===== MACDOWELL: A COMPREENSÃO GREGA DO SER COMO "ESTAR-AÍ" ===== Foi Parmênides quem lançou as bases da interpretação tradicional do sentido de ser. Platão e [[termos:a:aristoteles-2:start|Aristóteles]] a desenvolveram e transmitiram ao Ocidente. Para eles, o sentido de ser não foi algo sem mais evidente, que dispensa qualquer investigação. Eles reconheceram já a necessidade de perguntar o que significa "ser". Aristóteles, sobretudo, dedicou-se à tarefa de descobrir, a partir dos fenômenos, a unidade do sentido de ser subjacente à multiplicidade vária de suas aplicações. O que foi conquistado então, num supremo esforço do pensar, não pretendia construir um conjunto de teses definitivas e completas, mas apenas balizas no caminho para o desconhecido. A natureza, i. e., o modo de ser dos entes que constituem originalmente o mundo, foi tomada pelos gregos como protótipo na interpretação do sentido de ser. O ser foi entendido a partir do mundo, considerado como o conjunto ordenado das coisas, que se apresentam à nossa vista, na sua diversidade e nas suas conexões. A água do mar, a planta, o animal, o homem são destas coisas, cuja soma compõe a [[termos:t:totalidade-mac:start|totalidade]] da natureza. Deste primado da coisa (pragma, [[termos:r:res:start|res]], Ding), como fio condutor da interpretação ontológica, resulta que o traço fundamental do ser é a realidade. O ente é, antes de tudo, o [[termos:e:ens-hlex:start|ens]] reale, i. e., aquele que é apto a constar como coisa entre as coisas. Entretanto, o que já foi, ou ainda será, não é propriamente. As coisas são, enquanto estão atualmente presentes no mundo. Aquilo que não é atual é considerado como sendo apenas em ordem à sua atuação, na medida em que esta é possível. Ser significa portanto, primariamente, atualidade (Wirklichkeit), como plena realização da coisa. Daí resulta outra nota própria do ser do ente na sua interpretação clássica. O ente em ato apresenta-se como o realizado, produzido, efetuado. Este ser-efetuado (Geschaffenheit), característico do ser das coisas da natureza, será radicalizado, segundo Heidegger, na concepção cristã do ente como [[termos:e:ens-creatum:start|ens creatum]]. As coisas constituem, enfim, aquilo que permanece invariável, o substrato constante, através do movimento e da alteração da natureza. Assim, uma árvore, através das diversas etapas do seu desenvolvimento é sempre a mesma árvore. A identidade consigo mesma, subjacente às variações da coisa, torna-se assim um elemento determinante do seu ser. O ser do ente é interpretado como substancialidade. O mesmo termo grego ousia significa substância, como suppositum individual permanente, e essência, como a forma ou quididade, que define e circunscreve cada ente. De fato, a essência ou ideia da coisa é aquela determinação fundamental comum seja aos indivíduos da espécie, seja ao mesmo indivíduo nos seus diversos estados. E ela que constitui a substância, i. e., o ser propriamente dito da coisa, em oposição aos atributos que podem afetar o [[termos:s:sujeito:start|sujeito]], sem, no entanto, o constituírem radicalmente como tal. Uma palavra, "existência", consagrada também pela [[termos:t:tradicao:start|tradição]], resume estes diversos traços da interpretação clássica do ser. Como este termo serve, porém, para exprimir, num sentido inteiramente diverso, o modo de ser peculiar ao homem, Heidegger o traduz por "estar-aí" (Vorhandensein). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}