====== A redução do dom à doação ====== MarionDado === O presente sem a presença === * A aporia do dom (segundo Derrida) não é o resultado obrigatório, mas permite uma leitura alternativa que abre uma via. * A incompatibilidade entre o dom (pensado segundo a doação) e a presença (pensada como subsistência) não significa que o dom não possa absolutamente aparecer. * Significa que ele só pode aparecer //excluindo-se// do horizonte da presença, do aparecer como permanência subsistente. * O paradoxo "o presente (dom) não pode estar presente na presença" pode ser invertido: "o presente (dom) se dá //sem// a presença". * Ao perder a presença (subsistência, troca, economia), o dom não se perde como dado; perde apenas o modo de ser que contradiz sua possibilidade de se dar como tal. * Ele se dá na medida exata em que renuncia a ser, em que se excepciona da presença, em que se desfaz de si ao desfazer nele a subsistência. * O dom não deve nada à presença; a questão da doação se abre na possibilidade do //presente sem presença// – fora do ser. * A análise de Derrida oferece uma fórmula paradigmática: "A verdade do dom equivale ao não-dom ou à não-verdade do dom." * Isto aponta para uma duplicação possível do dom: * (a) O dom que dá algo determinado (um dado, um presente), que é anulado por sua entrada na presença e na economia. * (b) O dom que não dá um dado, mas "a condição de todo dado em geral" (ex: dar tempo, dar a vida, dar a morte). * Contudo, esta duplicação é insuficiente para nossa investigação, pois: * Atribui ao novo dom uma função de "condição" ou fundamento, que ainda é metafísica. * Não remonta do dom dado à doação como tal (seu "pli"/dobra). * Redobrar um conceito geralmente apenas justapõe os termos de uma contradição. * É necessário, portanto, pensar o dom de modo radicalmente outro, fora do sistema de troca e da presença metafísica. * Se a verdade (clara visão na presença) anula o dom, então o dom advém dispensando-se dessa verdade. * Se a subsistência no intercâmbio anula o dom, então o dom se produz libertando-se dessa subsistência. * As "condições de impossibilidade" do dom no sistema econômico provam apenas que o que ali era estudado não merecia o nome de dom. Um verdadeiro dom terá outras condições de possibilidade. === A economia faz economia da doação === * Os dois modelos a superar – interpretação causal da doação e interpretação econômica do dom – coincidem no //modelo padrão//. * Neste modelo, os parceiros da doação (doador e donatário) já são interpretados como //causas// (eficiente, final). * O dom, como produto dado, demanda uma causa formal e material. A eficiência domina toda a causalidade do intercâmbio. * Simultaneamente, a economia da eficiência confirma o dom em seu estatuto de //objeto//: para ser trocado, ele deve ter a consistência da objetidade, visibilidade, permanência – a //presença//. * Este modelo padrão elimina o dom autêntico, aquele "a fundo perdido" (//datio irredibilis//), que rompe o circuito e suspende o retorno. * No comércio da troca, o dom já se despojou de sua gratuidade; trocou-a por um preço. Desaparecido como tal, ele não oferece mais uma via para a doação. * A gratuidade não basta para defini-lo, pois mantém o paralelo com a venalidade e se desdobra ainda no intercâmbio. * O dom autêntico surge de si, sem se inscrever no circuito econômico. É preciso descrever seu aparecer singular, tal como ele se mostra de si, na medida em que [se] dá. === A tríplice ἐποχή === * Para acessar o dom em si mesmo, é preciso libertá-lo da economia e a doação da causalidade. Isto se faz por uma //redução fenomenológica//. * Reduzir o dom à doação e a doação a si mesma significa: pensar o dom como dom, abstraindo-se de toda transcendência. * Isto implica uma //tríplice ἐποχή// (suspensão) das transcendências que o afetam no modelo econômico: * (1) Suspensão da transcendência do donatário. * (2) Suspensão da transcendência do doador. * (3) Suspensão da transcendência do objeto trocado (o dom como ente subsistente). * As objeções de Derrida (nenhum donatário, nenhum doador, nenhum objeto dado) convertem-se, assim, nas //condições de possibilidade// da redução do dom à pura doação. * As "condições de impossibilidade" no sistema econômico tornam-se as condições para liberar o dom desse sistema e manifestá-lo segundo a doação pura, livre de toda causa. * Esta redução pode ser efetivamente realizada? Pode-se pensar o dom sem inscrevê-lo nos termos da troca? * Para esboçar a resposta, tenta-se delinear esta tríplice ἐποχή a partir da questão: "Quando um dom se dá, o que me é dado de fato? Que vividos de consciência são requeridos?" * Deve-se distinguir entre os vividos de uma consciência na posição de doador e os de uma consciência na posição de donatário. * A suspensão dos dois extremos (doador/donatário) coloca uma dificuldade distinta da suspensão do dom dado. * O objeto dado pode ser reduzido, mas //para qual consciência//? Evidentemente, para a do doador ou a do donatário, pois só elas podem realizar uma redução e receber um dado fenomenológico. * Mesmo que ambos pudessem ser simultaneamente suspensos, a redução exigiria, //de direito//, que ao menos um dos dois se exceptue da redução, assumindo a função de //Eu transcendental//. * Haverá, portanto, um desequilíbrio inevitável (e talvez um movimento) entre o dom, por um lado, e o doador/donatário, por outro. * O estatuto daquilo que assume alternadamente a função de "consciência" nesta operação será tratado explicitamente mais adiante.