====== O Que Se Mostra e O Que Se Dá ====== JLMS * Todo fenômeno aparece, mas aparece apenas à medida que se mostra * Definição do fenômeno como o que se mostra em si e a partir de si * Heidegger estabeleceu e fez admitir: "o que-se-mostra-em-si-mesmo" * Deixou largamente indeterminada a maneira pela qual pode pensar-se o si em obra no que se mostra * Questão: como pode um fenômeno reivindicar desdobrar-se por si mesmo e em si mesmo, se um Eu transcendental o constitui como um objeto? * Objeto posto à disposição para e pelo pensamento que o governa exaustivamente * Em tal mundo — o dos objetos técnicos, o nosso em sua maior parte — os fenômenos atingem apenas o posto de objetos * Sua fenomenalidade permanece assim de empréstimo, como derivada da intencionalidade e da intuição que lhes conferimos * Para admitir ao contrário que um fenômeno se mostra, seria necessário poder reconhecer-lhe um si * Tal que tome a iniciativa de sua manifestação * A questão torna-se desde então saber se e como tal iniciativa de manifestação pode caber a um fenômeno * Resposta proposta: um fenômeno se mostra apenas à medida que primeiramente se dá * Tudo o que se mostra deve, para alcançá-lo, primeiramente dar-se * Todavia, a recíproca não vale exatamente * Tudo o que se dá não se mostra por isso * A doação não se fenomenaliza sempre * Como localizar o que se dá? * A doação de si não pode de fato ver-se diretamente * Pois vê-se apenas o que já se mostra ou, ao menos, no caso dos objetos, é mostrado * Se a manifestação resulta talvez da doação, a doação deve precedê-la * Permanece-lhe portanto anterior, ou seja não ainda engajada no espaço da visibilidade * Por conseguinte, a falar estritamente, não-vista * Não poderíamos portanto acessar a doação, ao movimento pelo qual o fenômeno se dá, contornando a visibilidade do que eventualmente se mostra aí * Supondo, certamente, que uma fenomenalidade não objetiva possa assim atestar-se * Resta portanto apenas uma única via * Tentar cercar, no espaço da manifestação, regiões onde fenômenos se mostram, em vez de deixarem-se simplesmente mostrar como objetos * Ou ainda, liberar as regiões onde o si do que se mostra atesta indiscutivelmente a impulsão, a pressão e por assim dizer o impacto do que se dá * O si do que se mostra manifestaria indiretamente que se dá mais essencialmente * O mesmo si, que se localizaria no fenômeno mostrando-se, proviria do si originário do que se dá * Mais nitidamente, o si da fenomenalização manifestaria indiretamente o si da doação * Porque este o operaria e, ao fim, faria apenas um com ele * Pode-se detectar tal remontada do si fenomenalizante ao si doante? * Quais fenômenos guardam neles o traço de sua doação? * Ao ponto de que seu modo de fenomenalização não somente abriria tal acesso ao seu si originário, mas o tornaria incontestável * Hipótese propõe-se: tratar-se-ia dos fenômenos do tipo do evento * O evento aparece bem como outros fenômenos * Distingue-se dos fenômenos objetivos em que, ele, não resulta de uma produção * Que o entregaria como um produto, decidido e previsto * Previsível segundo suas causas e por conseguinte reprodutível segundo a repetição de tais causas * Ao contrário, advindo, atesta uma origem imprevisível * Surgindo de causas frequentemente desconhecidas, até mesmo ausentes, ao menos não assinaláveis * Que não se saberia portanto reproduzir, porque sua constituição não teria nenhum sentido * Objeção: tais eventos permanecem raros * Sua imprevisibilidade os torna precisamente impróprios à análise da manifestação * Em suma, não oferecem nenhum terreno seguro à investigação sobre a doação * Podemos colocar em questão este julgamento em aparência evidente? * Tentativa ao menos, tomando o exemplo de uma indiscutível factualidade * Desta sala — a Sala dos Atos, onde se realiza, hoje, esta sessão acadêmica * Mesmo esta sala aparece, com efeito, no modo do evento * Objeção: ela se oferece a ver como um objeto * Quatro muros, um falso teto mascarando uma varanda, um pódio, um certo número de assentos * Disponíveis como tantos entes permanentes e subsistentes * Permanecem, aguardando que os habitemos utilizando-os ou que constatemos sua subsistência * Mas esta permanência em espera significa aqui curiosamente o contrário da disponibilidade objetiva * Primeiramente, segundo o passado * Pois, enquanto sempre já lá, disponível à nossa entrada e nosso uso, esta sala impõe-se a nós como prévia a nós * Sendo sem nós, embora para nós, que portanto surge à nossa vista como um fato inesperado, imprevisível * Vindo de um passado incontrolável * Esta surpresa não surge somente às salas de tal palácio romano * Frequentemente margeado durante os passeios exteriores de turistas ignorantes ou marchas apressadas de um habitante blasé da Cidade eterna * Mas das quais, às vezes excepcionalmente convidados a penetrar, descobrimos de um golpe o esplendor imprevisível e permanecido até então não-visto * Esta surpresa desencadeia-se de fato igualmente para a Sala dos Atos * Já lá, surgida de um passado que ignoramos * Restaurada muitas vezes por iniciativas esquecidas * Carregada de uma história excedendo a memória (trata-se de um antigo claustro arranjado?) * Impõe-se a mim aparecendo-me * Entro menos nela do que ela me advém dela mesma, engloba-me e impõe-se a mim * Este "já" atesta o evento * Em seguida, segundo o presente * Aqui, a natureza de evento do fenômeno desta sala revela-se indiscutivelmente * Pois não se trata mais da Sala dos Atos enquanto tal, em geral * Tal como subsistiria, em sua vacuidade indiferente, entre tal ou tal ocasião de preenchê-la de um público indiferenciado * Trata-se desta Sala esta noite, preenchida para tal ocasião * Ouvir tais oradores, sobre tal tema * A Sala dos Atos torna-se assim uma "sala" — no sentido teatral de uma "boa sala esta noite" (ou de uma má) * Ergue também uma cena, que tal ou tal ator pode primeiramente investir, para em seguida reter a atenção * De uma sala enfim, onde o que advém não são nem os muros e as pedras, nem os assistentes, nem os oradores * Mas o impalpável evento, do qual sua palavra vai apoderar-se, para fazê-lo compreender ou estragá-lo * E isto em um momento que, certamente, se intercalará em outras ocasiões * Outras sessões acadêmicas, outras conferências, outras cerimônias universitárias * Mas que não se reproduzirá jamais como tal identicamente * Esta noite, sobre este tema e nenhum outro, entre nós e nenhum outro, joga-se um evento absolutamente único, irrepetível e, em grande parte, imprevisível * Pois, neste momento preciso onde digo "momento preciso", nem vós, nem o Decano que preside, nem eu, sabemos ainda se será um sucesso ou um fracasso * O que aparece neste momento dado sob nossos olhos escapa assim a toda constituição * Embora tenha sido organizado, seguindo intenções claras e amigáveis, intelectuais e sociais * Mostra-se de si mesmo a partir de si mesmo * E no se de sua fenomenalidade pressionam — melhor, anuncia-se — o si do que se dá * O "esta vez, uma vez por todas" atesta portanto também o si do fenômeno * Enfim, no futuro, nenhuma testemunha, por instruída, atenta e documentada que seja, poderá, mesmo depois, descrever o que se passa no instante presente * Pois o evento desta tomada de palavra concedida por um público consentindo e uma instituição benevolente não mobiliza evidentemente apenas um quadro material * Ele mesmo impossível de descrever exaustivamente, pedra por pedra, época por época, assistente por assistente * Mas também um quadro intelectual indefinido * Seria necessário explicar o que digo e o que quero dizer * De onde o digo, a partir de quais pressupostos, de quais leituras, de quais problemas pessoais e espirituais * Seria necessário também descrever as motivações de cada ouvinte * Suas esperas, suas decepções, seus acordos tácitos e ditos, desacordos mascarados em silêncio ou exagerados pela polêmica * Mais, para descrever o que a sala desta Sala dos Atos acolhe hoje como evento * Seria necessário poder — o que permanece felizmente impossível — seguir as consequências na evolução individual e coletiva de todos os participantes, incluindo o orador principal * Tal hermenêutica deveria desdobrar-se sem fim e em uma rede indefinida * Nenhuma constituição de objeto, exaustiva e repetível, saberia ter lugar aqui * Por conseguinte o "sem fim" atesta que o evento adveio a partir de si mesmo * Que sua fenomenalidade surgia do si de sua doação * Desta primeira análise, precisamente porque se apoia sobre um fenômeno de início simples e banal * Ressalta que o fato de mostrar-se pode abrir indiretamente um acesso ao si do que se dá * Pois o evento da "sala" da Sala dos Atos deixa-nos surgir em plena luz um fenômeno que não somente não provém de nossa iniciativa * Nem responde à nossa espera nem poderá jamais reproduzir-se * Mas sobretudo que se dá a nós a partir de seu si * Ao ponto de que nos afeta, nos modifica, quase nos produz * O evento, não o colocamos jamais em cena * Nada mais ridiculamente contraditório que a pretensa "organização de evento" * Mas, ele, na iniciativa de seu si, coloca-nos em cena dando-se a nós * Coloca-nos em cena na cena que abre sua doação