===== PRIMEIRA CONCEPÇÃO DO DESEJO DE VER (1999:4) ===== //MCNEILL, William. The Glance of the Eye. Heidegger, Aristotle, and the Ends of Theory. New York: SUNY, 1999// > (...) A primeira e mais óbvia destas [três concepções do desejo de ver] seria o desejo quotidiano de ver, tal como se manifesta na nossa curiosidade quotidiana. O desejo por detrás deste "ver", enquanto modo de compreensão do Dasein, não se limita a ver com os olhos (SZ, 170). Abrange também, por exemplo, o desejo de ouvir e de ter ouvido. Mas também não se restringe a uma pura apreensão sensorial, se por apreensão sensorial entendermos a apreensão direta de um dado objeto que afecta os nossos sentidos. Isto não quer dizer, porém, que esta forma quotidiana do desejo de ver se dirija para um "além" suprassensível. Porque, de fato, continua a ser uma orientação geral para o domínio sensível, mas nesta orientação é dirigida para além dos objetos dados como presentes, dirigida para algo ainda não visível, algo ainda não presente. O desejo por detrás da visão da curiosidade é, muito simplesmente — como o alemão Neugier implica — um desejo pelo novo. ---- ====== O desejo cotidiano de ver e a curiosidade ====== * A primeira concepção do desejo de ver identifica-se com a forma mais imediata e evidente desse desejo na experiência cotidiana. * Trata-se do desejo que se manifesta na curiosidade ordinária. * Essa curiosidade pertence ao modo cotidiano de compreensão do Dasein. * O desejo implicado nesse ver cotidiano não se restringe ao ver com os olhos. * Ele inclui igualmente o desejo de ouvir e de ter ouvido. * O ver é compreendido de maneira ampliada como acesso sensível em geral. * Esse desejo não se limita à apreensão sensorial pura. * A apreensão sensorial pura seria o simples ser-afetado por um objeto dado. * A curiosidade ultrapassa essa relação imediata com o dado sensível. * Apesar disso, o desejo cotidiano de ver não se dirige a um além suprassensível. * Ele permanece orientado para o domínio do sensível. * Não há referência a um mundo transcendente ou metafísico. * A orientação para o sensível, contudo, contém uma ultrapassagem do que está presente. * O desejo dirige-se para algo ainda não visível. * Ele visa algo ainda não presente. * A curiosidade abre-se para o que ainda não se mostra. * O desejo que anima a curiosidade é essencialmente um desejo pelo novo. * O termo alemão Neugier indica explicitamente essa orientação. * O novo é aquilo que ainda não foi visto ou experimentado. * O ver próprio da curiosidade é um ver enquanto compreensão. * Esse ver corresponde ao modo de compreensão analisado como estrutura do Dasein. * Ele não se reduz a um ato sensorial, mas implica um modo de entender. * Essa compreensão não visa o conhecimento no sentido de saber. * Não se trata de estar conscientemente na verdade. * Não se busca um saber que se estabilize como conhecimento. * O objetivo da curiosidade é apenas ter visto. * O ver busca a posse momentânea da visão. * O saber busca apenas ter sabido, sem retenção ou apropriação existencial. * O papel do verbo ter é decisivo para caracterizar a curiosidade. * O ter indica uma relação superficial com o visto. * A curiosidade acumula visões sem integrá-las à existência. * Essa estrutura revela uma evasão do próprio ter-sido do Dasein. * O Dasein não se apropria de sua própria historicidade. * O ter visto substitui o assumir do que foi vivido. * A análise temporal da curiosidade explicita esse traço. * A curiosidade é compreendida como uma fuga. * Essa fuga ocorre diante da condição de lançado do Dasein. * A fuga relaciona-se à mortalidade do ser-para-a-morte. * A curiosidade evita a confrontação com a finitude. * Ela se dispersa no novo para não permanecer consigo mesma. * Essa fuga manifesta-se como afastamento do instante. * O instante designa uma visão originária e própria do existir. * A curiosidade desvia-se dessa visão própria. * O instante pertence ao tempo originário da existência. * Ele não é um momento cronológico. * Ele corresponde à temporalidade própria do Dasein. * A curiosidade, ao fugir do instante, permanece no tempo impróprio. * Ela se move na sucessão do sempre novo. * Evita a concentração temporal própria da existência. {{tag>McNeill}}