====== Idipsum ====== **Adição: Idipsum, ou o Nome de Deus** * A questão dos nomes de Deus é incontornável para qualquer teólogo cristão, e a proliferação infinita de nomes divinos, que são todos, em certo sentido, adequados a Deus, uma vez que nenhum o nomeia adequadamente, constitui o primeiro passo indispensável na sua instituição. * A invocação que abre as //Confissões// enumera múltiplos nomes de Deus, tanto pela via positiva quanto pela negativa, mas mostra que nenhuma delas tem validade por si só, pois Deus supera tanto a negação quanto a predicação, sendo necessário passar a uma outra ordem de enunciação, que opera no louvor, que invoca Deus no vocativo. * A lista de nomes escolhidos para o louvor mostra que nenhum nome único basta para nomear Deus, pois ele foge a toda definição e é louvado como incompreensível, e a incompreensibilidade exige um número infinito de nomes, porque os qualifica paradoxalmente, abrindo para eles um sítio próprio. * O termo "Ser" nunca aparece na invocação que abre as //Confissões//, o que contradiz a interpretação majoritária de que Agostinho define Deus pelo //esse//, e a questão que se coloca é se há uma incoerência de Agostinho ou uma dificuldade dos seus leitores modernos. **44. A questão dos nomes de Deus** * A tradição que, desde Orígenes, privilegia o nome que Deus dá a Moisés, "Eu sou o que sou" (Êxodo 3,14), é retomada por Agostinho, que vê nesta formulação tautológica algo como o nome próprio de Deus, ou pelo menos o nome por excelência. * Agostinho chega a identificar Deus com o Ser, ao ponto de dizer que ele é o próprio //ipsum esse//, e o desejo dos que não são eles mesmos visa o //ipsum esse//, que aparece como a figura do //Sum qui sum// quando se dá ao desejo do resto das coisas que não são Deus. * A duplicação de //esse// em //ipsum esse// é repetida numa segunda duplicação, de //ipsum esse// em //idipsum esse//, e o //ipsum esse// é uma característica essencial daquele que só pode ser dito com o nome de Êxodo 3,14, o que parece autorizar uma interpretação tomista //avant la lettre//. * A conclusão de que o nome mais próprio de Deus é o //ipsum esse//, como em Tomás de Aquino, deve ser contestada, não pela autenticidade dos usos agostinianos, mas pela relação destes termos com um outro termo que Agostinho prefere usar para denominar Deus, o //idipsum//. **45. A resposta comum** * O //idipsum// é o termo mais próprio de Agostinho, pois designa o "aquilo mesmo" para o qual ele dirige a sua intenção na contemplação de Óstia, e é também a designação da aclamação litúrgica do //Sanctus//, onde Deus é louvado como "o mesmo, o mesmo, o mesmo". * O //idipsum// é um pronome demonstrativo puro, que não define nem nomeia, mas indica, e pode ser aplicado a todos os nomes para passar além deles, marcando que, seja o que for que um nome possa significar, ele sinaliza para aquilo que nenhum nome poderá nomear. * A maioria dos tradutores, no entanto, traduz //idipsum// por "Ser mesmo" ou "Ser em si", substituindo inconscientemente o termo agostiniano por uma interpretação metafísica que não se encontra no texto, e esta confusão é tão generalizada que se tornou um hábito. * Esta substituição não é um descuido, mas resulta da decisão tomista sobre o nome mais próprio de Deus, que determina a compreensão da denominação agostiniana, e a questão é saber se a interpretação "metafísica" do //idipsum// pode reivindicar alguma autoridade. **46. Traduzir //idipsum// por atração** * Há um argumento muito pertinente para suspender a interpretação metafísica da fórmula //idipsum//: a sua proveniência bíblica, pois o termo vem directamente de uma citação do Salmo 121,3, que descreve a solidez e a coerência de Jerusalém, e o "participar nela" é o "aquilo mesmo" que se deseja alcançar. * O //idipsum// é autorizado por uma exegese bíblica literal como uma denominação rigorosa de Deus, sem lhe impor qualquer determinação, especialmente ontológica ou metafísica, e o //idipsum// não é equivalente ao //ipsum esse//, mas resiste-lhe e afasta-o. * O //idipsum// permanece radical e definitivamente apofático, não diz nenhuma essência e não atinge nenhuma definição, e todo o seu privilégio como nome mais próprio vem, paradoxalmente, do seu vazio patente de significação. * Com base na sua apofase definitiva, o //idipsum// pode ainda ser definido, embora por uma definição que é precisamente negativa, e o que faz a diferença entre o //idipsum// e tudo o que não é a coisa mesma não reside no Ser, mas na oposição entre os modos de ser, mutável ou imutável. **47. O silêncio do //idipsum//** * O Êxodo 3,14 entra em jogo apenas depois do //idipsum// e a seguir à sua apófase, de modo que este, longe de ser idêntico a ele ou de se esbater nele, engloba e dá o seu significado ao //Sum qui sum//, que já não admite ser traduzido por //ipsum esse//. * O //Sum qui sum// indica a imutabilidade divina, em oposição a tudo o resto que cai na nulidade, e a imutabilidade, não o Ser, designa a diferença de Deus, com uma imutabilidade que é marcada pela equivocidade do Ser, sem medida entre ele e todo o resto. * O Êxodo 3,14 é atribuído não só a Deus Criador, mas também a Cristo, ao Filho visível, ao Deus kenótico, e a imutabilidade do modo de ser de Deus pode passar para a mutabilidade do modo de ser da humanidade, assumida por Cristo. * O nome mais próprio de Deus, //idipsum//, é caracterizado como apofático, marcando a sua transcendência pelo privilégio da imutabilidade, e interpretando o //ipsum esse// a partir do //Sum qui sum// (e não o inverso) fora do horizonte do Ser, mas na perspectiva da divinização por Cristo. **48. //Sum qui sum//, ou a imutabilidade** * A diferença entre o imutável e o móvel torna-se uma diferença indiretamente ontológica, a dos modos de ser dos entes, e organiza o ser como um todo a partir da distinção entre o criado e o Criador, que é mais originária. * A hierarquia dos seres é traduzida e lida nos níveis da hierarquia da imutabilidade, e o //Ego sum qui sum// faz com que aquilo que não é absolutamente, isto é, imutavelmente, mesmo sendo, finalmente não seja. * O //idipsum// pode por vezes ser designado directamente pela imutabilidade, sem passar por uma determinação vinda do Ser, e Deus nomeia-se //Sum qui sum// porque se atesta primeiro imutável, e não o contrário. * A eternidade determina o //esse//, e não o inverso, e o Êxodo 3,14 não conduz ao //ipsum esse//, nem a uma "metafísica do Êxodo", porque, pelo contrário, ele é compreendido a partir do //idipsum// do Salmo 121. * O //idipsum// permite pensar a diferença entre Deus e a sua criação sem passar por uma diferença ôntica, sem a inscrever no horizonte do Ser, e mesmo quando Agostinho usa o //ipsum esse//, ele nunca se preocupa com o Ser. {{tag>Marion}}