significante e do significado não apenas endurece uma oposição efetiva já presente em Saussure, mas, mais radicalmente, a separação dessas ordens por uma barreira resistente à significação subverte de parte a parte a concepção saussuriana do signo, sendo o que é primordial e fundador, de fato, a própria barra, e não a autonomização do significante, que é efetiva mas secundária. 8. A ciência da letra instala-se, num mesmo movimento, na linguística e a destrói, posição paradoxal e insustentável, sendo mais que isso, uma tarefa impossível: a de uma linguística sem teoria do signo. 9. Na verdade isso não funciona dessa forma, abrindo-se no texto uma espécie de parênteses que suspende a demonstração para marcar o alcance exato dessa ruptura introduzida no pensamento do signo, movimento que se revela mais complexo e equívoco do que o fechamento de toda problemática filosófica do signo. 10. A problemática filosófica do signo é a questão do arbitrário, distinção primordial que vai muito além do debate a respeito do arbitrário do signo elaborado desde a reflexão antiga, debate falso ou em vão, uma vez que todas as respostas possíveis no fechamento dessa questão desviam do lugar de onde a linguagem interroga sobre sua natureza. * Esta distinção primordial vai muito além do debate referente ao arbitrário do signo tal como foi elaborado desde a reflexão antiga. * Tais considerações desviam do lugar de onde a linguagem interroga sobre sua natureza. 11. O que é questionado não é o arbitrário do signo em si, mas uma certa maneira de colocar essa questão, sendo tal posição do arbitrário o reconhecimento pós-cratileano da aporia da referência, impasse que se opõe à correspondência biunívoca da palavra com a coisa, de modo que o mal decorre de se ter pensado a linguagem em relação à coisa, restando apenas a resposta agostiniana ou a solução conceitualista e nominalista. * O impasse experimentado desde a mesma época se opõe à correspondência biunívoca da palavra com a coisa, mesmo que fosse apenas no ato de denominação. 12. Sendo o signo arbitrário, quase não é possível ir além do reconhecimento da ligação necessária entre significante e significado, reconhecimento dentro do qual permanece presa toda a linguística e sua duplicata filosófica, o neopositivismo lógico, não se podendo atribuir a Saussure diretamente essa prisão, mas antes às emendas ulteriores, como a desmotivação de Benveniste ou a reduplicação lógico-positivista da questão do sentido. 13. A linguagem não deve, pois, ser pensada a partir do signo, pois desde o pensamento que desmotiva o signo para melhor motivá-lo em sua relação com o significado, o significante não pode transgredir a lei da representação, que é a própria ilusão. * Fracassará quem tentar sustentar a questão enquanto não estiver desprendido da ilusão de que o significante responde à função de representar o significado, ou que o significante tenha que responder por sua existência ao título de qualquer significação. 14. Compreende-se assim em que sentido, para assegurar a ciência da letra, é preciso separar à força a linguística da filosofia do signo e destruir nele toda função representativa, sendo esse precisamente o papel do algoritmo, que não é o signo, mas o signo enquanto não significa, podendo-se dizer que o algoritmo é o signo sob canceladura, sem que nenhum dos conceitos da teoria do signo desapareça, mas com seu sistema subvertido e pervertido. 15. É justamente essa perversão do sistema do signo que é urdida pela operação armada em cima do algoritmo, a qual recai essencialmente sobre o significante, fazendo-o sofrer um deslocamento tal que não se possa mais tomá-lo como elemento do signo, mas como um significante sem significação, sendo essa operação a diferença entre o esquema saussuriano do signo e o esquema do algoritmo, o que prova que apenas a ilustração do algoritmo é comparável ao esquema saussuriano da árvore. 16. Lacan reproduz o esquema saussuriano da árvore invertendo-o e suprimindo a elipse e as flechas da associação, opondo-lhe em seguida o esquema do algoritmo formado pelas portas de banheiros masculino e feminino, funcionando como uma duplicata paródica do esquema saussuriano cuja diferença precisa ser esclarecida. * Sem estender muito o alcance do significante interessado na experiência, redobrando-lhe apenas a espécie nominal pela justaposição de dois termos cujo sentido complementar pareceria dever consolidar-se, a surpresa é produzida por uma precipitação inesperada do sentido, na figura das duas portas iguais que simbolizam, com o mictório à disposição do homem ocidental para que faça suas necessidades fisiológicas fora de casa, o imperativo partilhado pela maioria das comunidades primitivas que sujeita a vida pública às leis da segregação urinária. 17. Decompondo esse esquema, verifica-se que dois termos se inscrevem acima da barra no lugar do significante, introduzindo uma dualidade ou diferença que, ao contrário do sistema saussuriano, não consolida o valor complementar dos dois termos, mostrando que esse esquema não é saussuriano. 18. No lugar do significado esperado encontra-se a figura das duas portas, introduzindo-se, no lugar do significado, a simbolização de uma lei de segregação sexual indicada como praticamente universal e comparável às leis gerais da cultura. * A figura de duas portas simboliza, com o mictório, o imperativo, numa formulação ambígua que interdita decidir entre o simbólico e o real. 19. Por fim, a passagem do significante nessa simbolização, equivalente ao processo pelo qual é gerada a significação, é dada como uma precipitação do sentido, formulação que se presta a três interpretações relativas ao modo como o sentido se deposita no meio ou na solução do significante. 20. Vê-se, então, que a sideração do debate nominalista consiste em suprimir a questão da referência para substituí-la por um acesso ou entrada do significante no significado, através do jogo do único significante confirmado em sua tríplice determinação de materialidade, localização e simbolização. 21. Trata-se agora de reconstituir o primeiro tempo do processo da significação, reconhecendo que o esquema algorítmico por si só não assegura até o fim a produção do sentido, sendo o que fundamenta todo o processo a lei da segregação urinária, ou seja, o imperativo como lei da diferença dos sexos, que determina uma separação material inscrita pelo significante como lugares distintos, sendo o significante a própria diferença dos lugares e a possibilidade da localização, instituindo-os em vez de se dividir neles. 22. Essa configuração pode ser considerada símbolo por duas vezes, primeiro no sentido da lógica simbólica ou algorítmica, na medida em que se lida apenas com marcas diferenciais comparáveis à relação de lugares numa topologia, como ilustra o exemplo do míope que não decifra a significação nem o significado, mas apenas a diferença dos lugares. * Ao ter que se aproximar das plaquetas esmaltadas que suportam o significante, o olhar de um míope estaria justificado a questionar se é ali que se deve ver o significante, cujo significado receberia da dupla procissão as últimas honras. 23. Em segundo lugar, no sentido clássico da palavra, na medida em que o símbolo retém sempre algo do real ao qual se refere, o conjunto Homens/Damas não tem a lei por significado, mas simboliza, por meio do espaçamento que o constitui, a diferença que a lei articula, propondo-se a partir desse funcionamento uma esquematização aproximativa que integra árvore, portas, mictório, real, símbolo e lei. 24. Tal esquematização, contudo, não se compara à ilustração que o próprio Lacan propõe, uma vez que nenhum exemplo construído seria capaz de igualar o relevo encontrado no vivido da verdade, como demonstra a história das duas crianças no trem que, ao parar diante das mesmas portas, leem lugares opostos. * Um trem chega à estação; um menino e uma menina, sentados frente a frente, discordam ao ler nas portas do lado de fora do vagão se estão em Damas ou em Homens. * Seria preciso não ter olhos diante dos buracos para se confundir quanto ao lugar respectivo do significante e do significado, e não perceber de que centro radiante vem o primeiro refletir sua luz nas trevas das significações inacabadas. 25. É por ocuparem lugares distintos e opostos que as crianças escolhem, sem decifrar o significado, a inscrição correspondente a cada uma, sendo essa exclusão recíproca relacionada por Lacan imediatamente com a castração, lida como inscrição vinculada ao buraco do significante, de modo que um uso puramente significante corresponde à posição da diferença dos sexos a partir da presença ou ausência do pênis, relacionada à alternativa estrutural em que presença e ausência se remetem uma à outra. 26. As crianças permanecem simbolicamente separadas da significação pelos trilhos, que impedem a significação de cumprir-se, marcando-se assim que a diferença animal e natural dos sexos não é a diferença propriamente dita, sendo apenas o uso do significante capaz de inscrevê-la como tal, levando-a até a dissensão primordial que gera a guerra da tragédia ou a dualidade das pátrias platônicas. 27. Compreende-se, a partir daí, o que é o significante para Lacan e qual o deslocamento pelo qual ele o faz passar, não sendo mais a outra face do signo em relação ao significado, mas a própria ordem do espaçamento segundo a qual se inscreve a lei como diferença, ou seja, o buraco estrutural que marca essa diferença. * Eu defini o significante como ninguém o ousou fazer. 28. Dito isto, a própria operação ainda precisa ser produzida, sendo necessário assegurar o funcionamento do algoritmo permitindo ao único significante suportar todo o peso desse funcionamento, arranjando-se uma entrada no significado sem apoiar-se sobre nenhum significado, conforme a fórmula segundo a qual o algoritmo, sendo pura função do significante, só pode revelar uma estrutura de significante a essa transferência. * O algoritmo, na medida em que ele próprio só é pura função do significante, não pode revelar senão uma estrutura de significante a essa transferência. 29. Essa fórmula admite duas leituras possíveis: ou o algoritmo está escrito em função do significante como notação de sua posição e processo, acentuando sua predominância auto-suficiente, leitura que se revela impossível; ou a fórmula indica que o significante funciona como algoritmo, de acordo com sua natureza algorítmica desprovida de sentido, ligada ao funcionamento autônomo de uma cadeia de marcas diferenciais que por si mesmas não marcam nada além de suas posições recíprocas. 30. O conceito de marca retém ainda algo de positivo demais, razão pela qual Lacan o substitui por um modelo de algoritmo como buraco, cuja lógica puramente diferencial determina toda a ordem do significante, recorrendo-se aqui a Subversão do sujeito e dialética do desejo, texto no qual se destacam fórmulas que iluminam o que será chamado de lógica do significante. * O significante só se constitui a partir de um ajuntamento sincrônico e enumerável em que nenhum se sustenta senão pelo princípio de sua oposição a cada um dos outros. * Se a linguística promove o significante para nele ver o determinante do significado, a análise revela a verdade dessa relação fazendo dos buracos do sentido os determinantes de seu discurso. 31. A essa determinação do jogo dos significantes como relação dos buracos do sentido vem enxertar-se uma determinação última, a partir da qual se ordena o conjunto do jogo: o significante de uma falta no Outro, que não é por si mesmo nada, sendo antes o significante da própria falta de um símbolo a partir do qual pode articular-se toda a cadeia dos significantes, exigindo-se por isso uma terceira amostra. * A bateria dos significantes, sendo completa, faz com que esse significante não possa ser senão um traço que se traça com seu círculo sem poder nele ser contado, simbolizável pela inerência de um menos um ao conjunto dos significantes; como tal, ele é impronunciável, mas não o é sua operação. 32. Existe aí uma pura operatividade no princípio daquilo que Lacan chamará de significância, sem que o valor de operação seja explicitamente tematizado como momento de destruição do sentido, sendo dessa instância que a própria operação retira sua possibilidade, fundando-se assim a lógica do significante em sua autonomia e em seu funcionamento paradoxalmente centrado sobre um buraco, uma falta. 33. Não é ainda possível, contudo, assegurar a entrada no significado já anunciada, restando mostrar que o sentido pode produzir-se a partir da letra sozinha e até que ponto se pode passar sem o signo, objeto de uma terceira parte deste texto intitulada a árvore do significante. {{tag>Nancy Lacou-Labarthe Lacan algoritmo}}