====== Privilégio da doação ====== MarionDado * Abordagem da questão do privilégio da //donation// e sua universalidade fenomenológica * Problematização de possíveis exceções à //donation//: o nada e a morte * Defesa da tese central: o privilégio da //donation// é intrínseco, pois ela se dá sem condições e sem pressupostos * Exposição da evidência primordial da //donation// como horizonte inderrogável * Regra de essência: qualquer coisa que advém ou aparece o faz primordialmente como //donation// * A //donation// precede e torna possíveis todos os modos específicos de vinda (ser, aparecer, efetivar, afetar) * Tudo começa pelos dados imediatos da //donation// * Análise do caso limite do nada (//néant//) * Objeção: o nada poderia definir-se por sua irredutibilidade à //donation// * Resposta: mesmo o nada deve se dar para poder ser concebido * Modo de doação: uma //donation// por denegação, caracterizada por uma falha de conteúdo * Exemplos de doação paradoxal do não-dado * O //néant//: dá-se positivamente pela disposição da angústia (Heidegger) * A possibilidade: dá-se positivamente pela intuição das essências ou intuição categorial (Leibniz) * A obscuridade do não-aparecer: dá-se em suas três acepções essenciais * Incompreensível: dá o excesso positivo do infinito (Denys, Descartes) * Falha da intuição: dá a simples ideia da razão (Kant, Husserl) * Negativo: opera a //donation// dialética do conceito (Hegel) * O vazio: dá-se na decepção da antecipação da percepção ou da expectativa frustrada * Consequência: contradição, contra-senso (//Widersinn//) e não-senso também relevam da //donation// * A //donation// não equivale à intuição; sua portada não é limitada pela falta de intuição * A desconstrução (//déconstruction//) é um modo de //donation//: a doação diferida (//donation différée//) * Impossibilidade rigorosa de se falar em uma "não-doação" (//non-donation//) * A distinção husserliana entre doação plena e doação em sentido amplo ocorre inteiramente dentro do horizonte único da //donation// * A //donation// abre o espaço intransponível do dado em geral, incluindo o anel do não-dado * Análise do caso limite da morte (//mort//) * Objeção: a morte, ao suprimir o receptor, suspenderia a //donation// * Resposta: a morte mantém uma relação complexa com a //donation//, não a suspende * Premissa: a morte pode ser "dada" e "recebida" na linguagem * Argumento fenomenológico a partir de Heidegger: a morte como "possibilidade da impossibilidade" * A morte é uma possibilidade pura para o //Dasein//, não uma nulidade * Ela define a possibilidade mais própria do //Dasein//: a transcendência * Refutação do paradoxo epicurista: a morte não é um ente, mas pura possibilidade, e é como tal que é para nós * A morte, como possibilidade radical, realiza a exposição intencional que abre o mundo e, portanto, a própria //donation// * A morte se dá ao //Dasein// como possibilidade originária (ser-para-a-morte), não como evento factual * Resposta a uma segunda crítica: a morte como possibilidade da impossibilidade daria apenas a suspensão de todo dado * Refutação: a morte dá a impossibilidade, a experiência da finitude como determinação existencial inderrogável * A morte efetiva (do outro) fecha o acesso à minha morte como possibilidade * O pathos cotidiano da morte alimenta-se de sua possibilidade, não de sua efetividade * Conclusão: a morte não escapa à //donation//; ela se dá a si mesma e inscreve o receptor no horizonte da única doação * Estabelecimento da indubitabilidade absoluta da //donation// * A denegação da //donation// é impossível, pois a própria denegação já implica uma doação * Analogia com o //ego sum, ego existo// cartesiano: a //donation// se atesta a si mesma sempre que dá qualquer coisa * Diferença radical entre a indubitabilidade do ego e a da //donation// * O ego: indubitabilidade pela posse de si, certeza de si, produção de si (//causa sui//) * A //donation//: indubitabilidade pelo abandono de si, despossessão, produção de um outro (o dado) no qual desaparece * A //donation// permanece retraída, nunca aparece como um //quid//, um ente, uma substância * A //donation// não é um princípio transcendental * O transcendental se impõe antes da experiência e em relação a uma subjetividade * A //donation// se marca na experiência do dado e excede sem medida qualquer subjetividade possível * Precisão final sobre o estatuto da //donation// como ato * A //donation// deve ser entendida como um ato, não como uma substância * Este ato não é um "ato puro" hipostasiado, mas um ato fenomenológico no sentido husserliano * Manter distinto o conceito de ato é condição para reconhecer sem ambiguidade o privilégio da //donation// * Resultado final confirmado: negar a //donation// é confirmá-la * O privilégio lhe vem de sua definição: sua retirada, sua ausência atestam seu exercício * Ela se impõe como princípio, mas sob a condição de permanecer o último