====== Verdade ====== //MARION, Jean-Luc. Au lieu de soi: l’approche de saint Augustin. Paris: Presses universitaires de France, 2008.// **A Verdade, ou o Fenômeno Saturado** * O desejo pela vida bem-aventurada, ou mais exatamente o desejo como modo de pensamento daquele que se torna amante, revela-se como o princípio da busca, mais radicalmente do que o próprio eu, e o certum et inconcussum quid não reside na autocerteza do ego pensante, mas no desejo incondicional pela vita beata, que impõe seus próprios rigores e exige uma verdade que seja desejada e amada. * A união entre a beatitude e a verdade, que demanda nada menos que Deus, torna-se o cerne do desejo, e a questão que se coloca é se o desejo pode evitar cair sob o controle da teoria, que organizaria mesmo o ético e a vontade, e se a verdade, tal como Agostinho a concebe, não seria uma invasão da filosofia grega no projeto cristão da confissão. * A objeção de Heidegger de que Agostinho não teria os meios fenomenológicos para atingir seu objetivo especulativo, devido ao status ainda teórico e objetivante do acesso a Deus, baseia-se na suposição de que Agostinho manteve uma definição de verdade ela mesma teórica, o que pode ser contestado se a verdade do desejo não se deixar confinar ao domínio da teoria. * Três argumentos sustentam que Agostinho, de fato, buscou uma verdade não-teórica: a vita beata repousa apenas sobre si mesma, sem pressupor a disponibilidade de qualquer objeto presente de desejo; o desejo sobrevive à contradição lógica entre o fim e os meios para alcançá-lo; e o desejo não pressupõe o conhecimento do que ama, mas o precede e o gera. * A verdade, quando não reduzida à sua interpretação teórica, caracteriza-se por seu excesso, que impõe àquele que a recebe a escolha de como responder a ela, seja pelo amor que suporta esse excesso ou pelo ódio que o recusa, de modo que a verdade provoca dois efeitos contrários naquele que a experiencia: o amor e o ódio. * O excesso de evidência da verdade não se limita a manifestar um estado de coisas, mas força uma decisão a seu respeito, e essa decisão, ao recusar ou aceitar a evidência, não muda o mundo das coisas, mas muda a própria pessoa, estabelecendo um modo radical de sintonia, amor ou ódio. * A verdade, em seu aspecto redarguens, desconcerte ao colocar a pessoa diante de si mesma, e a recusa da verdade não leva a apagá-la, mas a tentar não vê-la ou, melhor, a tentar não se ver iluminado por ela, escondendo de si mesmo o fato de que não se pode esconder dela. * A escolha, portanto, não consiste em deixar-se acusar ou não pela luz, pois a luz acusa por definição, mas em identificar-se com o que é acusado ou em desapegar-se disso, e a verdade, no excesso irrecusável de sua evidência, só pode ser vista e aceita por aquele que a ama e que, portanto, também pode odiá-la. **16. A exigência da vita beata** * A objeção de que Agostinho teorizaria a vita beata pelo conhecimento da verdade baseia-se no pressuposto de que ele manteve uma definição de verdade ela mesma teórica, o que pode ser contestado se a verdade do desejo não se deixar confinar ao domínio da teoria, e a certeza universal do desejo pela beatitude é estabelecida precisamente porque não depende das diferenças em seu modo de fenomenalização. * A fenomenal indeterminação dos modos de acesso à vita beata e a Deus não leva necessariamente a considerá-los como objetos de conhecimento, pois o desejo não precisa conhecer seu objeto, nem mesmo Deus como Ser ou ente, para desejar nele a vita beata. * A contradição teoreticamente patente entre o desejo pela vida feliz e a recusa das condições para adquiri-la não afeta o desejo, pois este não se governa pela lógica teórica, mas impõe-se por si mesmo como um fato da razão prática, incondicionalmente. * O princípio de que ninguém ama o que ignora é corrigido pela noção de que o desejo, que é uma espécie de amor, precede o conhecimento e o gera, e a beatitude, como imemorial na memória, é conhecida sem ser compreendida, escapando ao modo exclusivamente teórico da mente. **17. A verdade de dupla ação** * A verdade em seu sentido não-teórico se caracteriza por seu excesso, que impõe àquele que a recebe a escolha de como responder a ela, e o amor e o ódio tornam-se os modos pelos quais se pode suportar ou recusar esse excesso, de modo que a verdade não é apenas julgamento sobre as coisas, mas também um veredito sobre a própria pessoa. * A verdade provoca dois efeitos contrários: o amor, quando brilha e é aceita, e o ódio, quando acusa e é recusada, e esta dupla ação decorre da mesma evidência da verdade, que incita tanto a aceitação quanto a rejeição. * A recusa da verdade não consiste em apagá-la ou obscurecê-la, mas em tentar não se ver iluminado por ela, escondendo de si mesmo o fato de que não se pode esconder, e a verdade, ao manifestar-se, acusa as deformidades e impõe uma escolha entre identificar-se com o que é acusado ou desapegar-se disso. * A luz divina, ao acusar o pecado, não persegue nem condena, mas simplesmente irradia, e a escolha consiste em aceitar a acusação e, ao confessá-la, libertar-se dela, ou em odiar a luz por continuar a acusar a deformidade que se ama. **18. O ódio à verdade** * O ódio à verdade não é uma mera questão marginal, mas uma possibilidade real, na qual a verdade, em vez de ser amada, é odiada por aqueles que não querem ver seus atos condenados, e o ódio à verdade atesta o ódio a si mesmo e a contradição do eu consigo mesmo. * A hipótese de odiar a verdade só pode ser dirigida contra um testemunho que se identifica com a verdade que anuncia, e que se apresenta como a verdade encarnada, o que torna a questão do ódio à verdade epistemologicamente cristológica e teológica. * O ódio à verdade não se dirige ao mensageiro ou ao testemunho, mas à própria verdade que se torna seu próprio mensageiro, e a recusa da verdade implica uma defesa da falsidade, que leva a um ódio da verdade na medida em que ela condena os atos que se quer preservar. * A contradição entre o desejo pela vida feliz e a recusa das condições para alcançá-la, e o ódio à verdade que acusa os próprios atos, revela que o conhecimento da verdade não é suficiente para admiti-la, e que a verdade só pode ser vista e aceita por aquele que a ama. **19. O excesso evidencial** * O modo de manifestação da verdade, que incita o ódio, caracteriza-se pelo excesso de intuição, que se desdobra em quatro estágios: o excesso de evidência que fere e atesta o sofrimento pela desproporção entre a intensidade da intuição e a resistência de quem a ela se expõe. * No segundo estágio, a dor diante do excesso da verdade leva à recusa do sofrimento, e a fraqueza do olhar, que não pode fixar a visão, envia de volta à obscuridade habitual, mantendo apenas uma memória amorosa. * No terceiro estágio, a fuga da verdade proporciona um alívio, e o prazer de se esquivar da verdade leva à sua repudiação, negando-lhe o próprio estatuto de verdade, numa lógica invertida que recusa o que, no entanto, se vê. * O quarto estágio consiste na escolha inevitável entre fugir da verdade, para evitar sua dor, ou confrontá-la, para vê-la, e a ambivalência constitutiva da saturação obriga a pessoa a escolher, seja para defender a falsidade, seja para confessar a verdade. **20. O amor à verdade** * O primeiro movimento da verdade consiste em remeter a pessoa a um julgamento sobre si mesma, tornando-se uma provação, e a não-verdade não consiste na falsidade ou no erro, mas na fuga a essa provação, no mentir, que não nega a verdade, mas a falsifica, pretendendo possuí-la sem recebê-la. * A mentira não inverte a verdade nem a obscurece, mas perverte seu modo de manifestação, substituindo um pronome possessivo por outro, e a diferença reside no "como" do olhar hermenêutico, que vê a beleza como um dom a ser recebido ou como um bem a ser apropriado. * A contradição do desejo, ao querer se apropriar da beleza, leva à perda do bem, que se evapora ao ser possuído, e a alma, ao se apegar a um bem menor, confunde-se e concreta-se com ele, tornando-se menos do que si mesma. * O mentiroso não repudia a verdade, mas quer mantê-la intacta e compatível consigo mesmo, e o ódio à verdade ainda testemunha, de modo radical, um amor invertido pela verdade, pois o mentiroso quer transformar o que ama em verdade aparente para opor verdade à verdade. **21. A verdade de terceira ordem** * A substituição do desejo de conhecimento pelo desejo de beatitude assume todo o seu alcance, e a verdade torna-se desejável e desejada porque o gozo nela constitui a beatitude, e o amor à verdade é a condição de possibilidade para conhecer a verdade, que se manifesta como beleza e como aquilo que se ama. * A verdade como correção de uma asserção, na qual o intelecto julga e constitui a verdade, não exige amor, pois a pessoa permanece o juiz final da verdade e não é diretamente afetada por ela. * A verdade como desencobrimento, na qual a coisa se fenomenaliza por si mesma, depende do Dasein como condição de possibilidade, e a pessoa ainda não precisa amar ou odiar a verdade, mas apenas realizá-la ou não. * A verdade de terceira ordem, na qual a verdade se manifesta apenas na medida em que é amada, e o ódio basta para encobrir essa manifestação, é uma verdade erótica, onde o amor dá a resistência necessária para receber o golpe da verdade em seu choque inevitável. * Pascal, Nietzsche, Wittgenstein e Levinas, cada um a seu modo, retomam a doutrina agostiniana de que o amor é condição epistemológica para o conhecimento da verdade, opondo à verdade não o erro ou a falsidade, mas a mentira, e compreendendo a verdade como veracidade ou sinceridade, como o próprio ato de dizer. **22. A verdade amada: pulchritudo** * Se a verdade deve ser amada para ser conhecida, então ela deve aparecer como amável, e Agostinho pensa a verdade na medida em que é amável com o nome de beleza, de modo que a sabedoria dos filósofos, mesmo quando verdadeira, deve ceder à verdade bela, que é amável ou odiável. * O amor à verdade, compreendido a partir da questão do amor e não mais do horizonte do Ser, não serve para a definição da filosofia, mas para a sua transgressão, e o amor não é apenas uma preparação provisória para a posse da verdade, mas o operador último e talvez único da abertura à verdade. * O atraso em amar a beleza resulta da relutância e do recuo diante do excesso de luz imposto pela verdade, e para compensar esse atraso, é necessário retornar da ausência à presença e expor-se a suportar a evidência da verdade, o que só pode ocorrer vendo-a como beleza e, finalmente, amando-a. * A beleza, no entanto, toma o passo que a pessoa não pode dar em sua direção, atraindo-a com uma sedução suficientemente forte para fazê-la confessar seus pecados, e a beleza, que é "tam antiqua et tam nova", nunca deixou de fazê-lo, chamando a pessoa e despertando seus sentidos para a verdade. * A doutrina do amor à beleza, uma filocalia radical, é apresentada por Agostinho como um corretivo essencial para a filosofia, e a beleza não se limita a um domínio particular da experiência, mas assegura para o mundo em sua totalidade o modo de sua redução erótica, na qual a verdade pode ser conhecida na medida em que é amada. * A beleza abre e torna-se ela mesma um caminho que atravessa toda a criatura, propondo-a a ser vista como seu Criador a vê, e ao mesmo tempo, transgredindo-a em direção à beleza absoluta do verdadeiro, de modo que as coisas aparecem belas apenas na beleza absoluta, assim como se mostram verdadeiras apenas na verdade absoluta. * O último passo é que a própria pessoa se torne bela através da própria beleza, pois para conhecer a verdade na medida em que é amável, é necessário que a pessoa se una a ela e se torne o que ela dá a ver, e a questão da verdade torna-se a questão da vontade de amar a verdade. {{tag>Marion}}