====== NECESSIDADE DA ESPACIALIDADE (2006)====== //MALPAS, Jeffrey E. Heidegger’s topology: being, place, world. Cambridge (Mass.): mit Press, 2006// * **Distinção inicial e dependências múltiplas**: * A análise do "ser-em" distingue espacialidade de "contenção" (objetiva) e de "envolvimento" (própria do Dasein). * A espacialidade do envolvimento aponta para a análise mais fundamental do cuidado e da temporalidade. * Existem múltiplas relações de dependência: espacialidade existencial depende do cuidado/temporalidade; espacialidade instrumental depende da espacialidade existencial; espacialidade objetiva depende da espacialidade do mundo. * **O problema da orientação e a espacialidade corpórea**: * A prioridade do "para-o-qual" (futuro) na análise de Heidegger tende a ocultar o papel constitutivo da estrutura espacial da atividade. * A orientação no espaço (ex: oficina) requer compreender não só a finalidade dos instrumentos, mas também sua configuração espacial, relação com o corpo e suas capacidades. * A orientação espacial é sempre uma orientação corporal, envolvendo a assimetria corporal (direita/esquerda, frente/trás). * **O lugar do corpo em *Ser e Tempo***: * Heidegger reconhece a problemática do corpo ("a corporalidade do Dasein esconde um problema próprio"), mas a exclui da análise. * No quadro de *Ser e Tempo*, a corporeidade só pode ser entendida como determinada pelo ser-no-mundo (cuidado/temporalidade), não como espacialidade extensa objetiva. * A exclusão do corpo decorre do perigo que a espacialidade representa para a unidade do Dasein, ameaçando bifurcá-lo em "corporal" e "espiritual/mental". * Heidegger permanece em parte preso à compreensão metafísica tradicional da corporeidade como espacialidade objetiva extensa. * **A crítica a Kant e a direcionalidade corporal**: * Kant vincula a orientação a um "sentido de diferença" no próprio sujeito (direita/esquerda), atrelado à corporeidade. * Heidegger vê isso como resquício de subjetivismo, afirmando que direções como direita/esquerda fundam-se no ser-no-mundo e na dirigibilidade para um mundo já descoberto. * Crítica (Dreyfus): sem o corpo, assimetrias como direita/esquerda e frente/trás permanecem inexplicadas no campo prático. * A ordenação do espaço instrumental em regiões depende da relação com o corpo individual localizado. * **Espacialidade corporal como fundamental e não derivável**: * A orientação pressupõe uma ordenação do espaço em relação ao corpo. Portanto, a corporeidade é um pré-requisito para a orientação e para o ser-no-mundo. * A espacialidade corporal não é derivável da estrutura da instrumentalidade, do cuidado ou da temporalidade originária. * Ser corpóreo é existir no espaço. Essa espacialidade fundamental é essencialmente ligada à temporalidade (mais tarde: "tempo-espaço"), mas não é por ela determinada ou explicada. * **Espacialidade instrumental, objetiva e corporal: relações de dependência**: * A espacialidade instrumental parece situar-se de modo incômodo entre o espaço público objetivo e o espaço centrado individual (corporal). * Deve permitir relações entre múltiplos itens (como espaço objetivo) e entre esses itens e múltiplos indivíduos (como espaço público intersubjetivo). * A ordenação teleológica (para-o-qual) da espacialidade instrumental parece incompatível com a não-direcionalidade do espaço objetivo. * O espaço objetivo, embora não direcional, só é acessível e "aberto" através do espaço corporal. Ambos são mutuamente dependentes. * A espacialidade instrumental não é um modo de espacialidade *sui generis*, mas sim um espaço objetivo compreendido e articulado em relação a certas atividades e, portanto, ao espaço corporal. * **A dependência do presente-a-mão (objetivo) em relação ao pronto-a-mão (engajado)**: * Heidegger apresenta o espaço objetivo como surgindo de uma "nivelamento" quando o engajamento prático se quebra. * Contudo, o presente-a-mão (e sua espacialidade) já deve estar dado juntamente com o pronto-a-mão para que tal "desengajamento" seja possível. * Usar coisas como ferramentas pressupõe poder apreendê-las também como objetos. * A relação não é de dependência hierárquica, mas de dependência mútua (equiprimordialidade). O teórico e o prático possuem seus próprios modos de "prática" e "teoria". * **Problema análogo na derivação da temporalidade ordinária**: * A sequencialidade da temporalidade ordinária (série de "agoras") não pode ser derivada da temporalidade originária, que não é sequencial. * A projeção de possibilidades não determina sequências particulares de eventos. * A noção de tempo objetivo (série pura de "agoras") é um modo independente de temporalidade. * **Conclusão: mutualidade versus dependência hierárquica**: * A abertura do "aí" abre tanto o engajado/direcional quanto o objetivo/não-direcional. * A relação entre os elementos constitutivos da situacionalidade (do "aí" e do mundo) é de dependência mútua, não hierárquica. * Esta é a estrutura própria do *lugar* (topos): temporal e espacial, englobando o objetivo e o engajado, o finito e (em certo sentido) o infinito. * O projeto de *Ser e Tempo* é comprometido pela concepção de fundamentação como exibição de uma estrutura transcendental de dependência hierárquica, culminando na temporalidade originária. * A espacialidade representa a maior ameaça a essa unidade hierárquica, mas também se mostra fundamental para a estrutura do "aí". * O problema geral é a relação entre ser humano e mundo, a finitude do ser e a natureza da abertura mundana. * Repensar essa relação exige repensar a relação entre lugar e espaço, abandonando a noção de dependência hierárquica em favor da mutualidade característica das relações topológicas. {{tag>Malpas espaço}}