====== 4a Schelling ====== //MERLEAU-PONTY, Maurice. [[https://classiques.uqam.ca/classiques/merleau_ponty_maurice/La_Nature/La_Nature.html|La nature: notes]], cours du Collège de France (1956-1960). Texte établi et annoté par Dominique Séglard. Paris: Éditions du Seuil, 1995. (Traces du Pensable).// **A. AS IDEIAS DE SCHELLING** **1. A noção de princípio do Mundo** 1. A ideia cartesiana de Natureza não foi inteiramente exorcizada por Kant: com ele, a Natureza deixa de ser construída por Deus e passa a sê-lo pela Razão humana, mas seu conteúdo permanece idêntico. 2. Kant foi, contudo, o primeiro a insurgir-se contra a ideia de naturante, em A impossibilidade de uma prova cosmológica da existência de Deus. 3. "A necessidade incondicionada de que precisamos tão indispensavelmente como suporte último de todas as coisas é o verdadeiro abismo da razão humana... Não se pode nem afastar de si nem suportar o pensamento de que um ser, que representamos como o mais elevado entre todos os seres possíveis, diga de certo modo a si mesmo: Eu sou de eternidade em eternidade, fora de mim nada existe, exceto o que é algo apenas por minha vontade, mas de onde sou eu, então? Aqui tudo desmorona sob nós, e a maior perfeição, como a menor, flutua sem apoio simplesmente diante da razão especulativa..." 4. A Razão especulativa não pode evitar questionar o ser mais completo que se possa conceber e deve admitir nele uma necessidade de justificação. Não há incondicionado da ordem do Ser: há algo antes do infinito positivo, e, se Deus deve ser concebido, deve aparecer com o caráter do não-ser ou do abismo, segundo a tese de Mestre Eckhart. 5. Em Kant, apesar do aspecto místico da Dialética, em que o próprio Deus se faz a pergunta, não há teologia negativa: ele permanece no plano humano e apenas põe um não-saber, uma lacuna na constituição do saber. Pode ser que no em-si Deus responda à pergunta, e a liberdade é símbolo dessa possibilidade, de modo que, pela via da moral, Kant deixa subsistir a velha ontologia. 6. Schelling, referindo-se explicitamente a Kant, vai muito mais longe: o que para Kant era abismo (Abgrund) torna-se para ele a definição de Deus. "Em Kant, o não-saber mais profundo está no limite; em Schelling, há o reconhecimento de um ser não sabido." Deus é abismo em si, aquilo que existe sem razão (grundlos Existierende), um surgimento puro e imotivado cujo motivo não se pode buscar em nenhuma essência, nem mesmo infinitamente infinita como em Spinoza. 7. Em Spinoza, há um ser por si que se engendra e engendra com ele toda a Natureza, sem que se possa conceber outro Ser nem outro Mundo; o finito está eminentemente presente no infinito, e a finitude é apenas um recorte da potência do ser infinito. 8. Para Schelling, o infinito é infinito de existência, e não de essência, e a relação entre finito e infinito é de contradição: o finito não é imanente ao infinito, tem uma dignidade positiva e resulta de uma cisão interna fecunda. A relação naturante-naturado deixa de ser de sentido único, e o infinito, sendo abismo, precisa do mundo. A Natureza, nem Deus nem Mundo, é produto e produtividade, uma produtividade que nunca termina sua produção, e essa "primeira Natureza" (erste Natur) exprime o excesso do Ser sobre a consciência do Ser, contra as filosofias reflexivas. * Löwith comparou o duplo movimento de expansão e contração da Natureza à respiração, que só vai ao fim de seu movimento na morte. * A erste Natur é "um abismo de passado" sempre presente, "o tecido fundamental de toda vida e de todo existente, algo de assustador, um princípio bárbaro que se pode ultrapassar, mas nunca pôr de lado"; é o "Sobre-ser" (Übersein), condição prévia em Deus, que inclui a "cólera de Deus", o "fogo destruidor". * O século XVIII perdeu de vista esse princípio, e Schelling vê em seu tempo "um mundo que já não é senão imagem, e mesmo imagem de uma imagem, nada de nada", em que o esforço do Esclarecimento dissolve, com a obscuridade, "esse princípio bárbaro, fonte de toda grandeza e de toda beleza". **2. O naturado** 1. Também aqui Schelling parte de Kant: "O que Kant, no extremo de seu sóbrio discurso, concebeu como um sonho, eu quis vivê-lo e experimentá-lo." 2. Trata-se do §76 da Crítica do juízo, em que Kant, guiado pelo fenômeno do vivente, reconhece que ele não pode ser pensado pela causalidade linear: o condicionante deve ser posto como condicionado, e há prioridade do Todo sobre as partes. Essa produção natural é para Kant apenas uma "divagação", e não um conhecimento, pois só se pode imaginá-la segundo o mito humano da máquina. 3. Schelling quer pensar essa produção cega cujo resultado parece construído com conceitos: a Natureza é um mecanismo cego que parece penetrado de teleologia, mas "pensar a Natureza como teleologia é simplificar o problema". Bergson, que leu Ravaisson, impregnado de Schelling, retoma a mesma ideia ao recusar tanto o mecanicismo quanto o finalismo. 4. Pensar esse sentido que impregna o vivente sem ser pensado como sentido não é explicá-lo, o que seria perdê-lo e reduzir a existência à essência e a produtividade interior a uma produção exterior: é preciso "vivê-lo e experimentá-lo". 5. Sem recorrer a uma faculdade mística, Schelling afirma que a Natureza se redescobre na experiência perceptiva anterior à reflexão, embora a percepção, pervertida pela reflexão, dê das coisas apenas um invólucro, como o casulo deixado pela borboleta. É preciso reencontrar a própria natureza no estado de indivisão da percepção: o Eu e o vivente têm uma raiz comum no Ser pré-objetivo, e a subjetividade inerente à Natureza não é projeção. * "Enquanto sou idêntico à Natureza, compreendo-a tão bem quanto minha própria vida", e "é-nos tão impossível conceber empiricamente uma vida fora de nós quanto uma consciência fora de nós". 6. "O idealismo em sentido subjetivo pretende que o Eu é todas as coisas, e o idealismo em sentido objetivo pretende que tudo é Eu e que nada existe senão o que é Eu." Schelling censura Fichte por buscar na consciência o modelo único de toda subjetividade, enquanto para ele tudo é Eu, e o mundo percebido é o meio em que há participação da própria vida em todas as coisas, e não projeção. 7. Leibniz já sugerira que a percepção ensina uma ontologia que só ela pode revelar, com as noções de perspectiva, geometral e expressão: as vistas do mundo exprimem o mundo e umas às outras, e o naturado é expressão desigualmente perfeita do geometral. A diferença entre o possível e o atual reside nas incompossibilidades, segredo de Deus, de modo que o mundo atual é síntese qualitativa no heterogêneo, e não quantitativa no homogêneo, como em Spinoza, e sua finalidade é onipotente, mas embaraçada pelo Mal. * "Uma projeção em perspectiva exprime seu geometral." 8. Schelling quer assistir à gênese dos viventes coexistindo com a Natureza que percebe nele, sem finalismo nem vitalismo: "não há Natureza inorgânica em si". Orgânico e inorgânico são duas potências (Potenzen) da mesma Natureza, e o desenvolvimento se faz por elevação, e não por ruptura. A qualidade não é coisa, mas "coisa vista", e o esforço para reencontrá-la revela relações de simpatia e articulação interna entre as coisas percebidas, e não telepatia nem "hiperfísica". * Entre o enxofre e o cão há diferenças de organização, mas sobretudo um mesmo produtor elevado a duas potências. * Como diz Jaspers, Schelling cai às vezes na Gnose, que ele mesmo condena por transformar o subjetivo em objetivo e fabricar uma falsa ciência; visa o "não sabido" (Ungewusst), uma fenomenologia do Ser pré-reflexivo. **3. O objeto da filosofia de Schelling: o subjetivo-objetivo** 1. Schelling não quer reencontrar na Natureza a subjetividade que põe, nem colocar nas coisas almas ou "análogos de alma", como diria Leibniz, pois essa maneira teleológica de pensar faria da Natureza um produto da arte, destruindo sua ideia. 2. Sua filosofia define-se como um "idealismo real" deduzido de um realismo, e, para mostrar como isso difere de pôr sujeitos nas coisas, Schelling recorre frequentemente à imagem da luz. 3. Em Fichte, a luz é apenas meio de comunicação entre seres racionais, e "de modo algum o símbolo do saber primordial (Urwissen) e eterno que está incorporado (eingebildet) à natureza". O Ur indica o arcaico, e eingebildet evoca a imaginação produtora (Einbildung) kantiana, que imprime no sensível um "monograma" de sentido. O ar e a luz são como imagens de Deus, arranjos de materiais que preparam um sentido que só o homem completa, e a intuição intelectual, que cria seu objeto, pressupõe que o Eu já se reconheça numa identidade primordial, libertação do sentido cativo na coisa natural. * "A natureza, em sua finalidade cega e mecânica, representa uma unidade primitiva da atividade consciente e da inconsciente, mas não de modo que eu possa dizer que sua razão última reside no próprio eu." * A intuição intelectual é "uma intuição livremente criadora, em que o criado e o que cria são um só", em oposição à intuição sensível, que não cria seu objeto. 4. A luz é matéria, mas também algo sutil que penetra tudo e prepara o campo do olhar para ser lido, uma espécie de conceito que passeia pelas aparências. A luz não sabe o mundo, mas vê-se o mundo graças a ela, e há três gêneros de ser, ilustrados pela mesa, pela luz e pelo Eu. Recusar o terceiro, como Kant, para quem não há meio-termo entre o ser cego da coisa e o sujeito, é suprimir toda relação carnal com a Natureza. 5. Do ponto de vista da reflexão, Kant tem razão, e Schelling o sabe, mas fala da luz como quase-conceito porque, quando a consciência pergunta, a Natureza já lhe dá uma resposta. Isso lembra a matéria como "espírito momentâneo" em Leibniz, símbolo de um sentido aderente à coisa: o que habita a Natureza não é o espírito, mas um começo de sentido ainda não liberado, e o sujeito o libera sem constituí-lo. 6. Para Schelling, o sentido só existe pelo sujeito humano, e o real é integrado ao mundo ideal em intuições que ocorrem em nós, mas a Natureza não sabe por ciência, e sim por seu próprio ser. 7. Há, portanto, dois erros a evitar. * A Natureza só existe por nós: Fichte. * A Natureza só existe fora de nós: dogmatismo. 8. Para Schelling, a Natureza é tomada da percepção, e o ser humano é pai de uma Natureza de que é filho: é no homem que as coisas se tornam conscientes por si mesmas, e o homem é o devir consciente das coisas, termo dialético de uma série de desequilíbrios. O homem é a consciência partilhada (Mitwissenschaft) da Criação, recapitulação e contemporâneo dela, microcosmo pleno, como em Bruno, e não liberdade vazia e antiphysis, como em Kant. **4. O método da filosofia: a intuição da intuição** 1. Fichte tem razão num sentido, mas é parcial por não falar da Natureza, e sua filosofia da reflexão deve ser recolocada num quadro mais amplo. Seu sujeito-objeto é, como diz Hegel na Diferença entre os sistemas de Fichte e de Schelling, um "sujeito-objeto" inteiramente "subjetivo": o Eu se objetiva sem sair de sua solidão. A reflexão reconhece apenas uma relação recíproca aparente entre sujeito e objeto, e entrega "apenas uma casca sem vida da objetividade". * "A força que assume essa pobre ligação está fora da Natureza... a articulação é posta em proveito de um outro." 2. Se a reflexão não apreende a "identidade primordial" do sujeito-objeto, resta o que Hegel chama "intuição da intuição", saber de si em que a percepção se apreende sem deixar seu ponto de vista concreto. Seria preciso uma consciência filosófica que apreenda a intuição por dentro e que "curve os pontos múltiplos num círculo de que ocuparia o centro interior". 3. Não há então diferença entre ver e fazer: a intuição é poder de contemplar e de fazer seu objeto, um olhar que acompanha a luz em seu desenvolvimento e é preparado por ela para seguir a produção da coisa. 4. Tal filosofia pode ser acusada de nada ver, pois tudo o que vê pertence à reflexão, e a intuição como coincidência seria ilusão; mas para Schelling, e para Hegel no início, o Absoluto era Noite. A intuição é "sono", "êxtase" (ek-stase), mal distinta da inconsciência, mas isso é o juízo da reflexão sobre ela: a intuição não é vazia, mas cega, e esse contato cego é explicitado pela reflexão, "mal necessário". A filosofia de Schelling é "reflexão sobre o que não é reflexão". * A alma, sem relação com um espaço exterior, "vê nesse estado todas as coisas em si mesmas", mas, como elas não chegam ao conceito nem ao juízo, parece adormecida; "se eu quisesse prosseguir a intuição intelectual, deixaria de viver", saindo do tempo para a eternidade. **5. A arte e a filosofia** 1. A filosofia da Natureza precisa de uma linguagem próxima da poesia, capaz de retomar a Natureza no que tem de menos humano. A arte é a realização objetiva de um contato com o mundo que não pode ser objetivado, o "documento" e o "órgão" da filosofia, sem se confundir com ela: a Natureza parte do incognoscível e termina conscientemente, e a arte parte do consciente e termina em algo sempre retomável. A arte atinge o Absoluto quando o consciente alcança o inconsciente, na reconciliação entre passividade e atividade, como experiência da identidade do sujeito e do objeto. * A ideia está em germe na Crítica do juízo, em que "o entendimento está a serviço da imaginação"; Rimbaud diz: "Assisto à eclosão do meu pensamento... lanço um golpe de arco: a sinfonia faz seu movimento nas profundezas." * Tudo se passa como se pensar fosse natural, como se estivesse dito de antemão que as fechaduras deviam abrir-se. 2. Embora "somente a arte seja capaz de objetivar de maneira completa e evidente para todos o que o filósofo só pode exprimir subjetivamente", o filósofo busca exprimir o mundo, e o artista, criá-lo. O filósofo procura eliminar sua potência de pôr para atingir a produção natural e a coexistência pré-humana das coisas; a filosofia não se sublima na arte, e a relação entre ambas está em que a experiência do artista é aberta, é um êxtase. 3. A filosofia não precisa esperar tudo de si mesma nem recusar as experiências religiosas ou artísticas, e pode deixar fora de si certos êxtases sem perder sua autonomia. Como os satélites vistos primeiro ao telescópio e depois a olho nu, o acesso da filosofia ao Absoluto não é exclusivo. **6. O círculo schellinguiano** 1. A filosofia de Schelling busca restituir uma indivisão entre nós e a Natureza como organismo, admitindo que ela é inevitavelmente rompida pela reflexão. Trata-se de reencontrar, num nível superior e consciente, o que foi vivido organicamente, passando da filosofia negativa, dilaceramento entre a reflexão e o não sabido, à filosofia positiva. 2. Essa filosofia em tensão perpétua parece girar num círculo entre intuição e reflexão, mas o círculo não é vicioso: a circularidade do saber coloca-nos no meio do Absoluto, e não diante dele. O Absoluto é o movimento dialético do finito e do infinito, só aparece a um outro e deve sair de si para fazer-se Mundo. A Naturphilosophie considera a existência de Deus como fato empírico, base de toda experiência, e não é teoria, mas vida no interior da Natureza, pensada por Schelling com mais rigor que Hegel graças à sua concepção do empírico. * Hegel diz: "Para a especulação, as finitudes são raios do foco infinito que as difunde e ao mesmo tempo é formado por elas." 3. O surgimento do homem é uma recriação do mundo, o advento de uma abertura em que a Natureza se ultrapassa em algo novo; mas o inverso também é verdadeiro, e o homem deve tornar-se Natureza: "os filósofos, em suas visões, tornaram-se Natureza". 4. A relação Homem-Absoluto também tem duplo sentido: a liberdade eterna é também liberdade de não ser sujeito, e Deus é livre de não ser Espírito e de ser Natureza. No homem, a liberdade está além da escolha e o recoloca em sua origem para continuá-la, pois é a liberdade eterna que se conhece nele. Essa reciprocidade é possível numa filosofia do tempo, e não do Ser: "nada existe apenas, tudo devém". 5. Esse inapreensível, o englobante de Jaspers, é o horizonte de toda reflexão, e não domínio de conhecimento sensível, ao qual se deve confrontar o finito. O homem deve ser compreendido com toda a massa que arrasta atrás de si, e a filosofia da Natureza caracteriza uma atitude em relação ao ser dado. 6. Segundo Jaspers, há em Fichte um "ódio à Natureza", de modo que outrem é ou liberdade ou coisa, nunca ambos. Em Schelling, ao contrário, há um peso de ser por trás da liberdade, uma contingência que a penetra e não é mero obstáculo: "o Espírito é Natureza superior". **7. Valor da contribuição (Schelling e Hegel)** 1. A má reputação de Schelling vem de Hegel, para quem o elemento de Natureza no Absoluto é obscurantismo, "a noite em que todas as vacas são pardas". Schelling, segundo Hegel, põe uma identidade imediata e formal entre sujeito e objeto, em vez de mediar os opostos, e a aplica a diferentes materiais, oferecendo uma pseudocompreensão por analogias exteriores, como sujeito-objeto ou expansão-contração. 2. Schelling devolve a crítica: o suposto movimento interno do objeto em Hegel é o movimento do pensador, e não da existência, pois o conceito não tem "inquietude", própria apenas de um existente. Hegel trata a Natureza como resíduo e fala de sua "impotência para obedecer ao Conceito", enquanto em Schelling ela é teimosa. A pretensão de que o conceito produz é teosofia, e não filosofia, e Schelling opõe a ela um "empirismo filosófico". * Sobre a Lógica, em que "a Ideia se decide a libertar-se de si mesma" rumo ao ser-outro da Natureza, Schelling pergunta como uma ideia pode decidir-se, e aproxima a fórmula da frase emanatista de Böhme: "Deus se quebra na Natureza". 3. Hegel tem razão ao atacar as construções especulativas de Schelling e seu irracionalismo, a tendência a traduzir o Englobante em relações transfísicas, uma segunda física, mas isso constitui menos sua filosofia do que os perigos a que ela se expõe. 4. Schelling tem razão ao mostrar que a racionalidade do conceito não é mais objetiva, e que sob a veste da Razão se esconde o arbitrário: para Hegel, "a Natureza está no primeiro dia", sem eficácia própria, enquanto Schelling permite pensar uma vida da Natureza. 5. As duas filosofias encontram-se no terreno da poesia, em oposição à Lógica e à Gnose, pois há um elemento de poesia, em sentido etimológico, na filosofia. Schelling busca uma consciência não prosaica, que reconhece não possuir totalmente seu objeto e só o compreende por uma verdadeira criação, uma Razão que não seja prosa e uma poesia que não seja irracional. * Caroline Schlegel escreve a Schelling: "Tu tens a poesia, e ele [Fichte] não a tem. Ela te conduziu diretamente ao nível da produção, e a ele, a acuidade de sua percepção conduziu à consciência. Ele tem a luz, em sua claridade mais clara, mas tu tens também o calor; aquela só pode iluminar, e este produz." 6. Lukács elogia Schelling por ter introduzido a Natureza na filosofia transcendental e concebido corretamente o "reflexo", mas o censura por um idealismo extremo que beira o misticismo. Para Schelling, porém, a Natureza é um peso nunca aniquilado, e essa é a única forma possível de realismo; conceber o conhecimento como reflexo sem nada de humano leva, ao contrário, ao idealismo, hipostasiando a construção humana da ciência. 7. Há no marxismo um equívoco sobre a Natureza: os Manuscritos de 1844 concebem a revolução como retorno à Natureza, mas Marx fala também de dominação da Natureza pelo homem, sem que sua resistência apareça como fato essencial. Não há "mundo natural que exista como Natureza", e a natureza humana a que se deve retornar é o contrário do que se entende por Natureza. 8. O equívoco vem de Marx querer fundar o devir sobre a Natureza, e não sobre a Ideia hegeliana, mas concebê-la segundo o modelo dessa Ideia, como Destino inexorável, e não como peso e inércia. Daí uma Gnose marxista, racionalização fundamentalmente irracionalista em que a criação revolucionária é patrocinada por uma história preestabelecida; com Schelling, é preciso encontrar na Natureza uma inércia, um horizonte sobre o qual o homem se destaca. 9. Reconhecer uma arte na dialética poderia ser a verdadeira forma do racionalismo: "mesmo a dialética tem um lado pelo qual não pode ser aprendida e repousa, tanto quanto a poesia na filosofia, sobre a faculdade criadora". Lukács vê nessa frase uma concepção aristocrática, mas ela reconhece que na história humana, como na Natureza, há uma produção, com todos os riscos que comporta. {{tag>Merleau-Ponty natureza Schelling}}