====== "TERRA" NO GEVIERT (2015) ====== //MITCHELL, Andrew J. The fourfold: reading the late Heidegger. Evanston (Ill.): Northwestern university press, 2015// * No Geviert, a terra nomeia a suposta base material da coisa apenas se materialidade e base forem reconcebidas como fenomenalidade sensível, pois a terra não é propriamente nem matéria nem fundamento, e a constituição da coisa se determina como brilho, fulgor e radiância da aparência, cuja única “gravidade” consiste na relutância de fixar-se como algo estável. * Materialidade entendida como radiância fenomenal e não como substrato. * Terra como constituinte da coisa pela aparência sensível. * Fenomenalidade como “matéria” da experiência. * Brilho, fulgor e radiância como modo de ser das coisas no mundo. * A terra também não funciona como base no sentido de um fundamento presente que sustentaria vida ou receberia formas, porque a aparência não realiza trabalho de fundamentação e, para poder brilhar através do mundo, deve manter-se sem amarra a um chão, situando-se num “entre” fora da polaridade fundamento/sem-fundamento e sendo nomeada como abismo, já que o fenomenal é tudo o que pode portar sem converter-se em ground. * Recusa da terra em exercer função de grounding. * Aparência como exigência de não-atrelamento a um chão. * Abismo como nome do “entre” além da oposição fundamento/sem-fundamento. * Natureza redesenhada a partir do aparecer fenomenal, abrangendo rochas, águas, flora e fauna. * A concepção heideggeriana de terra é introduzida de modo decisivo em A origem da obra de arte (1936), com elaborações já em 1931, não como presença antecipada do Geviert, mas como preparação do papel que a terra assumirá em 1949 ao ser incluída na configuração do pensamento do quatro. * A origem da obra de arte como marco de reconfiguração da terra. * 1931 como data de primeira elaboração mencionada. * Geviert ainda ausente na obra de arte, mas preparado pelo tratamento da terra. * Inclusão da terra no Geviert como desenvolvimento posterior (1949). * Na trajetória entre as versões da obra de arte, a terra é pensada em relação tensa com o mundo e a retirada é compreendida como momento integrante do aparecer, sendo nomeada “terra”, o que desloca o esquema de alêtheia como simples desconcealment ao mostrar que o “des-” não basta para captar a dinâmica em que retirada (Entzug) atravessa e reconfigura o próprio desvelamento. * Relação terra/mundo como eixo de tensão. * Retirada como estrutura do aparecer e não como simples ausência. * Alêtheia (Unverborgenheit) como referência do problema do “un-”. * Beiträge como ambiente conceitual paralelo ao ensaio da obra de arte. * No exemplo do templo grego, a terra figura como acompanhante necessário da aparência mundana ao localizar e organizar o entorno, fazendo emergir tempestade, luz do dia, amplitude do céu, escuridão da noite, marés, ondas, árvores e grama, animais e insetos, de modo que a obra abre um mundo e, nesse abrir, mostra um fechamento paradoxal que se manifesta como a própria terra. * Templo grego como figura de abertura de mundo. * Organização do entorno: tempestade, luz, céu, noite, maré, ondas, vegetação e animais. * Terra como fechamento paradoxal que se mostra no abrir do mundo. * Terra como sensível que aparece sem se deixar reduzir a contenção. * A obra organiza relações significativas ao apresentar aquilo que não se deixa apreender, a terra como aparecer sensível, e com isso retirada e aparência ultrapassam a oposição encobrimento/desencobrimento ao instaurar uma interdependência antagonística nomeada como conflito (Streit), no qual mundo e terra se elevam mutuamente à autopronúncia da essência e cada um porta o outro para além de si. * Terra como retirada no coração do mundo. * Streit como forma de co-pertencimento antagonístico. * Autopronúncia de essência como efeito do conflito essencial. * Obra como encenação do aparecer retirante da terra. * A posição da terra no ensaio da obra de arte difere da posição no Geviert porque ali terra e mundo se mantêm em paridade como parceiros do conflito que abre espaço ao habitar de um povo histórico, enquanto no pensamento do quatro a terra perde privilégio e passa a participar com céu, divindades e mortais do worlding ao compartilhar o thinging da coisa que então abre um mundo. * Paridade terra/mundo na obra de arte. * Terra como participante entre quatro no Geviert. * Thinging da coisa como mediação da abertura de mundo. * Povo histórico como âmbito de destinação na obra de arte. * As diferenças se estendem ao fato de que a relação terra/mundo deixa de ser descrita como conflito e assume uma dinâmica em que a terra dança nas coisas e as coisas gesticulam o mundo, e também ao fato de que o alcance da terra se restringe e se refina, deixando de incluir quase toda a existência como no ensaio da obra de arte (onde aparece até como physis na versão de Freiburg de 1935) e sendo desambiguada do céu, agora membro distinto do Geviert. * Abandono do registro de “conflict” em favor de dança e gesto. * Versão Freiburg (1935) mencionada com terra identificada a physis. * Restrição e refinamento do escopo da terra no período do Geviert. * Separação terra/céu como diferenciação estrutural do quatro. * A elaboração inicial da terra no ensaio da obra de arte pode ser entendida como exigindo uma reconceituação da existência finita, o que se sugere na nota marginal em que “A obra deixa a terra ser terra” é remetida ao Geviert e a The Thing, indicando que fidelidade à terra implica pensar o quatro. * Rethinking da finitude como exigência correlata ao repensar da terra. * Nota marginal remetendo a The Thing e ao Geviert. * “Deixar a terra ser terra” como pivô interpretativo. * Terra como operador que demanda estrutura mais ampla do pensar. * Nas apresentações do Geviert em The Thing (1949) e em Building Dwelling Thinking (1951), a terra é descrita de modo convergente como portadora e frutificante, envolvendo águas e pedra e elevando-se em plantas e animais, com variações de formulação que mantêm a mesma terra em jogo. * The Thing (1949): earth como building bearer e nourishingly fructifies, com waters e stone, plants e animals. * Building Dwelling Thinking (1951): earth como serving bearer e bloomingly fructifies, em stone e waters, rising up em plants e animals. * Terra como Tragende e Fruchtende em ambos os textos. * Inorgânico e vivo como abrangência: pedras, águas, plantas e animais. * As diferenças aparentes entre “nutrir” e “florescer”, “tender” e “elevar-se”, ou entre “construir” e “servir”, não instauram duas terras distintas, mas indicam complementos do mesmo caráter terrestre em que portar e frutificar articulam o inorgânico (pedras e águas) e o que se denomina flora e fauna sob a locução Gewächs und Getier. * Variações verbais como modulações sem troca de essência. * Frutificação como fio condutor entre os dois textos. * Pedras e águas como dimensão inorgânica da terra. * Gewächs und Getier como nomeação não-latina para plantas e animais. * A suposta base material das coisas se redefine como um portar sem chão de uma fenomenalidade frutificante, de modo que o mais fundamental na coisa é o próprio aparecer sensível em sua plenitude, e a estrutura abissal dessa terra orienta a compreensão heideggeriana dos fenômenos naturais no tempo do Geviert. * Base material como portar groundless ou abyssal. * Aparecer sensível como fundamentalidade. * Fenomenalidade frutificante como modo de constituição. * Fenômenos naturais pensados a partir da estrutura terrestre no período do quatro. {{tag>Mitchell Geviert terra}}