====== A Objeção de uma Obstrução ====== JLMEDR * Uma questão é sempre repetida em fenomenologia, de vários ângulos * A de saber se pode-se, e se deve-se, admitir um irredutível, seja ele qual for * Esta interrogação surge primeiramente, como visto, da própria redução * Mas surge também, como um contrachoque, do que a redução traz à tona — talvez * Pois a redução, mesmo por sua operação e radicalização, torna evidente, nem que seja por contraposição, a possibilidade, mesmo a necessidade, de uma exceção, de um irredutível * Seja entendida como um fenômeno particular que é, ao fim, não-reduzido * Ou seja concerne diretamente à operação da própria redução * Esta indecisão mesma destaca a única questão: o que resulta da redução, a que a redução reconduz as coisas quando as transpõe em fenômenos? * Com efeito, a identificação do possível irredutível não é evidente por si mesma * Uma tradição polêmica bastante longa assimilou, ao menos desde Cavaillès, a fenomenologia a uma filosofia da consciência, mesmo uma filosofia da intuição * Em oposição a uma suposta filosofia rigorosa, estrita e sóbria do conceito (mas pode haver um conceito sem consciência, nem que seja apenas a consciência deste conceito mesmo?) * Neste caso, e consequentemente, o suposto irredutível da fenomenologia consistiria na intuição originariamente percebida pela consciência * Assim aproximadamente definida, a doação suscita de uma só vez uma inevitável dupla reticência * A primeira deve-se ao seu caráter factual, imposto //de facto// e sempre já cumprido * O dado, seja ele qual for, com efeito não admite exceção * O dado //de fato// está sempre já aí, ou antes sempre já aqui, o mais próximo possível * Estamos imediatamente presos nele, nossos pés nele, enredados até a náusea no horror do fundo que nos cola a ele * Mesmo nossa própria experiência do nada, supondo, além disso, que tenhamos alguma vez realmente tido uma, já supõe um dado * Por menor que se o imagine, que de antemão nos retém e contém * O dado portanto abre toda experiência, mas como a abre de antemão e de fato, neste sentido a fecha * Porque a decidiu antes e sem nós, impõe-a sobre nós, faz-nos chegar atrasados desde o início * Orienta-a para nós, condiciona-a para nós e raciona-a para nós sem dar-nos razão alguma do porquê * O começo pertence ao dado, e este começo decide o fim * Com o dado, desde o começo, vemos o fim, estamos acabados, em todos os sentidos do termo * De onde o inevitável, mesmo automático, reflexo da racionalidade * Pensar e compreender consistirá em recusar a autoridade //de facto// do dado * Desconstruí-lo e suspendê-lo para recuperar a iniciativa da dedução e restabelecer um outro começo, o do //a priori// * Conquistado após o fato como uma inauguração em reverso: quanto menos dado, tanto mais pensado * O dever da negatividade requer desfazer esta simples autoridade //de facto// do dado para substituir-lhe a autoridade //de jure// de um //a priori//, seja ele qual for * Contanto que consiga recuperar o dado dentro da legitimidade voluntária do conceito * A segunda reticência segue e reduplica gravemente a primeira * Se além disso a doação de fato procede por intuição (e uma intuição sensível opaca) * Então desafia toda explicação e toda justificação discursiva * Não apenas a doação pode dar conta de sua intuição por seu fato bruto * Mas defende este fato bruto pela opacidade da ideia sensível elementar: uma ideia clara e obscura * Pois, como Descartes notou, uma ideia pode ser clara ("//menti attendenti praesens et aperta//", presente e aberta à atenção da mente) * Sem todavia tornar-se distinta, isto é, distinguindo-se precisamente de outras ideias sensíveis para apresentar-se claramente como tal * ("//ab omnibus aliis ita sejuncta et praecisa, ut nihil plane aliud, quam quod clarum est, in se continat//", "tão nitidamente separada de todas as outras percepções que contém dentro de si apenas o que é claro") * O sensível impõe-se (//s'impose//), mas não é posto (//se pose//) como tal * Uma cor aparece, mas sem dar os critérios que a definem e portanto sem distinguir-se de uma outra * Digo que isto é vermelho, e outros podem concordar comigo sobre este julgamento (salvo doenças oculares) * E podemos mesmo distingui-lo de outras cores (amarelo ou azul) * Mas nem eles nem eu podemos dizer o que este vermelho mostra concernente ao vermelho, este vermelho como tal * Em suma, o que significa em si mesmo * Resumido na intuição sensível, o dado permanece mudo concernente a si mesmo * Fecha o acesso ao seu fato brutal, recusa-se à identificação, à diferenciação, e portanto finalmente à significação * Sem significação, o dado, doravante apenas sensível, permanece portanto cego (//aveugle//) * Não vendo nada, mas sobretudo não dando nada a ver * Como um quarto sem janelas (//pièce aveugle//), //camera obscura//, invisível e sem luz — finalmente insensível * O dado não poderia portanto, especialmente se se duplica em um dado sensível, assegurar a fenomenalidade * Como tal, mudo e cego, um puro e indefinido "isto", torna-se insensível, sem nenhum sentido * De onde, sem dúvida, a queixa recorrente que denuncia o fetichismo do dado * E chama a hermenêutica para ajuda a fim de, segundo a expressão presunçosa de um crítico, restaurar os supostos direitos violados de "uma fenomenologia deflorada da pureza da doação" * Pois a suposta doação "pura" imporia "uma certa forma de quietismo" * Para a qual doravante seria apenas questão de "mostrar, descrever, e não mais [de] argumentar, dar razões" * À doação pura mas muda, deveria responder a dis-cursividade racional, o dar (//rendu//) de razões, portanto a resistência hermenêutica * Esta objeção foi introduzida como óbvia por especialistas indiscutidos em hermenêutica * Em primeiro lugar entre os quais contam-se J. Grondin e J. Greisch * Foi portanto também largamente retomada pela opinião pública, ao ponto de encontrar um eco entre teólogos * Mas lendo uma de suas formulações mais recentes, vê-se de uma vez o limite desta objeção * "A verdadeira pedra de toque da fenomenologia proposta por //Being Given// é esta universalidade incondicionada da doação, da qual nada é excetuado e que torna obsoleta, em particular, a necessidade de qualquer recurso à hermenêutica" * E todavia toda a questão consiste precisamente em saber se, "a universalidade incondicionada da doação" sendo admitida, torna por isso "obsoleta" o "recurso à hermenêutica" * Pois, finalmente, nenhum vínculo analítico une imediatamente os dois termos * E não se vê como a doação como tal proibiria a hermenêutica, nem por que não a chamaria antes, mesmo a exigiria * A objeção aqui supõe exatamente o que seria necessário primeiramente provar * A incompatibilidade dos recursos da fenomenalidade com a asserção diferenciada de suas figuras de sentido * Esta incompatibilidade poderia conceber-se apenas se a doação fornecesse imediatamente um fenômeno objetivável * Um portanto constituído por um sentido unívoco, que nem toleraria nem requereria nenhuma interpretação * Estando já incluído em uma significação determinada ou um conceito fechado * Mas a doação dá sempre, mesmo alguma vez, tal objeto com um sentido unívoco? * A doação se confunde com a causalidade eficiente que produz um objeto acabado? * Dar equivale a colocar um objeto sob um olhar ou a tê-lo à mão? * Quem não vê que, assim reduzida à produção e à eficiência, a doação não daria mais nada? * Precisamente porque não daria mais mas produziria, sem recuar diante desta facticidade como se se tratasse de violência ou impropriedade? * E todavia — e aí reside toda a dificuldade — a facticidade mesma da doação permanece ainda absolutamente a ser determinada como tal * Resta interpretar sua neutralidade * Doravante, resta compreender o que a "abertura" de Husserl em direção à doação manifesta * A menos que a deixemos de lado, como se fosse uma tese marginal do //venerabilis inceptor// (uma hipótese implausível) * Ou (mais estranho ainda) a invenção desviante de um epígono * Ao menos, Heidegger havia, por sua parte, reconhecido a doação * E, começando em 1919, havia-a designado claramente como tal * Nem como um //slogan// para todos os usos nem como um mito para confundir tudo, mas como uma questão a decidir em termos de fenomenalidade * E perguntava: "O que significa 'dado'? 'Doação'? Esta palavra mágica da fenomenologia e 'pedra de tropeço' para outros" * Assim a doação surge menos como uma resposta que como uma questão * Menos como um argumento final que como uma indecisão pendente * Tomemos a regra posta por Kant — todo conhecimento supõe uma intuição porque apenas a intuição goza do privilégio de "dar" * Resta definir o que esta doação significa * Em outras palavras, resta também e primeiramente definir o que não significa, aquilo com o que não se confunde * Pois a doação não produz como uma causa eficiente, nem se confina à intuição sensível * Porque não se confunde mesmo com a intuição em geral