====== Sujeito ====== LDMH * Transformação histórica do conceito de "sujeito": de //sub-jectum// (//hypokeimenon//), termo banal para designar todo ente que jaz presente a partir de si, para a designação exclusiva do ser humano. * Originalmente, o aparecer (//phainesthai//) pertencia igualmente a quem vê e ao que é visto, sob a primazia do fenômeno e da //aletheia//. * Mutação da verdade em certeza exigiu um novo fundamento inabalável. * O humanismo da Renascença emancipou o ser humano racional da revelação cristã, colocando-o no lugar do Deus criador. * A revolução decisiva ocorre com Descartes e o //cogito//: o ser humano torna-se o único sujeito; o ente diante dele é reduzido a um "satélite do sujeito". * Kant promove a revolução copernicana em filosofia, consolidando esta posição. * "Ser sujeito" torna-se a característica distintiva do homem enquanto ser pensante-representante. * O homem é definido como coisa pensante (//res cogitans//) que se representa o ente como coisa extensa (//res extensa//), mensurável e objeto de uma certeza absoluta. * A representação calculante do sujeito assegura a realidade do real objetivado e torna o homem o fundamento da totalidade do que é. * O //subjectum//, a certeza fundamental, é a simultaneidade assegurada na representação entre o homem representante e o ente representado (o objetivo). * Esta operação assegura também a maestria sobre o ente, conforme o projeto cartesiano de "tornar-se como senhores e possuidores da natureza". * A consciência é o lugar desta representação onde o sujeito, falando apenas a si mesmo, abriga a totalidade objetiva do real. * A subjetividade designa tanto a relação com a coisa-objeto quanto o fechamento em si da experiência "subjetiva". * A razão se reduz ao cálculo da consciência. * A subjetividade caracteriza a metafísica dos Tempos Modernos até seu acabamento no niilismo planetário, marcando inclusive a intencionalidade husserliana, apesar de esta também apontar para o ser-no-mundo. * Em //Ser e Tempo//, Heidegger pretende remontar do sujeito (e mesmo do animal racional) ao //Dasein//, à nossa finitude como relação com o ser. * Partir de um "eu" ou sujeito imediatamente dado significa perder por completo a riqueza fenomenal do //Dasein//. * No entanto, esta remontada permite redefinir os limites do sujeito, ao ponto de poder dizer-se: "O 'sujeito', ontologicamente bem compreendido, [é] o //Dasein//". * Analogia e diferença fundamentais entre o //Dasein// heideggeriano e o //cogito// cartesiano. * Ambos ocupam uma posição central na investigação filosófica sobre o que é. * A diferença decisiva: o "eu penso", armado de seu //intuitus//, mensura a coisa como objeto à sua frente, enquanto o //Dasein// se "eclata" lá onde estão, ao mesmo tempo, as coisas. * É uma coisa atrair o que se fala (as coisas) para o seu colimador, outra é abrir-se à presença mesma das coisas. * O sujeito é uma maneira de ser do //Dasein//, que ele pressupõe, mas não funda. * O objetivo do trabalho de Heidegger é radicalizar a ontologia antiga a partir do "sujeito" no sentido finalmente bem compreendido de "existência humana" (//Dasein//), justificando assim os verdadeiros motivos do Idealismo Alemão. * Em perspectiva historial, Heidegger desenvolverá posteriormente a questão da "soberania do sujeito nos Tempos Modernos", interpretando o //cogito// cartesiano.