====== Objeções formais ao eu transcendental ====== MarionDado * Desqualificação contemporânea do "sujeito": não se deve a alguma polêmica obstinadamente negadora ou ideologicamente enviesada, como fazem acreditar algumas recentes hermenêuticas reativas * Deve-se à sua impotência sem cessar confirmada de fazer direito aos caracteres contudo os mais patentes de seu próprio fenômeno * Para recensear estas insuficiências, distinção primeiro de quatro aporias formais do "sujeito" reduzido ao "eu penso": duas segundo se o toma a título de "sujeito" transcendental, duas outras a título de "mim" empírico * Recondução em seguida a uma só aporia fenomenológica * Primeira aporia formal: a título de Eu transcendental, o "eu penso" não pode cumprir nenhuma individuação * Porque exerce uma pura função abstrata, "... a representação Eu não abraça nela a menor diversidade e ela é uma unidade absoluta (bem que puramente lógica)" * Unifica as diversidades, precisamente porque permanece uma vazia unidade, viúva de toda particularidade * Intervém então como "... uma e a mesma em toda consciência", de modo a interditar que "... eu tenha um si tão diferente e multicolorido [//ein so vielfarbiges verschiedenes Selbst//], quanto tenho de representações [diversas] das quais sou consciente" * O "sujeito" assegura sua transcendentalidade ao preço de sua privação de toda qualidade, estabelece então sua universalidade em detrimento de sua identidade * Reproduz assim a unicidade do intelecto agente, que a interpretação de Aristóteles por Averróis já havia oposto à multiplicidade (empírica) dos entendimentos passivos, mas somente individualizados * Que, nesta mesma tradição, obstinada a erradicar até a simples pretensão a um "si" individual, a individuação se encontre ao fim muito logicamente abandonada à matéria e portanto condenada sem retorno à ininteligibilidade, confirma simplesmente que o "eu penso", entendido transcendentalmente, não pode precisamente jamais dizer, nem se dizer "eu" * Ou, se o diz, não pode cumpri-lo como o seu, porque não pode nele atingir nenhum "si" * Tudo se passa como se o "eu penso", que pretende ter por função e fundação alienar o "si" do fenômeno objetivando-o, perdesse nesta destruição primeiro e sobretudo seu próprio "si" * Donde um dilema evidente: se o "eu penso" a título transcendental não permite, melhor, interdita a individuação do "eu", é preciso renunciar a pensar a subjetividade até sua irredutível individuação, ou renunciar a pensar a individualidade do "eu" a partir da figura transcendental do "eu penso"? * Certamente, entre estas duas vias, seguir-se-á a segunda: pensar o "eu" segundo uma determinação mais originária que o "eu penso" ele mesmo e pedir ao atributário [attributaire] de conduzir até a individualidade última de um "si" * Segunda aporia formal: a título de Eu transcendental, o "eu penso" tampouco pode se liberar do solipsismo * Não se trata somente da dificuldade clássica de demonstrar a existência do mundo exterior (Descartes, Malebranche, Berkeley, Kant), que se limita a uma região do ente e permanece de direito sempre superável (Husserl, Heidegger) * Trata-se sobretudo das implicações transcendentais do primado de um "eu penso" que acompanharia toda outra representação: tal dispositivo supõe que toda representação equivalha, em seu fundo, a uma representação de si, que toda //cogitatio// encerre uma //cogitatio sui//, portanto que todo "eu penso" se desenvolva implicitamente em um "eu me penso" * Implicação que se notará doravante por um "eu [me] penso" * Parecida circularidade não produz somente a tautologia formal do "eu penso" como "eu sou", imita sobretudo a identidade entre a essência e a existência desdobrada pelo pretendido "argumento ontológico" ou pela //causa sui// * Todo pensamento (de qualquer essência que seja) compreende nele a existência (o primado ôntico-epistêmico) do Eu como "eu penso", cuja essência basta para causar sua própria existência * Donde esta consequência, que nenhum pensamento intervém que não dê primeiro a pensar, antes dele mesmo, o "eu [me] penso" * E, mesmo se se admitisse a boa-fundação deste solipsismo de princípio (Berkeley), não se poderia tolerar a inadequação que ele acarreta na simples descrição do "sujeito" * Nele mesmo com efeito, o primado do "eu [me] penso" não somente não permite dar conta da finitude do "sujeito", mas a interdita radicalmente * Pois, se Kant mantém esta finitude, é porque redobra a espontaneidade do "eu penso" pela receptividade da sensibilidade, ao passo que Husserl não cessa ao contrário de deixar derivar seu Eu transcendental em direção à indefinição e à unicidade universal, porque mantém sempre a primazia da atividade sobre a passividade e da visada intencional sobre o preenchimento intuitivo * Inversamente, Heidegger só restabelece tão nitidamente a finitude, porque arranca primeiro o //Dasein// ao prestígio da atitude teórica e do "eu [me] penso", pelo ser-no-mundo, a conjuntura [//Bewandtnis//] e a facticidade * Aliás, Descartes não teria, o primeiro, retido o //ego// na finitude, se não tivesse tomado cuidado de enquadrar a //cogitatio sui// de um lado pela dúvida e a criação das verdades eternas e, de outro, por sua vontade formalmente infinita * Parece então claro que o privilégio concedido ao único e somente "eu penso" para descrever a subjetividade resulta em contradizer ou ignorar o traço contudo essencial: sua finitude * Aqui ainda se instaura um dilema: é preciso renunciar a pensar a finitude do "sujeito" para manter o privilégio do "eu penso", ou bem acabar com o "eu penso" para fazer direito à finitude do "sujeito", ou antes do atributário que vem depois dele? * Inclina-se para a segunda solução