====== A Aparência de um Cogito ====== MarionLS * //Confessio// não consiste primeiramente em ato (mesmo de linguagem, mesmo performativo), mas em disposição do confessante ao confessado * Na //confessio//, //ego// encontra sua condição e seu lugar * //Ego// torna-se ele mesmo na medida precisa em que responde a apelo sempre já lançado, mas jamais inteiramente recebido * Por louvor (da santidade de Deus) * Indissoluvelmente por confissão (das faltas que atentam contra santidade de Deus) * Questão: pode //ego//, em situação de dupla //confessio//, tomar posse de seu lugar próprio e aceder a si mesmo? * //Soliloquia// colocaram //ego// face a Deus como tudo o que sabedoria deseja conhecer * //Deum et animam scire cupio. Nihil ne plus? Nihil omnino// — desejo saber alma e Deus. Nada mais? Absolutamente nada mais * Dificuldade não reside tanto em conhecimento dos dois termos do desejo * //Nunc autem nihil aliud amo quam Deum et animam quorum neutrum scio// — não amo senão Deus e alma, que ignoro um e outro * Dificuldade reside em compreensão de sua relação * Acesso a Deus faz um com acesso da alma a si * Mais radicalmente: acesso a si mesmo passa, na disposição de //confessio//, por acesso a Deus que precede o //ego// * Como conhecer-se se isso implica primeiramente conhecer Deus? * Santo Agostinho não assegura que seja possível, mas duvida evidentemente * Não pede a Deus conhecimento que Deus tem do //ego// (incomunicável por princípio) * Pede conhecimento do //ego// por si mesmo (já impraticável por meios próprios) * Pedido feito por prece de onde procederá toda pesquisa conceitual futura * //Potestas nostra, ipse est. Itaque ora brevissime ac perfectissime, quantum potes. Deus semper idem, noverim me, noverim te. Oratum est// — Nossa potência é Deus mesmo. Ora tão breve e perfeitamente quanto possas. Deus sempre idêntico, faz que me conheça, faz que te conheça. Prece está feita * Prece e desejo não bastam para assegurar conhecimento de si por si, menos ainda conhecimento certo * Para atingi-lo, seria necessário argumento conceitual estrito * Argumento permitindo aceder a partir de si ao si mesmo * Argumento comparável ao que, desde Descartes, entende-se sob título de //cogito//: "Penso, logo sou" * Verdade firme e assegurada * Abriria acesso de si a si pelo pensamento * Basta exercer pensamento para entrar no lugar onde se encontra o si * Aproximação doutrinal com Santo Agostinho parece inevitável * Desde vida de Descartes, já parecia evidente a muitos * 1637: segundo testemunho do próprio Descartes, Mersenne aproximou espontaneamente tese do //Discours de la méthode// de texto de //De Civitate Dei// * //Nulla Academicorum argumenta formido dicentium: "Quid si falleris?" Si enim fallor, sum. Nam qui non est, utique nec falli potest; ac per hoc sum, si fallor// — Nada a temer dos argumentos dos Acadêmicos que perguntam: "E se te enganas?" Pois se me engano, sou. Com efeito, quem não é não pode absolutamente enganar-se; e por isso sou se me engano * 1641: publicação das //Meditationes//, Arnauld confirma imediatamente aproximação apoiando-se em passagem do //De Libero Arbitrio// * //Quare prius abs te quaero, ut de manifestissimis capiamus exordium: utrum tu ipse sis. An fortasse metuis, ne in hac interrogatione fallaris, cum utique si non esses, falli omnino non posses?// — Te perguntaria primeiramente de começar pelas coisas mais manifestas: tu mesmo, és? A menos que temas enganar-te sobre esta questão, sendo que, se não fosses, não poderias absolutamente enganar-te * 1648: Arnauld, tornado cartesiano convicto, confirma citando //De Trinitate// * //Mentem nosse se etiam cum quaerit se [...] cum se mens se novit, substantiam suam novit; et cum de se certa est, de substantia sua certa est. Nec omnino certa est, utrum aer, an ignis sit, an aliquod corpus, vel aliquid corporis. Non est igitur aliquid eorum [...] idque solum esse se certa sit, quod solum esse se certa est// — Espírito conhece-se mesmo quando se busca. Quando espírito se conhece, conhece sua substância; quando é certo de si mesmo, é certo de sua substância. Não é absolutamente certo se é ar, fogo, algum corpo ou algo de corpóreo. Não é portanto nada disso: tudo que lhe é necessário saber resume-se a isto: que seja certo de não ser nenhuma das coisas das quais não é certo, e que seja certo de ser apenas o que é certo de ser * Outros paralelos poderiam ser acrescentados * Versão curta do argumento que Descartes extrai diretamente da dúvida sem passar pela //cogitatio// * //Dubito ergo sum, vel quod idem est, cogito, ergo sum// — duvido logo sou, ou o que é o mesmo, penso logo sou * Eco bastante exato à certeza da própria dúvida tal como formulam outros textos agostinianos * //Quandoquidem etiam si dubitat, vivit; si dubitat unde dubitet, meminit; si dubitat, dubitare se intelligit; si dubitat, certus esse vult; si dubitat, cogitat; si dubitat, scit se nescire; si dubitat, judicat non se temere consentire oportere// — Mesmo se duvida, vive; se duvida da origem de sua dúvida, lembra-se; se duvida, compreende que duvida; se duvida, quer ser certo; se duvida, pensa; se duvida, sabe que não sabe; se duvida, julga que não lhe é necessário consentir imprudentemente * Diante de tantas aproximações, não se deve admitir que Santo Agostinho produz já, ao menos em esboço ainda nebuloso, argumento cartesiano do //cogito//? * Descartes mesmo não parece validar com "grande satisfação" este alto patronato? * Convém duvidar que Santo Agostinho antecipe //cogito// cartesiano * Duvidar por ao menos duas razões — aguardando que ao final se depreenda terceira, primeira em direito * Primeira razão: Santo Agostinho não acede ao //ego// certificando seu ser pelo exercício de sua //cogitatio// * Certifica sua vida pelo exercício da própria dúvida sobre esta vida * //Potesne, inquam, nobis dicere aliquid eorum quae nosti? Possum, inquit. Nisi molestum est, inquam, profer aliquid. Et cum dubitaret: Scisne, inquam, saltem te vivere? Scio, inquit. Scis ergo habere te vitam, siquidem vivere nemo nisi vita potest. Et hoc, inquit, scio// — Podes dizer-nos uma das coisas que sabes? Posso. Se não te incomoda, avança algo. E como estava em dúvida: não sabes ao menos que vives? Sei. Sabes portanto que tens a vida, pois ninguém pode viver senão pela vida. Isto sei * Como para Descartes, dúvida cede diante de evidência que nega e assegura simultaneamente * Trata-se, aqui e ao contrário de Descartes, de evidência da vida ou, mais exatamente, da vida em mim * Diferente de mim, mas sem a qual não seria, nem seria eu * Texto da maturidade desenvolve este afastamento radical muito nitidamente * //Quantum rerum remanet quod ita sciamus, sicut nos vivere scimus? [...] quoniam certum est etiam eum qui fallitur vivere [...] Sed qui certus est de vitae suae scientia, non ea dicit "Scio me vigilare", sed "Scio me vivere": sive ergo dormiat, sive vigilet, vivit. Nec in ea scientia per somnia falli potest [...] Mille itaque fallacium visorum genera objiciantur ei qui dicit "Scio me vivere": nihil eorum timebit, quando et qui fallitur vivit// — Quantas coisas restam que saibamos como sabemos que vivemos? Pois é certo que mesmo aquele que se engana vive. Mas aquele que sabe de ciência certa que vive não diz: "Sei que velo", mas: "Sei que vivo": portanto, que durma ou vele, vive. E os sonhos não podem enganá-lo neste saber. Podem-se objetar mil gêneros de visões falaciosas àquele que diz: "Sei que vivo": não temerá nenhuma, pois mesmo aquele que se engana vive * Diversos afastamentos entre Santo Agostinho e Descartes * Primeiro afastamento: certeza não recai tanto sobre ser quanto sobre vida * Segundo afastamento: certeza não se apoia tanto na instituição da //cogitatio// como essência da //res cogitans// quanto na contradição performativa de dúvida vivente * O que têm em comum estes afastamentos? * Segundo afastamento indica: para Descartes, experiência da dúvida que se contradiz atesta certeza do ato de pensar * //Ego// encontra aí sua essência de //res cogitans// * Ao contrário, para Santo Agostinho: dúvida não assegura espírito de nenhuma essência que poderia performar à vontade * Dúvida consigna espírito à vida, inabalável e inevitável, mas incontrolável * Cabe justamente ainda à vida determinar também primeiro afastamento * Para Descartes: certeza resulta no //esse//, mais exatamente no //esse// como primeiramente meu, em primeira pessoa, //sum// * Há ente indiscutível, inabalável, e é precisamente eu, //ego// * Ao contrário, para Santo Agostinho: certeza resulta na vida * Dela tiro meu ser, mas não sou eu mesmo primeiramente, embora só seja por ela * Ponto capital: nenhum vivente é sua própria vida * Todo vivente vive pela vida que não é, nem possui, e não por si mesmo * Ninguém vive por si mesmo * Santo Agostinho dizia literalmente: //vivere nemo nisi vita potest// — ninguém pode viver senão pela vida * Próprio de vivente consiste nisto: não possui sua própria vida, mas permanece seu locatário * "Viver" significa "viver provisoriamente" * Mais essencialmente: por procuração — em virtude da procuração que vida concede ao vivente * Se pode revelar-se certo que vivo, possuo certeza de viver apenas no instante preciso de minha vida presente * Sem nenhuma garantia de viver ainda instante seguinte * Justamente porque instante literalmente não é * Sou certo que vivo, sem ser jamais certo que sou enquanto vivente * Se vida constitui certamente minha essência, torna-se certo que minha existência não me é certeza, senão no instante * Que este instante se prolongue nada muda à constatação de fundo * Não sou por isso minha vida, mas vivo por procuração da vida * "Viver" significa certeza de não ter certeza de viver ainda * Ou antes: ter certeza de não viver por si * Viver dá apenas certeza de morrer * Apenas Vivente por excelência vive de si mesmo * Dois afastamentos fazem na verdade apenas um * Onde Descartes cumpre apropriação do //ego// a si mesmo (seu pensamento assegurando-o de si em seu ser como //res cogitans//) * Santo Agostinho consigna //mens// a sua vida (pela contradição da dúvida) apenas para expô-la a esta vida mesma * Esta vida não pertencendo por definição como minha * Posso apenas expor-me a ela como aquilo a que pertenço * Mais eu mesmo que eu e pelo que, desde este momento, me desaproprio de mim mesmo * Mesmo ato de //cogitatio// provoca dois resultados opostos * Num caso: apropriação do //ego// a si * No outro: desapropriação da //mens// a ela mesma * Segunda razão para duvidar que Santo Agostinho antecipe //cogito// cartesiano confirma primeira * Descartes mesmo reconheceu seu afastamento com Santo Agostinho * Contra evidência pretensa da aproximação e contra prestígio de tal autoridade, reivindicou-o às vezes sem ambiguidade * Carta sobre passagem de Santo Agostinho ao qual //je pense, donc je suis// tem alguma relação * Leitura de //De Civitate Dei// XI, 26 em biblioteca de Leiden * Santo Agostinho serve-se dele para provar certeza de nosso ser e fazer ver que há em nós imagem da Trindade * Em que somos, sabemos que somos, amamos este ser e esta ciência que está em nós * Descartes serve-se dele para fazer conhecer que este eu que pensa é substância imaterial e que nada tem de corpóreo * Duas coisas muito diferentes * Poder-se-ia sustentar que Descartes mesmo acaba por reconhecer na //res cogitans// imagem da Trindade * Permanece indiscutível que entende primeiramente estabelecê-la como //res intellectualis et intelligens// * Para encontrar aí princípio tão primeiro que precede mesmo conhecimento de Deus * Tomei ser ou existência deste pensamento por primeiro princípio, do qual deduzi muito claramente os seguintes: a saber, que há Deus * Trata-se bem, nos dois argumentos, de ligar pensar e ser * Não mais a propósito de Deus (como para tradição oriunda de Aristóteles) * Doravante também a propósito de espírito finito, logo denominado sujeito * Num caso: trata-se de começar pelo //ego// para deduzir existência, mesmo a de Deus, como a partir de primeiro princípio diferente deste Deus mesmo * No outro: trata-se de assegurar-se, pela dúvida e sua contradição, da //mens//, a fim de pesquisar fora dela condição de possibilidade, a vida * Oposição não pode dissimular-se * Joga-se entre apropriação de si pela equivalência do pensamento com ser (essência tanto quanto existência) * E desapropriação de si de vivente de vida outra que ele mesmo * Dois filósofos viram-no perfeitamente * Blondel: há contrassenso mais grave que aquele que consiste em descobrir influência de Santo Agostinho no //cogito// cartesiano? Jamais Agostinho teria podido sonhar em erigir seu pensamento em "rocha", em pôr-se como absoluto e no absoluto, em fazer do espírito tal como o conhecemos substância isolável e suficiente * Heidegger: vinho do pensamento de Agostinho foi diluído (//verwässert//) pela água que Descartes aí verteu. Certeza de si e ter-se a si mesmo (//Sich-selbst-Haben//) no sentido de Agostinho é algo completamente diferente da evidência cartesiana do //cogito// * Uma vez estabelecida esta oposição de fundo sob aparência de mesmo argumento, resta medir alcance e compreender o que está em jogo