====== "APENAS UM DEUS..." ====== //MACQUARRIE, John. Heidegger and Christianity: the Hensley Henson Lectures 1993-94. New York: Continuum, 1994.// * O pensamento tardio de Heidegger, expresso na frase "Apenas um Deus pode nos salvar", reflete uma urgência diante da crise do mundo moderno, mas o sentido de "Deus" é ambíguo e não corresponde necessariamente ao Deus teísta. * Heidegger se descreve como nem ateu nem teísta, usando frequentemente "Deus" de modo hipotético ou para se referir a um "fator divino". * A frase tornou-se título de sua última comunicação pública, uma entrevista à revista //Der Spiegel// em 1966, publicada postumamente. * A busca por um conceito de Deus em Heidegger é inconclusiva, pois seu pensamento visa seguir um caminho (Denkweg), não construir um sistema filosófico fechado. * Estudiosos, especialmente teólogos, não chegam a conclusões unânimes. * O percurso de Heidegger parece retornar ao ponto de partida: a questão do Ser, agora possibilitando um novo começo além da filosofia tradicional da substância. * A conferência "Tempo e Ser" (1962) aborda a relação elusiva entre Ser e tempo, introduzindo a noção do "Há" (Es gibt) como fonte de ambos. * Ser e tempo se determinam mutuamente através da noção de presença (Anwesen), mas nenhum é uma coisa ou ente. * O "Há" (Es gibt) é o "doador" último, um ato de doação mais originário que o próprio Ser, comparável ao Deus "supraessencial" do neoplatonismo (ex.: Eriúgena). * Este "Há" é também nomeado como //Ereignis// (evento de apropriação), um evento, não uma substância, que apropria o Ser ao Dasein. * A posição de Heidegger em relação a Deus pode ser interpretada como um panteísmo ou panenteísmo, onde o real é "Ser sagrado", mas ele rejeita rótulos como teísmo e ateísmo. * Se Deus é entendido como pessoal, substancial e atemporal, Heidegger não é teísta. * Se Deus pode ser entendido como supra-pessoal, um evento e de algum modo temporal, então seu pensamento pode ser considerado teísta em sentido amplo. * O essencial é o reconhecimento de uma realidade sagrada (holy Being) no cerne de tudo, o que distingue religião de ateísmo. * Em seu texto para uma conferência teológica (1964), Heidegger reafirma a distinção entre filosofia e teologia e discute a possibilidade de um pensamento e linguagem não objetificantes. * A teologia deve pensar e falar a partir da fé, sem tomar categorias emprestadas da filosofia ou ciências. * Nem todo pensar e falar são objetificantes; o pensamento objetificante, típico da ciência, não capta a aparição do divino (ex.: a estátua de Apolo). * A linguagem poética é um exemplo proeminente de pensamento não-objetificante. * Na entrevista ao //Der Spiegel//, Heidegger expressa pessimismo sobre o poder da filosofia de mudar o mundo dominado pela técnica (Ge-stell). * Apenas um Deus poderia salvar a humanidade; o papel humano é preparar, no pensamento e na poesia, uma prontidão para o advento ou ausência desse Deus. * O "Deus" mencionado é ambíguo: não é claramente o Deus cristão, mas talvez uma nova revelação divina, um novo //Ereignis// do Ser, ou um novo //kairós// para o pensamento. * Esta posição marca um afastamento radical das atitudes prometeicas de //Ser e Tempo//. * A visão tardia de Heidegger pode ser vista como um quase-fatalismo, mas ele deixa abertura para a ação humana através de um "outro pensar" e da prontidão para o divino. * A responsabilidade é lançada sobre um destino obscuro (Deus, Ser, //Ereignis//), mas os seres humanos podem se preparar e se abrir para um novo advento. * Tanto Deus (ou o Ser) quanto o homem são temporais e cooperam na projeção de um futuro. * A filosofia de Heidegger não é uma filosofia cristã, mas é compatível com a fé cristã e pode oferecer insights importantes para ela. * Mesmo ao falar de "os deuses", pode-se entender uma referência ao Deus último, além de todas as representações. * A ideia de um Deus que também existe no tempo e compartilha a insegurança do mundo encontra eco em interpretações teológicas contemporâneas. {{tag>Macquarrie deus}}