====== SEDIMENTAÇÃO (1945/2006:182-183) ====== //PS: MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999. / Phénoménologie de la perception. Paris: Gallimard, 1945// * O sujeito kantiano é capaz de pôr um mundo, mas a afirmação efetiva de uma verdade exige previamente a posse de um mundo ou o ser-no-mundo. * Ter um mundo significa manter em torno de si um sistema de significações já operantes, cujas correspondências, relações e participações não precisam ser explicitadas para poderem ser utilizadas. * A possibilidade de julgar e afirmar algo verdadeiro repousa sobre essa inserção prévia em um campo significativo já estruturado. * A experiência cotidiana mostra o funcionamento imediato desse sistema de significações. * O deslocamento no espaço familiar realiza-se sem mediação discursiva, apoiando-se em coordenadas virtuais implicitamente compreendidas. * Cada gesto e cada percepção situam-se imediatamente em relação a múltiplas referências espaciais e funcionais que não precisam ser tematizadas. * Esse pequeno mundo doméstico constitui um campo de orientação pré-reflexivo no qual a ação se desenrola com evidência imediata. * A mesma estrutura opera no domínio intersubjetivo das relações pessoais. * Na conversação com alguém conhecido, as expressões trocadas excedem seu significado público e incorporam referências sedimentadas à história e ao caráter dos interlocutores. * Essas referências não precisam ser explicitadas, pois já estão integradas ao mundo compartilhado que sustenta a interação. * O sentido vivido da comunicação repousa sobre esse fundo de familiaridade prévia. * Os mundos adquiridos conferem à experiência um sentido segundo, mas estão enraizados em um mundo primordial. * Esses mundos derivados não são autônomos, pois recebem seu sentido primeiro de um mundo mais originário que os funda. * O mundo primordial funciona como o horizonte último no qual todos os mundos particulares são recortados. * Existe também um mundo dos pensamentos, entendido como sedimentação das operações mentais. * Essa sedimentação permite contar com conceitos e juízos adquiridos como totalidades disponíveis, sem necessidade de refazer continuamente sua síntese. * Forma-se assim um panorama mental com regiões mais claras e outras mais confusas, dotado de uma fisionomia própria das situações intelectuais. * Atos como investigar, descobrir ou alcançar certeza inscrevem-se nesse espaço estruturado do pensamento. * A noção de sedimentação não deve ser interpretada como acúmulo inerte. * O saber adquirido não constitui uma massa passiva no fundo da consciência. * O espaço familiar só se mantém como tal se as distâncias e direções permanecem efetivamente disponíveis para o corpo. * Uma rede de intenções parte continuamente do corpo em direção ao mundo, sustentando sua familiaridade. * O mesmo vale para os pensamentos adquiridos. * Eles não são uma posse definitiva, mas dependem constantemente do pensamento presente que os reativa. * O sentido oferecido pelo adquirido é simultaneamente recebido e restituído pela atividade atual da consciência. * O adquirido disponível exprime, a cada momento, a energia efetiva da consciência presente. * As variações dessa energia explicam as transformações do mundo mental. * Na fadiga, a energia enfraquece e o mundo dos pensamentos empobrece, podendo reduzir-se a ideias obsedantes. * Na atividade intensa, o engajamento amplia o panorama mental, fazendo proliferar questões e reorganizando suas articulações. * Cada nova expressão ou estímulo pode então reconfigurar o campo intelectual com nitidez renovada. * O adquirido só é verdadeiramente adquirido quando retomado por um novo movimento de pensamento. * Um pensamento só está situado quando assume ativamente a situação em que se encontra. * A situação não é um dado exterior, mas algo que o próprio pensamento deve integrar e sustentar. * A essência da consciência consiste em dar-se um mundo ou mundos. * Isso significa fazer existir diante de si os próprios pensamentos como coisas dotadas de presença. * A consciência manifesta seu vigor tanto ao desenhar essas paisagens quanto ao abandoná-las. * O poder de instituir e dissolver mundos exprime simultaneamente sua espontaneidade e sua dependência de sedimentações. * A estrutura do mundo, articulada entre sedimentação e espontaneidade, ocupa uma posição central na consciência. * Essa estrutura permite compreender conjuntamente os distúrbios intelectuais, perceptivos e motores. * Esses distúrbios não precisam ser reduzidos uns aos outros, pois podem ser compreendidos como diferentes modos de nivelamento ou alteração da estrutura do mundo. {{tag>Merleau-Ponty}}