====== SUBJETIVIDADE (S:166-169) ====== //MERLEAU-PONTY, Maurice. Signos. São Paulo: Martins Fontes, 1991// * A interrogação inicial busca determinar o que pode haver de comum entre filosofias da subjetividade desenvolvidas ao longo de três séculos, apesar de suas diferenças conceituais e históricas. * A enumeração das diversas figuras do Eu não visa uma simples classificação, mas a colocação de um problema filosófico unificador. * A questão fundamental é se essas subjetividades discordantes podem ser compreendidas como momentos de uma única problemática ontológica. * A primeira figura apresentada é o Eu vivido e narrado, tal como aparece em Montaigne e sob a forma crítica em Pascal. * Trata-se de um Eu registrado no cotidiano, cujas audácias, fugas e intermitências são observadas como se pertencessem a um desconhecido. * Essa subjetividade não se oferece como transparência, mas como campo de experiência instável e historicamente exposto. * Em contraste, surge o Eu pensante de Descartes e de Pascal, apreendido em um instante de evidência absoluta. * Esse Eu coincide inteiramente consigo mesmo enquanto pensa, sendo tudo o que pensa ser e nada além disso. * Caracteriza-se por uma abertura total e por uma transparência sem resto, sem outro mistério que não o da própria evidência. * A tradição empirista inglesa introduz uma série subjetiva constituída por ideias que se conhecem a si mesmas em um contato imediato e mudo. * A subjetividade é aqui concebida como autoafeção natural, sem necessidade de mediação reflexiva explícita. * O conhecimento de si ocorre por uma propriedade intrínseca das próprias ideias. * A subjetividade em Rousseau aparece como um abismo ambíguo de culpabilidade e inocência. * Esse Eu organiza sozinho o complô em que se sente aprisionado. * Ao mesmo tempo, reivindica legitimamente uma bondade incorruptível diante de seu destino. * O sujeito transcendental kantiano é apresentado como distinto da intimidade psicológica e, ao mesmo tempo, mais próximo do mundo. * Ele contempla mundo e eu empírico após tê-los constituído. * Apesar disso, reconhece-se como habitante do mundo que constrói. * Em Maine de Biran, a subjetividade é inseparável do corpo. * O sujeito não apenas sabe estar no mundo, mas efetivamente está nele. * A possibilidade mesma de ser sujeito depende da posse de um corpo capaz de movimento. * Em Kierkegaard, a subjetividade deixa de ser uma região do ser para tornar-se o modo fundamental de relação com o ser. * Ser subjetivo é existir de modo comprometido, em oposição ao pensamento objetivo que sobrevoa as coisas. * A subjetividade é condição para que algo seja efetivamente pensado. * Diante dessa multiplicidade, surge a questão do sentido de falar em uma única descoberta da subjetividade. * A noção de descoberta não pode ser entendida em sentido empírico ou retrospectivo. * A reflexão não encontra uma subjetividade pronta, mas transforma aquilo que pretende desvelar. * A ideia de um cogito pré-reflexivo levanta dificuldades conceituais decisivas. * O contato consigo antes da reflexão não pode ser plenamente tematizado sem projeção retrospectiva. * O sentimento de si anterior ao conhecimento não coincide consigo mesmo e não se possui. * A reflexão não apenas revela o irrefletido, mas o modifica. * A subjetividade não aguardava os filósofos como um continente desconhecido. * Ela foi construída de múltiplas maneiras e talvez deva ser desconstruída. * A crítica heideggeriana afirma que o ser foi perdido quando fundado sobre a consciência de si. * Essa posição sugere que a subjetividade reflexiva obscurece uma relação mais originária com o ser. * Apesar dessas dificuldades, mantém-se o uso do termo descoberta em um sentido filosófico específico. * Trata-se de algo que, uma vez introduzido, não pode mais ser ignorado pelo pensamento. * Mesmo superada, a subjetividade transforma irreversivelmente a filosofia. * O parentesco entre as filosofias da subjetividade aparece quando são confrontadas com tradições que não privilegiam o sujeito. * Os modernos compartilham a ideia de que o ser-sujeito não é um ser menor. * A subjetividade tende a ser pensada como forma absoluta do ser. * Elementos dessa problemática já estavam presentes na filosofia grega. * A máxima do homem como medida de todas as coisas antecipa a centralidade do sujeito. * A alma é reconhecida como capaz de erro e de verdade, mantendo relação essencial com o não-ser. * Contudo, para os gregos, o ser do sujeito nunca é a forma canônica do ser. * O negativo não ocupa posição central nem é responsável por transformar o positivo. * A modernidade desloca esse eixo ao colocar o ser-sujeito no centro da filosofia. * A subjetividade não é coisa nem substância, mas extremidade do particular e do universal. * Sua natureza proteica explica a diversidade das filosofias que a tematizam. * Sob as divergências, oculta-se uma mesma dialética da subjetividade. * Ela oscila entre duas figuras fundamentais. * Essas figuras não são opostas, mas aspectos de uma mesma ideia. * A primeira figura é a subjetividade vazia, universal e solta. * Corresponde à transparência absoluta e à negatividade pura. * A segunda figura é a subjetividade plena, entranhada no mundo. * Ela necessita do mundo para ser o que é, mesmo enquanto nada. * Em Sartre, essas duas figuras coincidem na ideia do nada que vem ao mundo. * A descoberta da subjetividade não é comparável à descoberta de um continente ou de um elemento químico. * Ela é uma construção que se torna inevitável pela força de seus testemunhos. * Uma vez introduzida, adquire a solidez de um fato filosófico. * A filosofia não pode simplesmente anular o pensamento do subjetivo. * Ela deve digeri-lo, transformá-lo ou superá-lo por pensamentos mais adequados. * Mesmo a nostalgia de uma ontologia pré-subjetiva depende da consciência de si. * A subjetividade é, portanto, um pensamento aquém do qual não se retorna. * Mesmo quando superada, permanece como condição histórica e conceitual do pensamento filosófico. {{tag>Merleau-Ponty subjetividade}}