====== Não há causalidade... ====== //MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da Percepção. Tr. Carlos Alberto Ribeiro de Moura. São Paulo: Martins Fontes, 1999// * Impossibilidade fundamental de uma relação causal entre sujeito e mundo * A relação causal entre sujeito e corpo, mundo ou sociedade é inconcebível, pois implicaria tratar o sujeito como coisa entre coisas. * A admissão de causalidade exterior destruiria o fundamento de todas as certezas, que repousa na presença do sujeito a si mesmo. * A determinação exterior exigiria um sujeito objetivável, o que contradiz sua estrutura enquanto consciência. * Descrição fenomenológica do sujeito como fluxo anônimo e projeto global * A reflexão dirigida ao sujeito não encontra estados de consciência nem qualificações determinadas. * O sujeito se revela como fluxo anônimo e projeto global anterior a toda determinação psicológica ou social. * Qualificações como ciumento, curioso, corcunda ou funcionário pertencem apenas a um saber objetivo secundário, não à experiência originária de si. * Consciência como impossibilidade de auto-objetivação * O enfermo ou o moribundo não se vive como doente ou moribundo, mas como consciência em exercício. * A consciência nunca se dá a si mesma como consciência-de-doente ou consciência-de-enfermo. * A objetivação de si ocorre apenas pela mediação do olhar de outrem ou pela comparação social. * Essas autodescrições objetivas são sempre parciais e marcadas por uma forma de má-fé inevitável. * As qualificações como formalidades existenciais e não como determinações reais * As determinações factuais são aceitas como condição de estar-no-mundo, sem afetar o núcleo da consciência. * São assumidas sem drama, como formalidades inevitáveis da existência encarnada. * A possibilidade de criticar o próprio rosto sem desejar trocá-lo ilustra a distância entre consciência e qualificações. * Universalidade da consciência e poder ilimitado de evasão * Nenhuma particularidade pode ser essencialmente ligada à consciência. * Nenhum limite pode ser imposto ao poder de evasão próprio da consciência. * A consciência permanece sempre além de suas determinações empíricas. * Argumento da liberdade absoluta e indivisível * Não é concebível uma liberdade parcial ou intermitente. * Ser livre uma única vez implica ser livre sempre. * A hipótese de uma liberdade suspensa ou ociosa é incoerente. * Se uma ação deixa de ser própria ao sujeito, nenhuma ação futura poderá sê-lo novamente. * Rejeição radical da noção de motivação * Motivos não possuem força causal própria sobre a decisão. * A decisão é que confere peso e sentido aos motivos. * A noção de motivo pressupõe uma decisão prévia que ele confirma ou contraria. * Toda determinação natural ou histórica só existe enquanto reconhecida e assumida. * Identidade social, alteridade e liberdade * Determinações como belo, judeu ou corcunda não são plenamente assumidas para si, mas existem primariamente para os outros. * O sujeito permanece livre para reconhecer o outro como consciência ou reduzi-lo a objeto. * Mesmo quando a alternativa é constrangedora, a escolha permanece estruturalmente livre. * Constrangimentos existenciais e ilusão de limitação da liberdade * Certas alternativas são dadas pela condição humana, como sadismo ou masoquismo. * Essas alternativas não suprimem a liberdade, pois a escolha permanece escolha. * A liberdade não se mede pelo número de possibilidades, mas pela estrutura da decisão. * Temperamento como construção retrospectiva * O temperamento só existe enquanto saber objetivo mediado pelo olhar de outrem. * Só adquire realidade quando reconhecido e assumido. * Não pode funcionar como explicação causal das decisões. * Crítica da deliberação voluntária * A deliberação não precede a decisão, mas dela decorre. * Os motivos aparecem e desaparecem conforme a decisão já tomada. * A deliberação é frequentemente uma encenação posterior da decisão. * A sensação de libertação após renúncia revela que a decisão já estava tomada. * Impotência da vontade como falso argumento contra a liberdade * O ato voluntário é frequentemente um ato fracassado. * Só se recorre à vontade quando a decisão verdadeira não foi assumida. * Assumir verdadeiramente um projeto equivale a realizá-lo. * Obstáculos como desdobramentos da liberdade * Um obstáculo só existe em função de um projeto. * O rochedo só é intransponível para um sujeito que projeta transpô-lo. * A liberdade recorta sentido e valor no em-si indiferenciado. * Não há ação das coisas sobre o sujeito, apenas produção de sentido. * Conclusão: alternativa final * Ou se aceita uma causalidade cientificista incompatível com a consciência, * Ou se afirma uma liberdade absoluta sem exterior. * Não existe ponto intermediário onde algumas coisas estariam sob o poder do sujeito e outras não. {{tag>Merleau-Ponty causalidade sujeito corpo mundo sociedade liberdade}}