====== Os modos de doação ====== MarionDado * A doação pertence menos à fenomenologia, que a fenomenologia releva toda inteira da doação * Com efeito, a doação não oferece somente à fenomenologia um conceito entre outros, nem mesmo o ato privilegiado para aceder a ela mesma, abre-lhe também todo o campo da fenomenalidade * Pois nada aparece senão se dando ao olhar puro; e portanto o conceito do fenômeno equivale exatamente ao de uma doação de si em pessoa * A encenação do fenômeno se joga como a remessa de um dom * Quando se trata de fenomenalidade, tudo se decide, em última instância, por doação e a partir da doação absoluta, "termo último" * Regra posta, as dificuldades começam: pois se todo fenômeno se dá, a doação não se dilui ao infinito, perdendo em compreensão (doação em pessoa, absoluta, em carne) o que ganha em extensão? * A enumeração que conclui o ensaio de 1907 parece ceder a este perigo enumerando os "... diferentes modos da doação autêntica", enumera de fato quase todos os fenômenos possíveis * A doação da //cogitatio//; a doação da //cogitatio// sobrevivendo na lembrança recente; a doação da unidade de aparição que dura no fluxo fenomenal; a doação de sua mudança; a doação da coisa na percepção "externa"; a doação das diversas percepções da imaginação e da lembrança * Mas, acrescenta Husserl, "naturalmente também": as doações lógicas, a saber as do universal, do predicado, "etc."; e enfim "a doação de um não-senso, de uma contradição, de um nada, etc." * Deve-se espantar da amplitude de uma recensão que recobre não somente as duas faces do fenômeno (//cogitatio//, "coisa"), mas também suas variações extremas (temporais, imaginativa, de uma parte, de outra lógica, até o absurdo)? * Ou antes do acréscimo que prometem os "etc." e do caráter altamente problemático da determinação suposta unificá-los? * Certamente, trata-se sempre de conduzir os fenômenos reduzidos à sua doação, mas como a doação os dá — que estatuto comum, que figura estável e que realidade comum lhes confere, se deve cobrir tal campo, tangencialmente universal? * A esta interrogação essencial, Husserl responde, em um primeiro tempo, claramente: mesmo se todo fenômeno releva da doação, "... não se trata de modo algum de pretender [por isso] que [todas] as doações [...] sejam doações efetivas no sentido autêntico", nem que não possa surgir "... grandes dificuldades" para dirimi-las * Contudo, precisamente para distinguir os tipos de doação a cada vez em obra, é preciso ainda e sempre se apoiar "por princípio" sobre a doação, segundo a regra última de que "... tão longe quanto se estende a evidência efetiva, tão longe se estende a doação" * A "esfera de doação absoluta" não admite então exterioridade nem resto, mas mede ela mesma os graus que dela se afastam e só pode estigmatizar os eventuais aberrações de seu uso * A doação se erige em critério dela mesma como também do não dado, //index sui et non dati// * A doação repete o argumento da evidência em metafísica: toda crítica da evidência, como desprovida de critérios (lógicos, formais) só produz e só prefere estes porque oferecem uma mais segura evidência, reforçam-na e afinam-na, longe de dela se exceptar * Do mesmo modo desmascarar o não-dado, estimar o dado pobre ou fraco só se torna possível a partir da norma de uma doação absoluta e no horizonte que abre * E de fato, as descrições husserlianas das essências, das idealidades, das presentificações, dos não-sensos, obedecem a este único critério de discriminação * Exemplo perfeito desta prudência pode se ler nas //Ideias//, quando examinam "O método de clarificação. A consciência doadora. A 'proximidade de doação' e o 'afastamento de doação'" * Sobre o fundo de "uma espécie de vazio e de distante vago", parece a essência; sua apreensão admite "seus graus de claridade assim como o indivíduo que flutua diante de nosso olhar" * Se atinge "por assim dizer uma proximidade absoluta em relação a esta série de graus", então "sua doação (//Gegebenheit//) [...] é absoluta, isto é, uma doação de si pura (//reine Selbstgegebenheit//)" * E neste caso, é preciso opô-la, a título de "puro si dado (//rein gegebenes Selbst//), plena e inteiramente, tal como é nele mesmo", ao que "se teria somente 'em pessoa' diante do olhar e consciente como 'dado' (//als 'gegeben' bewusst//)" * A doação em pessoa pode permanecer uma simples consciência..., sem que a coisa (aqui uma essência) não se apresente absolutamente dela mesma, puramente e sem resto * É um modo de doação, que pensar em..., é outro de se encontrar em presença de — o que se dá * A doação admite então graus, não somente para os indivíduos, mas para as essências; não somente para as visões vagas, afastadas ou pobres, mas para as advindas em pessoa * Toda a empresa husserliana poderia mesmo se definir como uma classificação dos graus de doação * A acusação de ter deixado a doação em uma univocidade tão indeterminada, que a rebaixaria ao posto sem honra de uma metáfora, não se sustenta então * Mas esta resposta não dissipa contudo a dificuldade, sinaliza-a: pode-se tanto melhor, em vista desta prática dos graus de claridade, perguntar novamente o que a doação concede, em fato de estatuto, de figura e de realidade aos fenômenos que se dão por e nela * Dar-se, que é isto que dá? A esta questão, Husserl respondeu, implicitamente ao menos, embora com ambiguidade: o fenômeno se dá — também — como um ente * Longe de que se trate aí de uma evolução tardia da fenomenologia, a doação governa ou ao menos concerne, desde Husserl, os entes, e portanto sua entidade * Já se viu que a "...oposição entre a essência e a existência não quer mais dizer nada de outro doravante que [o fato] que aqui dois modos de ser (//Seinsweisen//) se anunciam e se diferenciam em dois modos de doação em pessoa (//zwei Modis der Selbstgegebenheit//)" * Além desta retomada de termos metafísicos, já se viu que "...no interior da esfera da redução fenomenológica, [...] as coisas são e são no aparecer, e em virtude do aparecer [são] dadas elas mesmas (//selbst gegeben//)" * Assim a redução das categorias metafísicas do ente a modos da doação se confirma pela explícita recondução do fato de ser ao fato de aparecer, e do aparecer ao dado em pessoa * Para ser, um ente deve aparecer, portanto se dar * Donde uma outra sequência: "Todo vivido intelectual e todo vivido em geral, contanto que se cumpra, pode se tornar o objeto de uma vista e de uma apreensão puras, e nesta vista é uma doação (//Gegebenheit//) absoluta. É dado como um ente (... //gegeben als ein Seiendes//), como um 'este-lá', do qual é um não-senso colocar a existência em dúvida" * Trata-se desta vez de passar do vivido e do aparecer à objetidade, para atestar enfim a doação * Para se dar, o aparecer deve ser a título de objeto * Nos dois casos o modo de ser do ente se determina então como seu modo de aparição — a partir da doação, mas a doação determina em contrapartida o aparecer como ente (um objeto) * Há mais: não somente o ente, mas o ser ele mesmo — enquanto ao menos se possa falar, em Husserl, de tal "ser ele mesmo" em sua diferença pensada com o ente — se declina segundo a doação * Assim, a percepção de um "este-lá" absoluto fornece "... algo sobre o que posso medir como sobre uma medida última o que ser e ser dado (//Sein und Gegebensein//) podem e aqui devem significar..." * Certamente, Husserl admite que esta equivalência entre "ser" e "ser dado" só vale para "...o tipo de ser e de doação que se exemplifica pelo 'este-lá'", parecendo assim duvidar que a presença subsistente de um //τόδε τι// ofereça o único, até o primeiro sentido do ser * Contudo, não fosse senão sobre este caso particular, coloca não obstante em toda claridade a equivalência do ser mesmo com o ser dado * Não se saberia negligenciar estas equações, nem considerar como uma aproximação sem consequência a determinação do ente, até do ser, pela doação * Primeiro porque o texto de 1907 guarda um papel eminente em toda a elaboração dos conceitos fundamentais da fenomenologia * Em seguida porque o alcance ôntico-ontológico da doação se confirma na outra operação determinante: a constituição * Husserl não hesita com efeito em pensá-la, também ela, sob a égide da doação: "E sobretudo, trata-se, não de estabelecer como dados (//gegeben//) fenômenos quaisquer, mas de tornar visíveis a essência da doação e a autoconstituição (//der Gegebenheit und des Selbst-konstituieren//) dos diversos modos de objetidade" * Que a constituição pertença ao império da doação, não se deveria aliás muito duvidar do simples fato de que se define como uma doação de sentido (//Sinngebung//), desde 1907 e definitivamente a partir de 1913: não é evidente com efeito que "toda realidade seja [um ente] por meio de uma 'doação de sentido'" * Tornar-se um ente depende de um sentido atribuído pelo jogo da intenção e da intuição, mas esta atribuição, que somente provoca um ente dotado de sentido, ainda só lhe advém por doação