====== O Devir e o Ser-Aí segundo Hegel ====== * A psico-sistemática do sistema verbal desvela a oposição e a conjunção dos dois extremos da temporalidade, cuja tensão é o motor do sistema * A cronogênese (longitudinal) se elabora do aspecto ao tempo, de //Aión// a //Zeit// — e //chrónos// é sua fin-tensão * Dela é inseparável o desenvolvimento de uma cronotese (latitudinal) da qual o //kairós// é o ponto de eclosão * A cronotese se origina visivelmente no presente do indicativo * Mas já ao nível dos modos aparecem dois sentidos do tempo — do que testemunha não somente o subjuntivo das línguas românicas e do francês, mas também o subjuntivo grego que se explica em um tempo eferente do presente, em oposição a todos os outros modos * Esta dupla "unilateralidade indeterminada" do tempo dos modos prepara a unidade "bilateral determinada" do tempo no indicativo * Do mesmo modo, em francês, os aspectos do quase-nominal — incidência pura do infinitivo, decadência pura do particípio passado, incidência-decadência do particípio presente — se explicam uns com os outros em um tempo escalar impessoal, mas onde se descobre a primeira forma da presença: a projeção === Presença e Ser-Aí === * Presença é sinônimo de ser-aí * O aí do ser-aí como presença é o mesmo que o aí do mundo ao qual ela é * É precisamente isto que torna possível a projeção * O sentido deste aí não é simples * Nele se articulam duas dimensões: o estar-lá e o estar-aqui * Estar aí é ao mesmo tempo estar aberto ao mundo, melhor: ser a abertura do mundo, e estar exposto ao mundo, encontrar-se compreendido sob seu horizonte * Daí o duplo estatuto do presente: origem e limite do tempo, lugar de advento e de evento === Advento e Evento: A Ambiguidade Essencial === * Advento e evento coincidem na ambiguidade * Ambiguidade essencial da qual testemunham a língua e a filosofia * Ela aparece em duas palavras-chave do grego e do alemão — //genésthai// e //werden// — por oposição ao francês //devenir//, que não é senão uma tradução unilateral * Devir é passar de um estado a outro, segundo o curso do tempo * Enquanto //genésthai// e //werden// significam a passagem do não-ser do nada ao ser do ente ou a passagem inversa, mas passagem absoluta, intemporal e criadora do tempo * Segundo Hegel, o "devir" (//das Werden//) comporta uma dupla determinação * Segundo uma, ele é o nada como imediato, isto é, começa a partir do nada que se relaciona ao ser, ou seja, passa a ele * Segundo a outra, ele é o ser como imediato, isto é, começa a partir do ser que passa ao nada: nascimento e destruição * Hegel concebe o ser e o nada como nascendo um do outro e um com o outro * Eles não são senão nesta passagem que é devir * O ser-aí (//Dasein//) é o ser-uno destes contrários * A imediatidade na qual ele se dá é o resultado simples de sua mediação === A Realidade do Ser-Aí === * A realidade do ser-aí é a do devir * Ele é devindo-devido * Somente é real a passagem do ser ao nada ou do nada ao ser, mas não os dois termos tomados à parte * "O ser e o nada não são para si, eles são apenas no devir, a desaparecer" * Dizer "o ser é" ou "o nada não é" é, para Hegel, hipostasiar abstrações * Mas é esta a verdadeira razão que torna estas expressões viciosas? * Em verdade, dizer "o ser é" ou "o não-ser não é" não tem mais sentido do que dizer "o movimento se move" ou "o repouso se repousa" * E quem jamais o disse? Sobretudo não Parmênides, cujo fragmento 6 se traduz: "é necessário tanto dizer quanto pensar que o ente é. Há que há, e nada não há" * À diferença do ente e do não-ente, ser e não-ser são inobjetiváveis * É por terem sido abusivamente transpostos em objetos de representação que constituem "abstrações simplesmente pensadas" que não têm mais nada a ver com a dimensão da presença ou da ausência * Assim Hegel não lhes concede diferença real senão nesta primeira forma de presença que é o ser-aí * "Não há senão o ser-aí que contenha a diferença real do ser e do nada: um algo e um outro" === O Ser-Aí como Evento e Advento === * O ser-aí, no sentido hegeliano, é ao mesmo tempo evento e advento * De uma parte, ele é o primeiro evento apreensível que procede do inapreensível devir * O devir é aparição-desaparição, unidade transitiva do ser e do nada, enquanto eles desaparecem um no outro * Esta desaparição é o devir mesmo * O devir não é. E de uma só vez ele é * O ser e o nada são apenas a desaparecer nele, mas neste desaparecer aparece sua diferença * "O devir, como tal, isto é, como passagem, é apenas pela diferença do ser e do nada... seu desaparecimento é o desaparecimento do devir, o desaparecer do desaparecer" * "O devir é portanto uma inquietude sem cessar que se reúne afundando-se em um resultado calmo" * Qual é este resultado? * "O nada do devir é, em seu desaparecimento, passagem essencial ao ser; e o devir é passagem à unidade do ser e do nada, unidade existente que possui a forma da unidade imediata de seus momentos: o ser-aí (//Dasein//)" === O Ser-Aí como Evento Absoluto === * O ser-aí tem portanto "sua mediação, o devir, atrás de si" * Ele procede de uma mediação que se pro-duz nele, sob a forma de sua imediatidade * Ele é evento absoluto * É o evento ab-soluto de toda qualificação, que constitui o fundo de realidade * O ser ao mesmo tempo resultativo e imediato do devir-devido é tanto o em-si universal do evento quanto o evento universal do em-si * Mas o ser-aí, se é em si, não é a si * Seu advento a si mesmo está ainda diante dele === O Ser-Aí como Seu Próprio Efetuador === * Em um segundo tempo, o ser-aí se apresenta a Hegel como seu próprio efetuador * Ele advém a si explicitando-se no modo do "enquanto...", isto é, determinando-se como algo * A unidade nele do ser e do nada não é mais esta unidade imediata cujo nó é o de uma reflexão exterior * O ser-a-si (//Insichseyn//) é o ser-em-si (//Ansichseyn//) apropriando-se a si mesmo por sua própria reflexão em si * Seu fundo não é mais o ser, mas seu próprio movimento * Sua igualdade consigo mesmo é seu ato * Ele é o determinante de sua determinação * A unidade de seus dois "lados", ser e nada, não é mais um fato imediato, o resultado de uma mediação que o precede e condiciona seu evento * Mas ele é a si mesmo seu próprio mediador, e o autor de seu advento === O Ultrapassamento do Ser-Aí === * "O ser-aí se ultrapassa em direção a seu estatuto de ente aí no interior de si mesmo" * Este ultrapassamento é um sacrifício de seu próprio ser em si, ao mesmo tempo parricídio do ser (no sentido do //Sofista//) e suicídio do em si * Ao fundo do ser em si sobre o qual ele repousa, o ser-aí substitui o fundamento de sua própria negação * Esta negação é sua reflexão em si mesmo, cuja imanência põe fim à perspectiva da reflexão exterior * Mas, com esta última, desaparece seu ser-para-um-outro em relação ao qual se definia seu ser em si * É suprimindo esta alteridade, condição de seu em si, portanto negando ele mesmo seu ser em si, que ele advém a si e que ele é algo * "O algo é o ser-aí, mas somente enquanto ele tem uma determinação" === A Determinação do Ente Aí === * O ente aí é determinado * Ele é determinado por seu limite, mas este não é seu senão porque ele é o determinante dele * Determinar-se a si mesmo é pôr a si mesmo seu próprio termo, seu limite, ou, como diz de preferência Hegel, sua barreira (//Schranke//) * A posição de um limite supõe seu franqueamento, isto é, a negação * "Para que um limite seja uma barreira, é preciso que o ser-aí ao mesmo tempo o ultrapasse. E ele deve relacionar-se a ele como a um nada. Mas algo não ultrapassa seu próprio limite senão sendo sua supressão" * O ser-aí, suprimindo seu limite, que por definição o con-fina em si, suprime portanto seu ser em si * "O ser em si [ativamente] igual a si mesmo se relaciona portanto a si como a seu próprio nada" * Mas unindo em seu ato o ser de seu em si e o nada de seu ser-outro, ele é integralmente a si — ele é seu próprio advento, ele está na origem de sua presença === A Inautenticidade da Presença no Dasein Hegeliano === * E contudo o //Dasein//, o ser-aí hegeliano não é autenticamente presença * Se o ser-aí retoma por sua conta a mediação do devir da qual ele resulta, o //Dasein// e o //Werden// hegelianos não são originários, mas participam de uma sistematização teórica antecipada * A presença do ser-aí na encruzilhada do fundo e do fundamento é tão pré-construída quanto a do presente no início da //Fenomenologia// * A passagem do ser ao nada ou do nada ao ser, mediatizados pelo devir, os pré-supõe a título de objetidades ideais * Atesta-o seu estatuto de opostos * Longe de serem termos diferentes cuja indiferença seria superada em co-presença em um encontro real e paradoxal, o ser e o nada formam um par de contrários que se opõem supondo-se, cada um sendo necessário à definição do outro, e sua unidade consistindo na reciprocidade de sua interdeterminação * O ser-uno do ser e do nada repousa sobre a pré-construção de seus conceitos, e o que Hegel chama sua diferença real é a hipóstase de sua oposição ideal * Hegel dissocia idealmente a diferença indiferente do ser e do não-ser, como dimensões da presença, em diferença e em indiferença * E fazendo isto, ele reduz a primeira a uma oposição e a segunda a uma identidade * A oposição do ser e do não-ser como de dois lados ou faces da unidade é, com efeito, uma determinação da reflexão que os põe juntos como objetidades pensadas em uma relação bipolar * E cada um é apenas em sua oposição ao outro, porque foram primeiro determinados como os dois polos de uma relação ideal === A Indiferença Mútua como Identidade === * Quanto à "indiferença mútua" do ser e do nada, ela significa no pensamento de Hegel que eles são ambos indiferentes a ser um ou outro, porque indiscerníveis * Eles são definidos um e outro como "igualdade consigo" "fora de toda desigualdade a um outro", ou como indeterminidade e vazio * Ora, a determinidade (ou sua falta) não concerne o ser do ente ou o não-ser do nada como dimensão do //Dass-Sein//, mas seu //Was-Sein// * Ela é da ordem do sentido * O ser é identificado ao ser-o-quê e o não-ser ao não ser-o-quê * A mediação tem por termos aqueles que figuram nos pares clássicos de conceitos * Seja ao nível do devir, seja ao nível do algo, a oposição do que ele nomeia ser e nada é a do ser-si e do ser-outro, que Platão substitui no //Sofista// ao ser e ao não-ser * E do mesmo modo que, opondo ao ser o outro, Platão define o primeiro pela identidade, o //Dasein// hegeliano não é uma fonte real, mas uma ressurgência de determinações pensadas === O Presente-Limite Hegeliano === * Hegel define o ser-aí do algo em termos que prefiguram a constituição do //Dasein// segundo Heidegger * Algo (//Etwas// = isto o quê) não é determinado por um limite ao lado do qual ele se manteria tranquilamente sem participar de sua limitação * Mas ele o ultrapassa, o que é suprimi-lo mas também pô-lo — de tal modo que ao barrar-se (//schranken//) ele se franqueia a si mesmo * E contudo o //Dasein// não é advento, seu //da//, o aí do ser-aí não é uma origem * O presente hegeliano é um presente-limite * O devir, de onde procede o ser-aí, através dele se temporaliza: o tempo é o devir de algo * A oposição do ser e do nada, tornada a do ser-si e do ser-outro, se exprime temporalmente pela distinção do passado e do futuro * O passado é a realidade sem a possibilidade * Nele "o ser-aí do algo não faz senão manter-se ao lado de seu limite em uma indiferença tranquila" * O porvir é a possibilidade sem a realidade * Ele não é; ele deve ser === O Porvir e o Dever-Ser === * O porvir é implicado no que é em si: ele é a dimensão de seu ser-outro ao qual ele se relaciona como a seu próprio nada * Pois este nada é seu. Ele é seu próprio //Sollen// (dever) * "Enquanto dever, o algo ultrapassa sua barreira, isto é, o que não está nele, o que se encontra em estado suprimido, está também nele" * Entre o ser em si e o ser-outro de algo, que se pertencem reciprocamente, o limite não é uma barreira separando um dentro e um fora * Mas "a exterioridade do ser-outro é a interioridade própria do algo" * Do ser em si, pode-se dizer "//Wesen ist gewesen//", "sua essência é a reunião de seu tendo-sido" * Mas ele é a si, ele não pode recolher-se, senão a partir da barreira que ele se dá e que ele não pode pôr senão em seu franqueamento, isto é, negando-a * Esta barreira é o presente * Sua posição-negação está ligada ao dever (//Sollen//) * "Enquanto dever, algo transcende sua barreira, mas é somente como dever que ele tem uma barreira" * Dever-ser, não poder-ser * O programa dialético fixa o sentido do tempo * "É no dever que o conceito de finitude tem seu começo e que começa seu ultrapassamento: a infinitude. O dever contém o que na sequência do desenvolvimento se apresenta como o progresso ao infinito" * O presente é portanto a cada vez o limite do tempo, o aí do ser-aí do Conceito