====== Presente e Dom ====== //MARION, Jean-Luc. Dieu sans l’être: hors-texte. Paris: Fayard, 1982.// **O PRESENTE E O DOM** * A reflexão sobre a Eucaristia configura-se como uma tarefa inevitável e instrutiva, na medida em que este sacramento, ao realizar a lógica da encarnação e congregar a Igreja, torna-se o teste definitivo para qualquer sistematização teológica, desafiando a própria capacidade de pensamento ao reunir em si o mais concreto e o menos inteligível da vida cristã. * O ímpeto de "explicar" a Eucaristia, no entanto, incorre em uma ingenuidade multiforme, pois tende a reduzir o mistério da caridade a um sistema conceitual racional, como uma "física eucarística", seja ela de ordem física, semiótica ou outra, correndo o risco de substituir o dom por uma ídolo conceitual. * A busca por uma explicação, mesmo teológica, revela uma incapacidade fundamental para receber o dom, uma vez que um dom não se explica primordialmente, mas se acolhe, e a tentativa de submetê-lo a um sistema racional trai a perda de um reflexo teológico primordial. * A explicação teológica deve ser compreendida, portanto, não como uma elucidação racional, mas como uma luta, à semelhança de Jacó com o anjo, onde o que está em jogo é o reconhecimento e a bênção, e onde o próprio aparato teórico deve se deixar criticar pelo mistério que busca abordar, a fim de alcançar a dignidade do seu objeto. * A presença eucarística do Cristo, como caso exemplar, exige uma autocrítica conceitual radical e impõe o renovamento das normas do pensamento, pois a teologia não tem a objetividade da ciência e deve ser conduzida a partir das exigências místicas do seu objeto, que não é um objeto. **1 - UMA OU OUTRA IDOLATRIA** * A crítica usual à teologia da transubstanciação, que a acusa de empregar conceitos metafísicos superados, como substância e acidentes, é historicamente imprecisa e superficial, pois tais termos têm origens e validações que não se reduzem à metafísica grega, e a teologia de Tomás de Aquino não é o fundamento dos dogmas, mas sim posterior e corrigida por eles. * Mesmo que a crítica histórica seja refutada, permanece a objeção mais grave de que a transubstanciação fixaria a pessoa de Cristo em uma coisa disponível, levando a uma idolatria material onde Deus é "colocado em uma caixa" e manipulado pela comunidade, como um ídolo mudo e tutelar. * As tentativas de superar essa suposta idolatria por meio de modelos de transignificação e transfinalização, no entanto, são neutras e podem ser integradas à teologia tradicional, a menos que se decida que as novas significações e finalidades sejam determinadas pela comunidade e não pelo próprio Cristo in persona Christi. * Se a comunidade se torna a instância que determina as significações e finalidades eucarísticas, a presença não é mais um dom recebido, mas uma conquista da consciência coletiva, onde "Deus" reconhece as suas próprias significações, e a comunidade, em vez de encontrar o Cristo, encontra apenas a si mesma em seu "caminhamento". * Nesta perspectiva reducionista, a presença eucarística depende inteiramente da atenção e da consciência do grupo, que a produz e a consome, tornando a adoração perpétua impossível e a liturgia, em última instância, inútil, pois um gesto ou olhar basta para a tomada de consciência comunitária. * O perigo real, portanto, não é a suposta "coisificação" de Deus na hóstia, mas a idolatria espiritual que reduz a presença eucarística à consciência imediata da comunidade, eliminando a mediação real e tornando a própria consciência, sem objeto exterior, a única verdadeira presença "real". **2 - A CONSCIÊNCIA E O IMEDIATO** * A dependência da presença eucarística em relação à consciência humana e ao presente desta implica uma dupla redução: o dom de "Deus" depende da atenção momentânea da comunidade, e a adoração perpétua é invertida, pois a presença não mais suscita a atenção, mas é regida pelas intermitências da consciência que crê governar o dom. * A crítica que se pretendia anti-idolátrica revela, portanto, o triunfo da idolatria espiritual, onde a consciência comunitária, ao tornar-se imediatamente a presença do Cristo, abole todo o distanciamento e se coloca como a ídolo indepassável. * Hegel via nessa ausência de mediação real a superioridade do luteranismo sobre o catolicismo, e sua crítica serve para demonstrar, a contrario, que apenas a presença real, garantida por uma coisa independente da consciência, é capaz de evitar a mais alta idolatria, ao opor a Deus como uma efetividade exterior ao espírito consciente de si. * O que a hóstia consagrada impõe ou permite, ao contrário do que pensava Hegel, é a distância que impede a consciência de se fechar sobre si mesma, exigindo que ela se exceda para fora de si em direção a uma alteridade que ela não controla. **3 - TEMPORALIDADE METAFÍSICA OU CRISTICA** * A idolatria da consciência imediata se consuma na redução da presença eucarística ao presente da consciência, que pensa o tempo a partir do instante fugidio e disponível, o que constitui o "conceito vulgar do tempo" próprio de toda a metafísica, de Aristóteles a Hegel. * Esse primado metafísico do presente, como o "aqui e agora" da disponibilidade ôntica, submete a presença eucarística às mesmas normas que qualquer ente, reduzindo o passado e o futuro a meras negações do presente e garantindo à consciência uma posse objetiva do que está presente. * A ironia é que a concepção que critica a transubstanciação como metafísica é a que mais plenamente submete a Eucaristia à metafísica, pois faz triunfar o primado do presente da consciência e o "conceito vulgar do tempo", mostrando que não basta ignorar a metafísica para superá-la. * Torna-se necessário, portanto, pensar a presença eucarística sem ceder à idolatria, seja ela a da coisa, da consciência de si ou do tempo metafísico, o que não implica uma "teologia sem metafísica", mas exige que a presença seja compreendida a partir do presente como dom, cujas dimensões são determinadas pelo próprio dom e não pela consciência. * A temporalidade do dom eucarístico não se temporaliza a partir do "aqui e agora", mas como memorial (passado), anúncio escatológico (futuro) e cotidianidade (presente), de modo que o presente, ao contrário do conceito metafísico, não comanda a análise da temporalidade, mas resulta dela. **4 - O MEMORIAL** * A temporalização a partir do passado se dá no memorial eucarístico, que retoma a bênção judaica não como uma simples lembrança subjetiva de um fato passado, mas como um apelo a Deus para que Ele se lembre da sua aliança, de modo que o evento passado, longe de ser um não-presente, determina o hoje como uma realidade decisiva e atual. * O memorial eucarístico não comemora a morte de um morto, mas se apoia em um evento cuja realidade passada, a paixão e ressurreição, não desapareceu, para pedir com insistência, numa impaciência escatológica, que o Cristo retorne, governando tanto o futuro quanto o presente. * O presente não se opõe mais ao passado como uma suficiência clara, mas se vê radicalmente determinado por ele, pois se o Cristo não ressuscitou, a fé é vã e o presente permanece nos pecados, mostrando que a realidade do presente está condicionada por um passado que não cessa de o reivindicar. **5 - A ÉPECTASE** * A temporalização a partir do futuro mostra que o memorial visa a Parusia, e o "até que ele venha" não é um mero adiamento, mas um apelo que pede e apressa o retorno do Cristo, de modo que o futuro governa, atravessa e polariza o dom eucarístico como uma tensão (epekteinomenos) para o que está por vir. * A épectase escatológica se manifesta na tradição ao dizer que a Eucaristia é a "primícia da nova criação", o "penhor" (pignus) do corpo ressuscitado, e o "remédio da imortalidade" que introduz à vida eterna, antecipando sobre o nosso modo de presença e superando a nossa atenção. * A Eucaristia é, portanto, a "figura nossa" (figura nostra), a antecipação do que seremos e veremos, um dom que nos ultrapassa e nos chama para fora de nós mesmos, na medida em que a nossa carne, ainda corruptível, não pode ver a glória que já nos é dada em penhor. **6 - AO DIA-A-DIA** * O memorial e a épectase atravessam o presente, determinando o seu "entre-dois" como um dom que deve ser recebido a cada dia, à imagem da maná, que não pode ser acumulado, e o "pão nosso de cada dia" da oração do Pai Nosso é o próprio Cristo, que nos é dado no instante presente. * A cotidianidade do pão, que é "de um só dia" segundo Máximo, o Confessor, garante contra a posse do presente, pois o tempo, como o presente eucarístico, não é uma permanência contínua, mas uma sucessão de dons instantâneos que, a um olhar sem caridade, parecem confundir-se em uma permanência aparente. * A permanência do pão e do vinho consagrados não é uma subsistência metafísica, mas a forma como a caridade se manifesta a um olhar que não tem lucidez suficiente para perceber que o dom se renova a cada instante, exigindo uma recepção sempre nova. **7 - O DOM DA PRESENÇA** * A teologia da transubstanciação é privilegiada porque, ao afirmar a persistência do Corpo e do Sangue para além da atenção consciente, preserva a distância necessária para que o Outro nos convoque, e essa persistência não se explica pela permanência metafísica, mas pela lógica do dom de amor, que se deduz da caridade. * O presente eucarístico se deduz da caridade, pois o Cristo se arrisca nas espécies do pão e do vinho como uma condescendência do amor, para continuar a se dar sem retorno, e essa dedução se funda no "até o fim" da paixão, onde a permanência do dom é a prova de uma doação irrevogável. * O presente eucarístico também se deduz do corpo eclesial que ele visa construir, pois a matéria consagrada não é um fim em si mesma, mas um sacramento para a Igreja, de modo que a transubstanciação visa a transformação do comunicante no corpo espiritual do Cristo. * A realidade mística do presente eucarístico é a sua verdade mais profunda, pois o "corpo místico" não é menos real, mas mais real que o corpo físico, e a teologia da transubstanciação, longe de se ater à materialidade, busca por ela a "res" mística do Corpo e do Sangue. * A contemplação eucarística, entendida como uma "explicação" que é uma luta e uma oração, é o caminho para que o olhar se converta e a mente se transforme, pois só na oração se torna possível modificar o pensamento teológico diante da exigência do dom e da distância que ele estabelece. {{tag>Marion}}