====== O motivo fenomenológico da confrontação originária com Descartes ====== MarionRD * A confrontação heideggériana com Descartes ocorre num contexto onde a fenomenologia husserliana já havia estabelecido uma ligação essencial com o pensador moderno, investindo-o de uma dignidade fenomenológica. * Esta ligação é evidenciada pelo curso de Husserl no inverno de 1923/24, que via em Descartes um "gênio filosófico" que lançara as "sementes da filosofia transcendental". * O encontro entre fenomenologia e Descartes antecede Heidegger, remontando pelo menos às conferências de Göttingen de 1907. * Consequentemente, para Heidegger, qualquer discussão sobre Descartes implica necessariamente uma discussão com Husserl, pois este legitimou teoricamente as teses cartesianas. * Esta equivalência estabelecida por Husserl pode ser desdobrada em duas direções opostas. * Uma direção positiva: Descartes é fenomenólogo porque antecipa Husserl. * Uma direção crítica: a fenomenologia husserliana não é plenamente fenomenológica porque permanece prisioneira de decisões cartesianas não criticadas. * Heidegger segue desde cedo a segunda direção, utilizando a crítica aos pressupostos cartesianos como via para se distanciar da interpretação husserliana da fenomenologia. * Descartes torna-se, assim, o //motivo não-fenomenológico// interno à fenomenologia de Husserl. * A crítica imanente desenvolvida no verão de 1925 nos //Prolégomènes// [GA20] aplica a Descartes e a Husserl a mesma questão fundamental. * A questão dirigida a Husserl sobre a determinação do ser da consciência pura é formalmente idêntica à questão dirigida a Descartes sobre o sentido do //sum// no //ego cogito//. * Tanto em Descartes quanto em Husserl, o estabelecimento de uma prioridade epistêmica (do //ego// ou da consciência) é um feito que, no entanto, deixa na sombra a determinação do //modo de ser// desse termo primeiro. * Husserl repete Descartes positivamente (na descoberta do fundamento da certeza) e negativamente (na esquiva da questão do ser desse fundamento). * A tentativa de Husserl de determinar o ser da consciência através de uma citação modificada de Descartes revela a profundidade de sua dependência e os limites de sua análise ontológica. * Husserl cita os //Principia Philosophiae// I, § 51, adaptando a fórmula cartesiana para definir o ser imanente como ser absoluto que //nulla "re" indiget ad existendum//. * Esta adaptação (omissão de //alia//, //res// entre aspas) busca evitar estender a //realitas// à //res cogitans//, mas prova a inadequação da determinação cartesiana para os fins de Husserl. * Em Descartes, a substancialidade aplica-se tanto à //res cogitans// quanto à //res extensa//, contrariando o privilégio husserliano da consciência. * Além disso, a substancialidade cartesiana é apenas relativa (depende de Deus), não absoluta como pretende Husserl. * Estes desvios textuais e conceituais demonstram que a convergência fundamental entre Husserl e Descartes era mais poderosa que qualquer divergência de detalhe. * Heidegger, ao analisar esta operação de Husserl, desmonta sua pretensão ontológica e revela o desvio fenomenológico que ela encobre. * A determinação husserliana do ser da consciência como "absoluto" não determina o ente mesmo em seu ser, mas apenas atribui à região consciência uma prioridade formal na ordem da constituição. * Mais radicalmente, Heidegger acusa Husserl de ter assumido uma //questão// cartesiana não legitimada fenomenologicamente. * A questão primeira de Husserl não era o caráter de ser da consciência, mas como a consciência pode tornar-se objeto de uma ciência absoluta. * Este ideal de uma ciência absoluta não é uma descoberta fenomenológica, mas a ideia tradicional da filosofia moderna desde Descartes. * Portanto, a elaboração do campo temático da fenomenologia não foi conquistada por um //retorno às coisas mesmas// (//Rückgang auf die Sachen selbst//), mas por um //retorno a uma ideia tradicional da filosofia//. * A crítica atinge seu ápice ao identificar Descartes como o obstáculo que impede a realização plena da fenomenologia. * A "afinidade" entre Husserl e Descartes designa um único obstáculo fenomenológico. * Para que a fenomenologia permaneça fiel a si mesma e avance, ela deve superar este obstáculo, o que implica não apenas deixar Husserl, mas "destruir" aquele que o reteve: Descartes. * A importância de Descartes para Heidegger deriva, portanto, da radicalidade fenomenológica da questão que ele //não// coloca. * Pensar Descartes, para Heidegger, não significa repetir ou inverter a instauração do //ego//, mas //destruí-la//. * Destruir o //ego// cartesiano não é aboli-lo onticamente, mas liberar sua dignidade ontológica, fazendo aparecer como fenômeno o modo de ser do //ego// (ou do que deve substituí-lo), distinto do modo de ser dos entes intramundanos. * Este gesto de destruição abre o acesso ao //Dasein//. * O privilégio de Descartes no pensamento de Heidegger é, em última instância, o de ser o obstáculo por excelência que impede a realização ontológica da fenomenologia, bloqueando-a no //ego// e mascarando, assim, o //Dasein//.