====== 3 Ser humano ====== //LUIJPEN, William. Phenomenology and Humanism. A primer in existential phenomenology. Pittsburgh: Duquesne University Press, 1966// **O Homem como Existência** **[Introdução: da intencionalidade à ontologia da existência]** A descrição da consciência como intencionalidade, enquanto modo do ser-homem, conduz naturalmente a uma ontologia do homem como abertura e existência, passo não dado por Husserl, mas realizado por Heidegger em Ser e Tempo (Sein und Zeit). * Fica provisoriamente em suspenso o fato de que, em Heidegger, a fenomenologia se orienta rumo à metafísica. **Existencialismo e Fenomenologia** O pensamento de Heidegger não prolonga simplesmente o de Husserl, mas funde duas correntes aparentadas e distintas, a fenomenologia husserliana e o existencialismo kierkegaardiano, numa unidade denominada fenomenologia existencial. * Kierkegaard concebe o homem como existência, movimento do sujeito rumo ao que ele próprio não é, isto é, rumo a Deus, o que guarda nítida afinidade com a intencionalidade husserliana. * O existencialismo kierkegaardiano exprime radicalmente a individualidade absolutamente concreta, subjetiva, original e irrepetível, incompatível com toda busca de universalidade subjetiva e objetiva. * Daí seu viés anticientífico inicial: o saber filosófico só seria filosófico ao renunciar à pretensão de validade universal, objetiva e subjetiva. Husserl, ao contrário, visa a filosofia como ciência rigorosa, dotada de validade universal subjetiva e objetiva, alcançada pela visão de essência (Wesenschau) resultante da redução eidética. * A redução eidética suspende a particularidade da realidade contemplada para atingir sua essência. * O método da variação livre separa a essência dos aspectos periféricos, introduzindo no conhecer o momento objetivo e universalmente válido que legitima falar de ciência fenomenológica. Em Heidegger, uma fenomenologia enriquecida por temas existencialistas produz uma ontologia científica do homem como abertura e existência, na qual o existencialismo fornece os temas e a fenomenologia os aprofunda em ontologia válida. * O método fenomenológico cientificamente válido permite uma teoria geral do homem como existência. * O resultado é uma "desteologização" do pensamento de Kierkegaard. **A Intratabilidade de Jaspers e Marcel** O viés anticientífico do existencialismo persiste em Jaspers e Marcel e os coloca em contradição permanente consigo mesmos, pois seu pensamento pretende implicitamente ser mais que monólogo. * Tomada literalmente, a posição anticientífica restringiria a validade do pensamento existencialista à situação de seu autor, esvaziando o sentido de comunicá-lo a outros. * Toda comunicação pressupõe padrões gerais aplicáveis aos destinatários; sua negação explícita contribui para o declínio desses pensadores. * Permanecem valiosas suas páginas contra o saber absoluto do idealismo e contra noções sobre o caráter intersubjetivo da verdade científica em sentido estrito. A tese de que a verdade filosófica não pode ser geralmente válida é autocontraditória, pois um enunciado filosófico só adquire sentido pressupondo generalidades subjetivas e objetivas, como Husserl claramente percebeu. * A ausência de influência fenomenológica sobre Jaspers e Marcel explica em grande parte seu declínio. * Esse declínio é lamentável porque ambos preservaram a inspiração religiosa original de Kierkegaard, provavelmente ausente em Heidegger. **Entre Monismo Materialista e Monismo Espiritualista** A fenomenologia, em seu desenvolvimento como ontologia do homem, abre um caminho intermediário entre monismo materialista e monismo espiritualista (Dondeyne). * O materialismo concebe o homem como resultado final de processos e forças cósmicas, coisa entre coisas, patamar na evolução infinita do cosmos. * Filosofia forte e historicamente enraizada, o materialismo não pode ser ignorado, mas não consegue explicar a existência do próprio filósofo com conceitos feitos para objetos, pois coisas não produzem filosofias. * Ao contornar a subjetividade humana, o materialismo constitui uma "destotalização do real" (Le Senne). O espiritualismo parte da fraqueza materialista e reconhece o primado da subjetividade, mas exagera o sujeito até a autonomia absoluta de um Ego divinizado, diante do qual os objetos perdem densidade e se evaporam em conteúdos de consciência. * A afirmação de que nada existe além de objetos só é possível porque o homem é sujeito, não coisa; o Cogito é inegável (Descartes). * A filosofia existencial, reconhecendo forças e fraquezas de ambos os monismos, define o homem não como coisa nem como ego absoluto, mas como existência, ser-consciente-no-mundo, unidade de implicação mútua entre subjetividade e mundo (Kwant). **Mostrar e Provar** A definição do ser-homem como existência não admite prova lógica estrita, legitimando-se apenas por uma intelecção irredutível a outra mais geral, que o filósofo pode somente apontar. * Todo falar começa por apontar uma realidade visada; falar já é trazer uma realidade à vista e à luz, sem o que resta mero som vazio. * O falar filosófico traz à vista o que foi visto; é impossível acordo com quem não pode ou não quer ver (Husserl). O corpo humano, compreendido para além da concepção cartesiana que o reduz a um corpo entre corpos, revela-se como corpo-de-um-sujeito, situado do lado do sujeito e não entre os objetos do mundo (Dondeyne). * O corpo humano é sempre meu, teu ou dele; biologia, anatomia e fisiologia descrevem apenas um corpo pertencente ao mundo dos objetos. * As mãos que apreendem não são objetos apreendidos, mas eu-mesmo-apreendendo; os pés são eu-mesmo-andando; olhos e ouvidos são eu-mesmo-vendo e eu-mesmo-ouvindo. * A barriga saliente não se esgota em dados sobre tecido adiposo; é, entre outras coisas, a incapacidade de amarrar os sapatos. O sujeito acede ao mundo pelo corpo, e o mundo se configura como sistema de significações aderente ao sujeito encarnado, tornando sem sentido falar de propriedades do mundo em si (an sich, en soi). * O mundo é tangível porque há mãos; um corpo em forma de bola suprimiria a tangibilidade, e afirmá-la mesmo assim equivale a dotar secretamente a bola de braços. * Pés, asas, olhos de rato ou de coruja alterariam o modo de acessibilidade e a perspectiva do mundo. * Sírio é distante, as Montanhas Rochosas são altas, a calçada é baixa, e o mundo é duro, mole, frio, quente, pegajoso ou resistente em relação ao sujeito encarnado. * Explicitar o corpo como encarnação do sujeito, o sujeito como envolvido no mundo pelo corpo e o mundo como aderente ao sujeito encarnado é explicitar o sentido de "existência". **A Existência como Essência Humana** A definição do homem como existência concerne à sua essência e natureza, e a recusa de alguns existencialistas em falar de "natureza humana" exprime apenas a luta contra a redução do homem a "pedaço da natureza" concebida em termos de coisas. * Recusa-se equiparar o ser do homem ao de um abridor de cartas (Sartre), o que ignoraria a subjetividade existente que o homem é. * Compreendida essa recusa, perde força a objeção de que a filosofia existencial rejeita essências imutáveis: a essência do ser-aí reside em sua existência (Das Wesen des Daseins liegt in seiner Existenz, Heidegger). * Algumas epistemologias existencialistas, contudo, dificilmente comportam essências entendidas como aquilo pelo qual algo é o que é. **O Cogito Existente Pré-reflexivo** Definir o ser do homem como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein) é insuficiente se não se explicitar que se trata de ser-no-mundo consciente, vida experienciadora do mundo (welterfahrendes Leben, Husserl). * O materialismo também poderia definir o homem como partícula na evolução cósmica; tampouco o homem está no mundo como um cigarro na caixa. * Sem subjetividade, o cigarro permaneceria invisível e incompreensível; o enunciado "o cigarro está na caixa" pressupõe um sujeito capaz de distanciar-se e percorrer o espaço. * Por ser consciente, o homem é o ente em cujo ser está em jogo o próprio ser (Heidegger), essencialmente caracterizado pela compreensão do ser (Seinsverständnis). A consciência não implica consciência completa e temática de tudo o que a existência abrange; ela é, antes de tudo, consciência não temática, pré-reflexiva. * Ao contar cigarros, a presença temática dirige-se aos cigarros, enquanto a presença ao universo quantitativo do contar é não temática: consciência (de) contar, não consciência de contar (Sartre). * A abordagem temática do contar só é possível porque já se "sabe" o que é contar; toda reflexão é precedida de um "saber" pré-reflexivo. * Existir é consciência (de) existir; o homem, como Cogito existente, é Cogito pré-reflexivo. A reflexão é retorno ao irrefletido (irréfléchi) imediato, ao viver, e a vida humana desdobra-se banhada numa luz que é o próprio sujeito existente, a luz natural (lumen naturale), condição de toda intelecção. * Situar-se fora dessa luz é perder toda inteligibilidade. * Juízos só são verdadeiros e significativos quando fundados na experiência vivida (expérience vécue, Merleau-Ponty), no "saber" do homem como ser-consciente-no-mundo. **O Solo de Onde Brota a Filosofia** A fenomenologia, como método que busca as raízes indubitáveis do pensamento, pressupõe o retorno ao mundo vivido, experiência originária do homem como ser-consciente-no-mundo, subjetividade existente e luz natural. * Romper com o mundo vivido é situar-se fora do sentido. * É preciso partir da subjetividade (Sartre); tudo o que é visado em qualquer juízo já é "conhecido" à luz da existência, e o filósofo transpõe essa experiência vivida em conceitos. O domínio do irrefletido é o solo fértil da filosofia: o juízo filosófico explicita o Cogito pré-reflexivo, fonte de toda verdade, cuja emergência é acontecimento histórico. * A cada novo sujeito inicia-se uma nova história da verdade. * O sujeito existente é o deixar-ser (Seinlassen) do mundo, e a verdade emerge nesse deixar-ser; o homem não pode subtrair-se ao seu enredamento com o mundo, que o determina como homem. A vida pré-reflexiva não é alienação de si nem etapa preparatória superada pela reflexão, pois o homem é essencialmente sujeito existente e este é o único acesso à verdade. * A existência define-se como acesso à verdade, estar-na-objetividade, "ver" da realidade. * O "ver", em sentido amplíssimo, designa a presença do sujeito a qualquer realidade e constitui o critério da verdade. * Os juízos filosóficos são verdadeiros e objetivos na medida em que o filósofo "vê" aquilo de que fala; o que é visto não pode ser posto em dúvida. **Abstração e Abstrações** A recusa fenomenológica das "abstrações" não visa os predicados abstratos nem o caráter abstrato do intelligere, necessários à formulação das estruturas essenciais da existência, mas os conceitos artificiais que perderam toda relação com a experiência vivida. * A filosofia pode falsificar a experiência e, com ela, a realidade. * A tarefa da filosofia é exprimir sem distorção o Cogito pré-reflexivo; quando perde contato com a experiência originária, seus enunciados tornam-se "abstrações". **A Atitude do Sujeito** O aparecer do mundo depende em parte da atitude do sujeito (Einstellung, Husserl; attitude, Merleau-Ponty), de modo que não há um único mundo-em-si (monde-en-soi), mas infinitos mundos aderentes às infinitas atitudes do sujeito. A corporeidade constitui uma Gestalt de múltiplas atitudes às quais aderem múltiplos mundos, e o sentido do mundo é em parte constituído por ela. * Há mundo visível porque há olhos, mundo sonoro correlato aos ouvidos, mundo tátil aderente às pontas dos dedos e mundo móvel aos pés. * O mundo do manuseio não tem sentido referido aos pés, que são eu-que-ando ou eu-que-posso-andar. A práxis, em sentido amplíssimo como todo modo de existir entendido como ser-"junto"-ao-mundo, participa da constituição do sentido do mundo, exprimindo o caráter dinâmico do existir, irredutível ao estar de um lápis na gaveta. * Os mundos do vendedor, do químico, do político, do educador e do arquiteto diferem conforme suas práxis. * A torre da igreja significa algo diverso para o sacristão, para o brincalhão que toca os sinos, para o piloto que a evita e para o turista que nela se orienta. O amor é atitude pela qual se tornam visíveis aspectos do real, sobretudo o sentido do outro como outro, isto é, como sujeito, inacessível à preocupação com os próprios desejos e interesses. A fase histórica é também Einstellung, no interior da qual determinada realidade se torna visível, e atribuir a uma fase anterior o que só uma fase posterior revela falsifica a história. * O físico precisa ter atingido fase avançada para compreender a teoria nuclear recente. * Os judeus do Antigo Testamento reconheciam a imoralidade da poliandria, mas não ainda da poligamia; afirmar que seu matrimônio "era" monogâmico projeta uma fase moral posterior. * Analogamente, afirmar um mundo tangível para homens em forma de bolas de bilhar é acrescentar-lhes secretamente bracinhos. * O verbo ser só tem sentido referido a um sujeito-com-uma-atitude-determinada. **Um Exemplo** O sentido da água varia conforme a atitude do sujeito, e a água como H2O é apenas o sentido revelado pela atitude técnico-analítica, fora da qual essa afirmação carece de sentido. * A água do banho e a que mata a sede diferem da água do lago que sustenta o barco e oculta o peixe, na qual não se nada. * Para o bombeiro, a água revela-se como meio de extinguir incêndios, sentido inacessível a quem nunca participou desse ato. * A queda no gelo de um rio no inverno revela o aspecto mais aterrador da água; ninguém jamais se afogou ou congelou em H2O. * Afirmar que a água do banho ou do passeio "é" H2O equivale a retirar dos banhistas e turistas sua atitude e atribuir-lhes secretamente a do químico. **O Sentido Ontológico da Experiência Integral** A crença de que a água admite uma única interpretação absoluta e objetiva, o H2O científico como água-em-si, constitui cientificismo e empobrecimento catastrófico da realidade. * O físico é sub-repticiamente erigido em protótipo do homem e seu mundo no único de validade última. * Tudo deve exprimir-se quantitativamente, e o não quantificável é declarado irreal, mistificação, romantismo ou falta de higiene mental. * O mundo vivido, infinitamente rico em atitudes, reduz-se à pobreza das significações reveladas pela única atitude do cientista. A física, confinada a seus termos, é incapaz de exprimir significações objetivas do mundo vivido do próprio físico, o que exige reconhecer a pluralidade de mundos, nenhum menos nem mais objetivo que o das ciências (Buytendijk). * Como físico, não distingue a esposa respeitada e amada, o morto do assassinado, o vermelho macio do tapete do vermelho pegajoso do sangue coagulado, o vermelho sedutor dos lábios do vermelho saudável de um rosto jovem; e, no entanto, há diferença. * Milagres acontecem no mundo religioso, ao qual o físico como tal não tem acesso; não se constata milagre por laudo de laboratório. * As cataratas do Niágara devem significar para o estudante de engenharia com a noiva mais que mera "energia disponível" (Heidegger); sem esse excedente de sentido, seriam impossíveis as férias e ainda mais o casamento. No mundo vivido, plural e aberto às múltiplas atitudes do homem, encontra-se a experiência integral, saber pré-científico que fundamenta todo pensamento, todo juízo e todas as ciências, inclusive a filosofia. * É preciso restituir à experiência seu verdadeiro peso ontológico (Marcel). * A acusação de que o existencialismo não vê continuidade entre saber pré-científico e especulação filosófica é um dos muitos mal-entendidos que o atingiram. **Uma Nova Teoria das Ciências** Toda ciência trata temática, metódica e criticamente de um momento específico da experiência, entendida como encontro de um sujeito-de-múltiplas-atitudes com a realidade, o que revela a falácia do ideal científico de Comte. * Cada atitude particular abre um campo específico de realidades. * A investigação científica articula múltiplos sistemas de significação, irredutíveis entre si e não somáveis como mosaico (Kwant). Só a concepção da experiência como espelhamento de um mundo-em-si permite imaginar as ciências convergindo numa grande síntese sem incompatibilidades, ao passo que a prática científica mostra o afastamento crescente das disciplinas, plenamente compreensível à luz da fenomenologia. * Uma disciplina progride ao tomar consciência de sua atitude intrínseca e deixar de confundi-la com a de outras; enquanto persistir a confusão, não determina sua região de realidade. * A sociologia não avançou enquanto reteve o ideal da física; a psicologia da realidade pessoal vivida só começou ao superar as atitudes da química e da mecânica; a física não progrediu enquanto impregnada de teologia, como na centralidade da Terra deduzida da encarnação de Cristo. * Não se deve esperar comunicação entre disciplinas enquanto cada uma permanece em sua atitude; o entendimento ocorre quando uma assume temporariamente a atitude da outra, e o desentendimento decorre da pluralidade de sentidos das mesmas palavras, como "causalidade" para o físico e o teólogo. Nenhuma ciência em sentido estrito pode provar ou refutar a existência de Deus, sustentar o teísmo ou denunciar o ateísmo, pois o cientista imerso em sua atitude nem sequer compreende o que se lhe pede. * A aparente eliminação progressiva de Deus pelas ciências consistiu, na verdade, em denunciar invasões religiosas de territórios alheios à atitude religiosa. * Com isso, as ciências purificaram a atitude religiosa, cujo domínio adquire sentido puramente religioso e perde poder de controle sobre outros domínios. * Os conflitos dramáticos e o sofrimento passados integram uma crise necessária para alcançar novos níveis de intelecção. O desenvolvimento das ciências refuta a concepção da experiência como espelhamento de um mundo-em-si, e o abandono do ideal comtiano pelos cientistas mais avançados não indica declínio do empreendimento científico, mas maioridade das ciências particulares. Em Heidegger, a fenomenologia deixa de ser apenas método husserliano de acesso ao indubitável e torna-se filosofia do homem como abertura, na qual a redução persiste sob a forma de destruição da história da ontologia (Destruktion der Geschichte der Ontologie). * Husserl descreveu a consciência como intencionalidade sem desenvolver uma ontologia do homem como abertura; a redução permaneceu parte essencial de seu método. * Em Heidegger, a fenomenologia assume a forma de filosofia completa, na medida em que "completo" tenha algum sentido em filosofia. A fenomenologia, como filosofia, compreende ao menos uma antropologia filosófica, uma cosmologia, uma criteriologia e uma filosofia da ciência, e o hábito de tratá-la como método é resíduo de seus primórdios. * Só gradualmente o mundo filosófico percebeu o surgimento de uma filosofia inteiramente nova. {{tag>Luijpen humano}}