===== LUZIE (1999:19-21) – ORIGINA-TE, TORNA-TE ===== Píndaro, ao comemorar o triunfo dos vencedores nos jogos, inicia a sentença que se tornou célebre no pensamento ocidental com a palavra γένοι; palavra esta, fundamental na sentença por caracterizar a experiência de nascimento, de pro-veniência, de geração, e que está no imperativo do verbo γίγνομαι. Foi desta forma que esta expressão teve lugar na tradução e, portanto, na [[termos:t:tradicao:start|tradição]] do pensamento ocidental. Geralmente quando pensamos em nascimento, nos referimos ao nascimento de algo, portanto, de alguma coisa, ou seja, nascimento de algum ente. Γένοι, ao ter sido traduzida como origina-te, como torna-te, propiciou e deu início à compreensão do ponto de partida de tudo aquilo que é, destarte, do ente. Sendo que ente é o presente, aquilo que se apresenta de tal e qual forma. Neste sentido a tradição filosófica incorporou essa palavra ao seu vocabulário, compreendendo-a como a origem de alguma coisa, de algum ente. Heidegger vai inclusive dizer que, em Platão e [[termos:a:aristoteles-2:start|Aristóteles]], ela é uma palavra conceitual bem determinada e que, em seguida, torna-se na escolástica uma palavra exata.6 No entanto esta sentença de Píndaro é anterior à compreensão metafísica que se tornou tradicional. Em Píndaro, certamente não era considerada um conceito. Esta descaracterização do sentido da palavra γένεσις (substantivo do verbo), tomada como o nascimento apenas do ente, nos levou a pensar na possibilidade de darmos início ao capítulo com a outra palavra grega que também descreve a experiência de origem, que é a palavra ἀρχή — experiência grega associada à procura do processo de constituição originário de algo. Na tradição filosófica foi interpretada como a procura da origem no sentido de causa [[termos:m:material:start|Material]], ou seja, os primeiros candidatos a elementos constitutivos das coisas eram substâncias “naturais”, tais como: ar, água e fogo, dentre outras. Assim sendo, esta experiência está imersa não só no pensamento que busca a origem, mas, fundamentalmente, na origem material de algo material. Neste sentido, podemos dizer também que a palavra grega ἀρχή foi paulatinamente perdendo o vigor originário que encerrava a sua experiência, para transformar-se na busca de uma causa material. Precisávamos, então, encontrar uma palavra que pudesse dar melhor vazão à possibilidade interpretativa que pretendemos por ora abraçar. Desse modo, pensamos na palavra μοίρα — palavra também grega associada à experiência de destino. Moíra é comumente compreendida como o envio de todo destino e de toda fatalidade que há no real e na realidade. Destino compreendido aqui como destino dos entes. Ou seja, coisas, fatos e acontecimentos que já estão constituídos de antemão e destinados aos homens, e dos quais estes, por sua vez, não podem fugir. Das três experiências gregas (γένεσις, ἀρχή e μοίρα) podemos apreender: 1) que está sempre em jogo a questão do ponto de partida, do ponto inicial de algo; este algo é sempre uma coisa, um ente, exclusivamente; 2) que com a palavra moíra, temos ainda a inclusão da experiência de destino, que não se traduz somente no início de algo, mas também no desenrolar desse algo, ainda que seja um ente. Assim sendo a partir da nossa ingente tarefa que diz respeito ao esforço de buscar o sentido mais originário que, a nosso ver, poderia estar imerso na palavra da frase de Píndaro, preferimos dar início ao capítulo denominando-o de Moíra por acreditarmos que pelo fato de Moíra ser uma palavra pouco utilizada no pensamento filosófico, ela está mais apta a açambarcar a compreensão de proveniência que pretendemos considerar: 1) a de ponto de partida sim, só que não exclusivamente do ente, mas também do ser, a fim de poder resgatar a [[termos:t:temporalidade-dh:start|temporalidade]] inerente, própria ao ente; 2) a compreensão do nascimento também como desdobramento, uma vez que todo e qualquer começo ou origem já contém o seu fim. Por outro lado, a interpretação que Heidegger tem do termo Moíra, encontrado em Parmênides, é bastante diferente do sentido corriqueiro de destino, compreendido comumente como fatalidade, imposição e necessidade. O que nos assegura a possibilidade de uma interpretação mais original deste termo. {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}