====== DA QUESTÃO AN SIT A QUI SIT (VI:107-112) ====== //MERLEAU-PONTY, Maurice. O Visível e o Invisível. Tr. José Artur Gianotti e Armando Mora d’Oliveira. São Paulo: Perspectiva, 2003// * Da questão do an sit à questão do quid sit * A renúncia à dúvida cartesiana implica o abandono da questão da existência factual em favor da questão do sentido. * A pergunta fundamental deixa de ser se o mundo é e passa a ser o que é o mundo, o Ser e a verdade. * Essa passagem só é possível a partir da cumplicidade originária que mantemos com o mundo e o Ser. * Renuncia-se simultaneamente à dúvida e à tese de uma exterioridade absoluta entre pensamento e Ser. * O Ser como duplicação imanente do pensamento * O Ser não é um indivíduo maciço exterior ao pensamento. * Ele duplica o pensamento em toda a sua extensão, pois todo pensamento é pensamento de algo. * O pensamento, não sendo nada em si, é sentido e sentido do sentido. * O Ser é compreendido como condição de possibilidade tanto do mundo quanto da linguagem. * A noção de essência como sentido intrínseco * A essência não é um invisível absoluto, mas o invisível do visível, aquilo que o sustenta. * Ela é o sistema de necessidades internas que tornam possível algo ser o que é. * As essências são núcleos de sentido indecomponíveis e redes de propriedades inseparáveis. * Elas pretendem um estatuto de autenticidade ontológica por serem afirmativas por si. * A ciência e a produção histórica das essências * A ciência já opera uma separação parcial entre fatos e essências ao redefinir categorias. * Contudo, ela mantém as essências sob a jurisdição dos fatos empíricos. * As essências científicas permanecem provisórias e historicamente revisáveis. * Exemplos: a essência clássica da matéria na física ou a essência marxista da história. * Filosofia como leitura total do sentido * A filosofia busca o esgotamento do sentido do mundo, da natureza, da história e do Ser. * Diferentemente da ciência, ela visa o contato total com o Ser vivido. * O filósofo não observa de fora, mas pensa a partir de sua inserção no mundo. * A filosofia tenta formar a significação “Ser” enquanto tal. * A insuficiência ontológica da essência * A essência pressupõe uma hipótese: que haja mundo, que haja algo. * Essa hipótese não é fornecida pela essência, mas pela experiência. * O ser da essência não é primeiro nem auto-fundante. * A essência pertence à experiência, mas não a envolve nem a esgota. * Essência como Sosein e não como Sein * As essências são modos ou estilos de ser, não o Ser enquanto tal. * Elas exprimem o “como” (Sosein), não o “ser” (Sein). * Não se pode tratar o mundo e o Ser como consequências das essências. * Sua validade universal decorre da comunicação possível entre experiências num mesmo mundo. * Primazia ontológica da experiência * O poder ontológico último pertence à experiência. * As essências têm força apenas porque os pensamentos estão enraizados num único Ser. * O espectador puro emerge de uma experiência atual e situada. * O Ser atual é o solo do Ser predicativo e das idealizações. * A ideação como variação e não como intuição absoluta * A essência emerge do exercício de variação da experiência. * Ela é um invariante detectado pela possibilidade de supressão ou alteração. * A solidez da essência mede-se pelo poder de variação da experiência. * Não é um ser positivo, mas uma estrutura de resistência. * Impossibilidade da essência pura * Uma essência absolutamente pura exigiria uma variação total. * Isso implicaria um espectador sem corpo, sem tempo, sem latência. * Tal redução exigiria o recuo ao nada. * Essa operação destruiria a própria experiência que se pretende compreender. * Dependência temporal e corporal da ideação * Toda ideação se sustenta na duração do sujeito e na duração dos outros. * A transparência da ideia é nutrida por uma seiva temporal ignorada. * Atrás da ideia está a coesão de todas as durações reais e possíveis. * O Ser é essa coesão pré-predicativa. * O real como originário em relação ao possível * O possível não domina o real; é o real que funda o possível. * Mundos possíveis são variantes do mundo atual. * Não se pode fazer do real uma simples variante do possível. * O ser atual tem primazia ontológica. * Limites da distinção fato / essência * A oposição entre fato e essência conduz a uma ideia-limite inacessível. * Trata-se de um preconceito herdado da contemplação externa do Ser. * Essa oposição força a essência para fora da experiência. * O resultado é o relativismo ou a inacessibilidade ontológica. * Redefinição imanente da essência * A essência deve ser pensada no interior da experiência. * Ela não está além, mas no enovelamento da experiência sobre si mesma. * Não há visão positiva definitiva da essencialidade da essência. * Há apenas uma zona de resistência ao inessencial. * Crítica da posição kosmotheoros * A cisão fato / essência supõe um olhar soberano exterior ao mundo. * Esse olhar contempla indivíduos localizados e essências sem lugar. * Surge então o problema insolúvel da intuição das essências. * Essa posição ignora a inserção temporal e corporal do pensamento. * Reversão da posição do espectador * O pensador não está fora do tempo e do espaço. * Mesmo o pensamento mais abstrato emerge num lugar e num momento. * O tempo e a terra continuam sob o pensamento. * Em vez de estar em parte alguma, o pensamento está em toda parte por estar aqui e agora. {{tag>Merleau-Ponty essência experiência ser}}