====== "… como os outros fenômenos …" ====== MarionDado * Torna-se doravante possível afrontar a aporia propriamente fenomenológica do "sujeito", que sustenta-se em uma deficiência única: seu modo de aparição permanece essencialmente determinado por aquele da objetidade * Com efeito, ao se reduzir a um "eu penso", o "sujeito" se focaliza sobre o objeto, do qual se faz exclusivamente o apresentador e o representante em virtude da essência da representação * A ponto de que, desde que quer se representar diretamente ele mesmo a ele mesmo, não dispõe mais de nenhuma outra possibilidade que assumir mais uma vez (e demais) a fenomenalidade mais pobre: a do objeto * "Eu penso" se ordena a tal ponto ao objeto, que ele mesmo não pode mais aparecer, nem se aparecer senão como um outro objeto, ou ao menos no horizonte da objetidade * Kant estigmatizou esta aporia sem nenhuma ambiguidade: "...como posso eu dizer: eu, como inteligência e sujeito pensante, eu me conheço eu mesmo como objeto pensado, na medida em que sou além disso dado a mim mesmo na intuição, [exatamente] como os outros fenômenos [//gleich anderen Phänomen//], [a saber] não como eu sou diante do entendimento, mas como eu me apareço — [esta questão então] não oferece em si nem mais nem menos de dificuldade que [saber] como eu poderia ser para mim mesmo em geral um objeto, e um objeto para a intuição e a percepção interna" * É preciso então bem concluir desta extraordinária sequência que eu sou então um objeto a mim mesmo, ou antes que Eu é um objeto, posto que deve me aparecer * Com efeito, pois que aparecer só admite uma modalidade, a da objetidade, Eu aparece "como os outros fenômenos", portanto como "em geral um objeto para mim" * Isto não faz "... nem mais nem menos de dificuldade" para meu próprio caso que para o de um fenômeno qualquer — "... //nulla difficultas...//" dizia já Descartes * A função de acompanhamento de toda representação, atribuída à representação de "eu penso" (ou "eu sou"), resulta de fato em uma ontologia e uma fenomenologia de imitação: eu só é e só aparece mais senão sobre o modo mesmo dos objetos, que devia simplesmente acompanhar e aos quais acaba de fato por se assimilar * Tal "eu penso" não pode então de modo algum pretender assegurar-se os caracteres próprios de uma verdadeira subjetividade * Kant tem perfeitamente razão: de seu "eu penso", não se pode derivar nem a personalidade, nem a simplicidade (nem tampouco a individualidade) * Mas, longe de que se deva desqualificar por isso estes caracteres como tantos paralogismos, poderia ao contrário que sua inacessibilidade mesma estigmatize definitivamente a impotência radical de toda fenomenalidade do objeto de fazer aparecer qualquer "sujeito" que seja * Ninguém melhor que Heidegger viu e denunciou esta insuficiência, a mesma em Husserl que em Kant: que o modo de ser e portanto de fenomenalidade apropriado ao que somente pode dizer Eu se encontra neles essencialmente falhado, porque sempre emprestado àquele do objeto * Para ultrapassar esta deficiência, Heidegger substitui ao "eu penso" o //Dasein//, tal que, na figura do cuidado [//Sorge//], identifica-se propriamente: "O //Dasein// torna-se 'essencial' na existência autêntica, que [ela mesma] se constitui como resolução antecipadora [//vorlaufende Entschlossenheit//]" * Convém então examinar se esta última determinação de seu sentido de ser permite ao //Dasein// ultrapassar o "sujeito", ou se devemos ainda dele esperar um outro * Não haveria certamente nenhum sentido em contestar que //Ser e Tempo// coloque não somente em causa o Eu transcendental kantiano (tal como poderia bem reaparecer em 1913), mas também o Eu fenomenológico no fundo mesmo que lhe atribuíam sem dúvida definitivamente as //Investigações Lógicas//, ao cumprir uma revolução radical * O "sujeito" não confessa mais por objetivo a objetivização do objeto, porque o instrumento último desta objetivização — a intencionalidade — não tem mais por tarefa constituir objetos, mas a de abrir um mundo * A intencionalidade constituidora de objetos certamente permanece, mas reduzida ao posto de um caso derivado da determinação fundamental, o ser-no-mundo afetando aquele que não está mais no mundo como um espectador, mesmo constituinte * Está nele como uma parte tomante, eventualmente tomada à parte por aquilo que lhe faz confronto * O mundo não se resume mais na soma dos objetos constituídos, pois ele mesmo não consiste em nada, nem mesmo de todo, mas abre-se em [fazendo tudo] um mundo * Este mundo não pode contudo assim se abrir, senão enquanto previamente incumbe ao //Dasein// fazer a abertura em geral por sua própria ekstase * Esta ekstase sustenta-se nisto que, longe de se fundar sobre sua essência ou de fundar sua essência sobre um substrato próprio (segundo as duas postulações, kantiana e aristotélica, da subjetividade), o //Dasein// é o ente para o qual está em jogo, a cada vez, nada menos que seu ser * Bem melhor: o ente para o qual, quando está em jogo seu ser, está em jogo também o ser de todos os outros entes * Parecida apropriação do ser ao eu — "O ser deste ente é a cada vez meu [//je meines//]" — não deve aliás se interpretar como uma sujeição do ser à figura do //ego//, menos ainda a um egoísmo transcendental (contra a crítica sem dúvida injustificada de Lévinas) * Resulta antes da impossibilidade feita aos outros entes de atingir seu ser e sobretudo da impossibilidade feita ao único //Dasein// de aceder ao ser diferentemente que nele se colocando propriamente em jogo na primeira pessoa — nele se arriscando como se expõe à morte * O ser se abre ao //Dasein// como a morte o afeta de possibilidade: em pessoa, em primeira pessoa, sobre o modo da insubstituibilidade * A "mienidade" do ser não indica mais que o eu subsistiria em uma subjetividade essencialmente inabalável, mas que o ser permanece inacessível ao //Dasein// (e portanto absolutamente velado) enquanto este não se arrisca a nele se expor sem reserva nem certeza, como à possibilidade da impossibilidade * O ser-para-a-morte concede então ao //Dasein// o que o "eu [me] penso" faltava sempre: a individuação insubstituível, a ipseidade irremediável * Aqui, pela primeira vez se encontra dissipada a principal ambiguidade do //ego// cartesiano, sua dualidade transcendental e empírica