====== O Presente ====== Maldiney1975 Mas em sua essencial ambiguidade, o presente absoluto e irresoluto contém tanto a impossibilidade do real quanto a possibilidade do impossível. A situação da presença (Dasein) é nela aquela que Schelling enuncia no primeiro dos Aphorismes de la philosophie de la nature. Com a ressalva, todavia, de que ele designa por Dasein o ser-aí das coisas, enquanto o ser-aí-presente envolve todas as dimensões do ser no mundo e dentro do mundo, inclusive aquelas do ser-si aquém de toda distinção da mundaneidade do mundo e da ipseidade do si. Interpretado neste último sentido, seu texto é ainda mais fundamental. O simples ser-aí sem consideração nem ao seu modo nem à sua forma deve necessariamente aparecer àquele que o olha assim como um milagre e preencher o espírito de espanto: do mesmo modo, é inegavelmente esta visão do puro ser-aí que, nos pressentimentos mais arcaicos, feriu os espíritos de pavor e de uma sorte de terror sagrado. É desse nada sendo ou desse sendo nada — definição do caos autêntico segundo Paul Klee — que o presente se decide. Ele não possui outra saída senão sua própria abertura, aquela do trans-possível que é a dimensão sem coordenadas prévias — nem reais, nem ideais — do poder-ser. A presença decide sobre seu livre ou seu servo-arbítrio. Este perfil é raro — tão raro quanto a experiência nua do presente. Todavia, sua posição na antropogênese é significativa. É na adolescência, no momento da segunda puberdade, que ele é mais frequente. Ora, esta idade é aquela, como nota e analisa E. Spranger, na qual o homem descobre simultaneamente o silêncio e o tempo. O silêncio é uma forma sensível da positividade do Nada, na qual o ser de todo o ente é dado em seu retiro. Quanto à descoberta do tempo — ela é para o adolescente aquela de sua própria finitude na infinitude do tempo, à qual justamente de toda a sua existência ele aspira, sendo esta idade aquela dos extremos longínquos como também de sua negação brutal à base de pudor cínico. Se se remonta do presente nodal do indicativo ao seu antípoda, isto é, à dimensão aspectual do quase-nominal e do tempo no qual ela se explica sem indicação de pessoa, aparece que o Eu ainda não toma posição. Ele nem introjeta nem nega (k = 0). Não se erige tampouco em meio universal. Em certo sentido, ele está ausente. É um pré-eu participativo. Ele se experimenta apenas nos processos do mundo e nos estados de coisas. É inteiramente projetivo (p —). Ora, este perfil (k0 p —), que nas sociedades ditas evoluídas é aquele do delírio paranoide, é o perfil normal das populações ditas primitivas que vivem no modo da participação. O homem que vê cada coisa como um ser, um vivente participante de uma potência universal e a experimentando como seu princípio de existência e de ação, e para quem os atos dos homens, seu saber e seu poder exprimem a mesma potência, percebe neles como as suas próprias pulsões. No que concerne ao tempo, as tensões de duração que escandeiam a energia vital e dão seu ritmo às ações sagradas explicam-se em uma temporalidade específica cuja infinitividade escalar é o começo e o princípio de todas as explicações do mundo — e encontra sua expressão mais justa entre os aborígenes da Austrália que a denominam o tempo do sonho. A constituição do esquema temporal que se elabora na emergência das pulsões é a temporalização de uma existência que, desde a origem, não é de um simples ente, mas de uma presença que é existencialmente poder-ser. No entanto, a origem do tempo (no sentido estrito, Zeit) não é, como diz Heidegger, o futuro para o qual o homem em projeto se decide. Sua origem é o presente, sem a abertura do qual nenhum projeto ocorre.