====== Heidegger e o Existencialismo Moderno ====== KLH * Contexto de recepção e mal-entendidos sobre o existencialismo * A falta de traduções das obras fundamentais do existencialismo leva a um conhecimento derivado de fontes secundárias. * As circunstâncias políticas influenciam a seleção e atenção à literatura filosófica contemporânea. * A sequência de familiaridade (Sartre, Jaspers, Heidegger) é determinada politicamente, devido a seus posicionamentos durante a guerra. * O existencialismo é mais que uma moda; configura o clima básico da existência universal do homem moderno. * Todos somos, de algum modo, existencialistas, presos no dilema de ser "modernos" numa época de dissolução de crenças. * A dificuldade de definir a "modernidade" e seu caráter "extático" * É difícil delimitar com exatidão o que é "moderno" e quando começou. * Figuras como Balzac, Flaubert, o Impressionismo e Van Gogh foram considerados modernos em seu tempo. * Apesar da relatividade, todos esses criadores têm em comum o serem //ultra//, "extáticos", representando fragmentos de um quadro de referência incerto. * A modernidade começa com a dissolução de um ordem natural e social em que o homem estava integrado. * A radicalidade de Heidegger em comparação com Jaspers * Heidegger é mais moderno e radical que Jaspers. * Sua análise do ser dentro do horizonte do tempo não pressupõe o conhecimento objetivo da ciência positiva nem aponta para uma metafísica tradicional da transcendência. * A introdução existencial de Heidegger apresenta uma unidade indivisa de pensamento, começando pela análise fundamental da existência humana. * Em contraste, a filosofia de Jaspers compõe-se de três partes: orientação no mundo, apelação à existência, busca da transcendência, refletindo ideias tradicionais de "alma" e "Deus". * A reinterpretação heideggeriana de "mundo", "existência" e "transcendência" * A interpretação do fenômeno "mundo" não pressupõe a compreensão científica. * Rejeita toda a empresa da "metafísica" no sentido tradicional de algo eterno e infinito. * Propõe compreender o ser dentro do horizonte do tempo, numa "metafísica finita da finitude". * O conceito central de "existência" tem, portanto, um significado diferente em Heidegger. * O Dasein humano como ente ontológico e o conceito de existência * O homem é, para Heidegger, um Dasein, um "ser-aí". * É um ente ontológico, capaz de transcender seu próprio ente e todo outro ente concreto para o ser como tal. * A "irrupção" do Dasein abre o olhar para o ser como tal. * O homem tem o privilégio de ser lançado sobre si mesmo como um si-mismo, sendo dono de seu próprio ser. * A existência como modo de ser e possibilidade constante * Heidegger denomina "existência" a forma ou modo do homem de "ser-aí". * Não é uma qualidade fixa, mas uma possibilidade constante: podemos existir de modo autêntico ou inautêntico, individual ou médio. * O Dasein que escolhe e persegue suas possibilidades é sempre minha ou tua existência pessoal. * Em última instância, o homem está ocupado com seu próprio ser e suas possibilidades. * A ligação íntima entre a ontologia e a análise da existência humana * A questão mais abstrata da ontologia encontra-se ligada ao ser mais concreto e pessoal. * Uma análise filosófica do ser só pode realizar-se com base numa análise da existência humana, numa "ontologia fundamental". * Para responder à pergunta universal pelo ser, é necessário concentrar a indagação transcendente no ente singular que interroga. * A pretensão de começar sem pressupostos é ilusória. * A análise do ser do homem: ter-que-ser e estar-arrojado * O ser do homem tem que ser; está abandonado ou entregue a si mesmo. * Deve suportar a "carga" da existência como caráter essencial de seu "ser-aí". * A assim chamada essência do homem reside no fato de que tem que ser; a essência deve ser entendida a partir de sua existência. * "A essência do Dasein (do homem) é sua existência." O "que" na existência precede qualquer determinação biológica, psicológica ou social. * O "ser-no-mundo" como característica fundamental * A existência do homem implica que ele é no mundo. * O "mundo" não é a totalidade exterior de entes, mas uma estrutura universal e existencial. * O homem está relacionado essencialmente a "seu" mundo, constituindo-o e "projetando-o". * "Ser-no-mundo" significa estar aberto à manifestação do ser como tal através do ex-sistir, do estar exposto à totalidade do ser. * A facticidade e o "estar-arrojado" (Geworfenheit) * Como pura facticidade, o homem não tem sabedoria sobre sua procedência e meta. * Sente intensamente o puro fato de seu ser, a facticidade de que é. * Heidegger denomina esta facticidade //Geworfenheit//, "estar-arrojado" na existência. * Nenhum Dasein decidiu livremente vir à existência; por isso é ininteligível por que temos que ser. * A antecipação da morte e a revelação da nulidade na angústia * A projeção primordial é a antecipação e apropriação da morte própria. * Só pela antecipação do fim pode a existência humana tornar-se "total" e totalmente intensa. * A nulidade do "ser-aí" revela-se primeiramente na angustia indefinida, diferente do medo concreto. * A angústia refere-se à totalidade do "ser-aí" no mundo; a totalidade do ser parece desvanecer-se no nada. * A experiência da nada como revelação do ser e a pergunta fundamental * A experiência de estender-se para a "nada" é positiva, pois oferece o pano de fundo para tomar consciência do ser. * Para uma existência finita, o significado do ser como tal torna-se patente somente de frente para o nada. * Desta experiência surge a pergunta: "Por que há ente e não antes o nada?". * Esta indagação motiva todas as perguntas secundárias sobre causas particulares. * A base da pergunta pelo "porquê" na liberdade finita * A possibilidade de perguntar "por quê" baseia-se no fato de a existência humana não estar contida em si mesma, mas deslocada. * O homem é uma existência autotranscendente, com um certo jogo livre, capaz de pensar e agir em possibilidades. * A liberdade que permite perguntar "por que não" é a liberdade de uma existência finita e contingente, ela mesma sem fundamento (//Abgrund//). * Estamos, como disse Sartre, "condenados à liberdade". * O caráter moderno, não clássico nem cristão, da ontologia heideggeriana * //Ser e Tempo// deixa claro que as ontologias cristã e grega já não são aceitáveis. * Toda a obra está concebida como introdução à "destruição" da tradição ontológica, sem prometer uma solução definitiva. * É uma caminhada aventurosa, como em Nietzsche, com medo e orgulho do desconhecido. * A inovação existencialista: a absorção da essência na existência * Para apreciar a inovação, é necessário contrastá-la com a relação entre essência e existência na tradição. * O novo do existencialismo moderno consiste em que a referência tradicional da existência à essência é substituída pela absorção da essência na existência. * A posição de Aristóteles: a inseparabilidade de essência e existência * Aristóteles, na //Metafísica//, busca os princípios dos entes "enquanto são ou existem". * Para ele, descuidar a essência e a existência são dois aspectos da "mesma omissão", pois a indagação do "que é" também decide "se é". * Essência e existência são ambas manifestas ao "mesmo tipo de pensamento". * Aristóteles não se ocupa da pura facticidade da existência contingente, mas da existência essencial. * A perspectiva cristã em Tomás de Aquino: a prioridade da existência * No pensamento cristão, o conceito de existência tem prioridade definitiva sobre o conceito de essência. * Tomás de Aquino distingue entre //ens// (ente) e //esse// (ser, fato de existir), acentuando o //ipsum esse//. * Para ele, só Deus existe essencialmente; sua essência mesma é o ser. * O //ipsum esse// é o primeiro princípio do ser, não apenas uma facticidade estranha, mas a atualidade mais maravilhosa e perfeita. * A tese existencialista como criacionismo sem criador * A tese existencialista de que a existência precede a essência pode retrair-se ao pensamento cristão. * No entanto, separa-se claramente dele pela ausência da doutrina da criação. * O existencialismo é criacionismo sem criador. * Para Tomás, a existência finita é contingente, mas esse caráter emerge apenas dentro de uma perspectiva transcendente para um ente necessário. * A crítica de Kant ao argumento ontológico e a restauração por Hegel * Kant argumentou que a existência nunca pode ser deduzida da essência. * A distinção entre essência e existência é válida para todos os entes finitos, sendo a própria característica da finitude. * Hegel, depois de Kant e contra ele, restabeleceu a prova ontológica, baseando-se em Aristóteles, mas a serviço de uma filosofia cristã da religião. * A síntese hegeliana e a exclusão do contingente * Hegel define o real como a "unidade de essência e existência". * Exclui o acidental, a existência contingente, do âmbito de interesse da ciência metafísica. * Estende sua definição a todos os entes que têm uma existência "verdadeira" ou "real". * Nada no mundo é absolutamente finito e dividido em essência e existência; tudo participa, em diferentes níveis, do infinito. * A rebelião anti-hegeliana de Schelling, Kierkegaard e Marx * Em oposição à "reconciliação" hegeliana, surgiram ataques na década de 1840. * Schelling distinguiu entre filosofia positiva (da existência real) e negativa (racional), acusando Hegel de ter hipostasiado o conceito numa existência falsa. * Kierkegaard e Marx enfatizaram, em direções opostas, a facticidade nua da existência pessoal e social. * Reduziram a filosofia à análise psicológica dos estados internos (Kierkegaard) ou à análise econômico-social (Marx). * O fundamento filosófico da crítica de Kierkegaard e Marx * Protestaram contra o conceito hegeliano de realidade como "unidade de essência e existência". * Para Kierkegaard, o caráter mais íntimo da realidade é sua contingência, o "milagre" inexplicável de que há algo. * Marx aceitou o princípio hegeliano, mas criticou-o por descuidar a tarefa prática de realização da razão na realidade. * A rebelião de Marx e Kierkegaard contra a síntese de Hegel marca o início do existencialismo moderno em sua filiação histórica imediata. * As raízes mais amplas e a alternativa frente ao existencialismo moderno * Na realidade, o existencialismo moderno começou já no século XVII, com a revolução cartesiana e seu impacto em Pascal. * Seria superficial pensá-lo como mero produto de uma situação alemã particular. * Se existe uma alternativa histórica e teórica, só se pode optar entre entender o mundo como um ordem natural imutável (visão grega) ou como uma criação divina (fé cristã ou judaica). * Qualquer escolha, porém, permaneceria uma atitude e decisão existenciais, contraditória com a índole da visão de mundo escolhida.