====== O Mundo segundo a Vaidade ====== JLMPE * O mundo fenomenaliza-se doando-se ao sujeito e fazendo dele seu adonné [dado] * Reivindicar lugar ao sol erótico — como amado ou odiado — constitui primeiro dever, não injustiça ou tirania * Objeção ao enfraquecimento do //ego// pela substituição do //ego cogitans// pelo //ego// como amado ou odiado * Duplo enfraquecimento do //ego// pela redução erótica * Primeira razão: dependência de alteridade não controlável * //Ego cogitans// produz certeza por si mesmo em autonomia perfeita * Redução erótica coloca apenas a questão "amam-me?" sem resposta garantida * Interrogação expõe a incerteza radical de resposta sempre problemática, talvez impossível * Luto da autonomia torna-se necessário * Segunda razão: incerteza definitiva mesmo com confirmação erótica eventual * Asseguramento proveniente de alhures não confirma certeza de si, mas compensa sua falência * Alteridade mais originária que o próprio //ego// fere-o antes de qualquer compensação * Caráter determinante — amado ou odiado — não pertence mais ao //ego// em propriedade * //Ego// não se atribui mais a si mesmo, mas se extasia em direção a instância indecidida que decide tudo * Dupla heteronomia: de direito, depois de fato * Admissão do resultado destituinte como aquisição obscura * Redução erótica destitui //ego// de toda autoprodução na certeza e na existência definitivamente * Resposta eventual à questão "amam-me?" inscreve-se sempre nessa dependência como horizonte último * Autonomia da certeza pela //cogitatio// jamais se restabelece, nem como esboço desejado ou ideal da razão * Destituição não equivale a perda seca, mas a aquisição ainda obscura * Sob redução erótica, receber-se com certeza apenas como amado ou odiado * Entrada em terreno absolutamente novo como amado em potência (//amável//) * Não se trata de ser enquanto amado, nem fazer-se amar ou odiar para ser ou não ser * Aparecer a si mesmo diretamente, além de todo estatuto de ente eventual, como amado potencial e //amável// * "Amado" não funciona mais como adjetivo qualificando ente por seu modo de ser * Em regime de redução erótica confrontando a vaidade, não se pode assumir sem precaução "ser ou não ser, eis a questão" * Questão "amam-me de alhures?" substitui definitivamente à questão do ser * Não visa mais o ser, não se preocupa mais com a existência * Introduz em horizonte onde estatuto de amado ou odiado — //amável// — remete apenas a si mesmo * Perguntando se me amam de alhures, não se trata mais de inquirir primeiramente sobre asseguramento * Entrada no reino do amor * Recepção imediata do papel daquele que pode amar, que se pode amar, que crê que se deve amá-lo — o amante * Oposição amante versus //cogitans// * Amante destitui busca de certeza pela busca de asseguramento * Amante substitui questão "sou?" (e variante "sou amado?") pela interrogação reduzida "amam-me?" * Amante não é enquanto pensa, mas — supondo que deva ainda ser — é apenas enquanto o amam * Diferença fundamental: //cogitans// cogita para ser, exerce pensamento como meio de certificar seu ser * Amante não ama tanto para ser quanto para resistir ao que anula o ser — vaidade que pergunta "para quê?" * Amante ambiciona ultrapassar o ser para não sucumbir com ele ao que o destitui * Do ponto de vista do amante, do ponto de vista da redução erótica: ser e seus entes aparecem contaminados, intocáveis, irradiados pelo sol negro da vaidade * Trata-se de amar porque em regime de redução erótica nada não-amado ou não-amante se sustenta * Passagem do //cogitans// ao amante não modifica figura do //ego// para atingir mesmo objetivo por outros meios * Redução erótica destitui questão "ser ou não ser?" * Depõe questão do ser de sua carga imperial expondo-a à questão "para quê?" * Considera-a seriamente do ponto de vista da vaidade * Em redução erótica, onde está em jogo o amante, questão "o que é o ente (em seu ser)?" perde privilégio de questão mais antiga, sempre buscada, sempre perdida * Aporia da questão do ser não deriva de jamais tê-la atingido * Deriva de obstinar-se ainda e sempre em colocá-la em primeira posição * Questão do ser permanece — no melhor dos casos — derivada ou condicional * Nem primeira nem última, pertence apenas a filosofia segunda * Desde que outra questão — "para quê?" — a aflige * Desde que filosofia mais radical pergunta "amam-me de alhures?" * Inversão da atitude natural — naturalmente ontológica, naturalmente metafísica * Inversão cumpre-se apenas por redução de novo estilo: redução erótica * Questão: como se cumpre a redução erótica? * Como difere de outras reduções ou da atitude natural? * Como coloca em cena as coisas do mundo? * Retorno ao amante — aquele que se pergunta "amam-me?" * Segundo atitude natural: consideraria simplesmente todos os entes e o ente em geral * Em regime de redução erótica: constata que nenhum ente, nenhum //alter ego// nem ele mesmo pode fornecer menor asseguramento diante da questão "amam-me?" * Ente qualquer assegura tanto menos o amante quanto ele mesmo se expõe inteiramente à vaidade * Nenhum //alter ego// pode assegurar, pois seria necessário primeiro distingui-lo de ente do mundo — impossível neste momento da investigação * //Ego// não pode, por si mesmo, fornecer menor asseguramento diante da interrogação "amam-me de alhures?" * Por princípio, vaidade estende-se universalmente * Cumpre efetivamente a redução erótica sobre todas regiões do mundo e suas fronteiras * Necessidade de descrever brevemente vaidade e redução erótica seguindo três momentos privilegiados * Espaço * Tempo * Identidade do si