====== ÓRGÃOS - INSTRUMENTOS - TELOS (2006:6-8) ====== //MCNEILL, William. The Time of Life. Heidegger and Ethos. New York: State University of New York Press, 2006// > Mas o que é que significa "ter" olhos? E será que ver é simplesmente o resultado de ter olhos? No curso de 1929-30, Heidegger começa a sua elucidação da essência do organismo tentando libertar a nossa compreensão do organismo e dos seus órgãos de qualquer concepção instrumental. No entanto, a própria palavra órgão, derivada do grego organon ("instrumento de trabalho", ou Werkzeug, como Heidegger a traduz), e relacionada com ergon ("trabalho", em alemão: Werk), sugere ela própria que uma concepção instrumental dos seres vivos tem estado em jogo desde os gregos (GA29-30:312). Uma interpretação "instrumental" pode ser definida como aquela que vê a função dos órgãos em termos de um fim, objetivo ou telos extrínseco e, por extensão, considera a relação entre as realizações do organismo (por exemplo, ver) e os seus órgãos (ter olhos) como estando "organizada" em termos de causa e efeito ou de relações meio-fim (vemos porque temos olhos; os olhos são um meio para ver). ---- ====== Órgão, instrumento e a essência do ver ====== * A questão inicial interroga o sentido de possuir olhos e a relação entre possuir olhos e ver. * Não se trata de pressupor que ver seja simplesmente o efeito causal de um órgão dado. * A investigação visa desfazer a evidência implícita segundo a qual o órgão seria um meio instrumental para uma função previamente definida. * A elucidação da essência do organismo exige a superação de uma concepção instrumental. * A análise procura libertar a compreensão do organismo e de seus órgãos de um modelo técnico. * O ponto de partida é a crítica à concepção do órgão como instrumento. * O próprio termo órgão carrega uma herança instrumental. * A palavra deriva do grego organon, traduzido como instrumento ou ferramenta. * A raiz ergon remete ao trabalho e à obra, sugerindo desde cedo uma interpretação técnica do vivente. * Essa herança linguística indica que a concepção instrumental do vivo remonta já à Grécia. * A interpretação instrumental define os órgãos por referência a um fim externo. * O órgão é compreendido como meio orientado a um telos extrínseco. * A relação entre órgão e função é pensada segundo o esquema meio-fim ou causa-efeito. * O ver seria explicado como efeito do possuir olhos. * Surge então a questão da diferença entre órgão e instrumento. * Tanto o órgão quanto o instrumento realizam algo. * Ambos parecem caracterizados por um ser-para-algo ou por um em-vista-de. * Exemplos correntes reforçam a analogia: a caneta serve para escrever, o olho para ver. * A analogia, contudo, mostra-se insuficiente. * A questão decisiva consiste em saber se o olho produz o ver do mesmo modo que a caneta produz a escrita. * Pergunta-se se o olho possui um telos da mesma natureza que o de um instrumento técnico. * O ver não é produzido pelo olho como um produto externo à atividade. * Na escrita, o uso do instrumento gera um resultado distinto do próprio ato de escrever. * O produto permanece quando a atividade cessou. * No ver, não há um produto separado da própria atividade. * A distinção remete à diferenciação aristotélica entre praxis e poiesis. * A escrita é um caso de poiesis, no qual o fim está além da atividade. * O produto encontra-se para além do processo que o gera. * O ver, ao contrário, não deixa um resto exterior à atividade. * A visão constitui um paradigma de praxis em sentido ontológico. * O telos da visão está incluído na própria atividade de ver. * Ver e ter visto coincidem no mesmo momento. * Não há separação temporal ou ontológica entre processo e realização. * A vida é compreendida de modo análogo à visão. * O viver é uma praxis cujo fim reside nela mesma. * Viver e ter vivido coincidem no mesmo instante. * A vida não é meio para um produto exterior a ela. * A distinção entre órgão e instrumento revela uma diferença ontológica fundamental. * Não se trata apenas de funções distintas, mas de modos de ser diferentes. * A maneira de ser do organismo não pode ser compreendida segundo o modelo do equipamento. * O instrumento é um ente independente. * Ele está disponível como algo pronto para uso. * Pode ser utilizado por diferentes sujeitos. * Possui uma subsistência própria enquanto coisa pronta-à-mão. * O órgão, ao contrário, não é independente. * O olho está sempre incorporado a um ser vivo singular. * Ele não está disponível como um objeto utilizável por qualquer um. * Cada vivente vê apenas com seus próprios olhos. * Os órgãos não são entes simplesmente presentes ou disponíveis. * Eles não se oferecem como equipamentos prontos. * Sua existência é inseparável do organismo ao qual pertencem. * Não há órgão fora do vivente que o integra. * A distinção conduz à diferenciação entre capacidade e prontidão. * O órgão é caracterizado por uma capacidade. * O instrumento é caracterizado por uma prontidão. * A prontidão implica tanto estar acabado quanto estar disponível para uso. * O termo fim revela uma ambiguidade essencial. * Fim pode significar completude ou finalidade. * Essa ambiguidade corresponde ao duplo sentido do termo telos. * Órgãos e instrumentos podem servir a fins, mas de maneiras ontologicamente distintas. * O instrumento é produto de uma técnica anterior. * Ele resulta de um processo de fabricação. * Sua existência pressupõe uma techne humana. * Ele permanece exterior ao usuário. * O órgão não é produto de uma técnica humana. * Ele não é fabricado nem montado externamente. * Não subsiste como coisa independente. * Sua existência está enraizada no próprio organismo. * A consideração do órgão como ente independente torna-se problemática. * Um olho isolado não possui a capacidade de ver. * Do mesmo modo, um instrumento isolado não realiza nada sem um agente. * A diferença está no modo como a potência se enraíza. * A inversão da relação causal torna-se decisiva. * Pergunta-se se o animal vê porque tem olhos ou se tem olhos porque pode ver. * A posse de olhos não é idêntica à capacidade de ver. * A capacidade precede a posse do órgão. * A capacidade de ver funda a possibilidade do órgão. * A potencialidade para ver torna necessário o desenvolvimento do olho. * O órgão surge como expressão dessa capacidade. * Um olho isolado não é propriamente um olho. * Os órgãos pertencem essencialmente ao organismo. * Eles se desenvolvem a partir do organismo. * Não são acrescentados posteriormente como instrumentos. * A capacidade pertence ao organismo enquanto totalidade. * Não se deve dizer que os órgãos possuem capacidades. * A capacidade não reside primariamente no órgão. * Ela procede do organismo como um todo. * O órgão é a concretização dessa capacidade. * A precedência da capacidade em relação ao órgão é ilustrada biologicamente. * Em certos organismos elementares, órgãos surgem e desaparecem conforme a necessidade. * A forma orgânica não é fixa nem pré-dada. * A capacidade orienta a formação orgânica. * O organismo mostra-se como capaz de autoformação. * Ele produz, reproduz e renova seus próprios órgãos. * Essa produção ocorre dentro de limites próprios. * A autorregulação distingue o organismo da máquina. * A máquina depende de uma construção externa. * Ela precisa ser fabricada por agentes humanos. * Sua regulação não lhe pertence intrinsecamente. * O organismo, ao contrário, regula-se a partir de si mesmo. {{tag>McNeill}}