====== Sobriedade ====== LDMH * A palavra "sobriedade" (//Nüchternheit//) adquire audibilidade no pensamento de Heidegger através de seu diálogo incessante com a poesia de Hölderlin, ao qual atribui uma tarefa de prévia preparação filosófica. * Distinção entre uma sobriedade cristã (comentada por Heidegger em 1920-21 a partir de São Paulo) e a sobriedade hölderliniana da "noite sagrada" (//heilignüchtern//). * A //Nüchternheit// hölderliniana está relacionada etimologicamente ao noturno (//nocturnus//). * Ela é "sagrada" por constituir a prontidão para a decisão (//Entscheidung//) sobre os deuses, característica da época moderna de luto pelos deuses e niilismo. * A decisão é dupla: por um lado, aceitação resoluta do abandono pelos deuses antigos; por outro, salvaguarda da diferença (//Scheidung//) entre mortais e divinos. * A sobriedade consiste em "guardar na noite o olhar que distingue". * Esta prontidão noturna é associada à vigília antes do amanhecer, uma espera na noite pela aurora hesperiana do sagrado que está por vir. * A sobriedade é um elemento central no "retorno natal" (//vaterländische Umkehr//) esboçado por Hölderlin. * Este movimento articula um rapport historial com a Grécia, distinto da mera imitação. * Os gregos possuíam como próprio (nativo) o pathos sagrado, mas conquistaram culturalmente o elemento estrangeiro: a clareza da representação ou sobriedade junoniana. * Para os modernos, a situação se inverte: a sobriedade é o elemento próprio (nativo), enquanto o fogo sagrado é o estrangeiro a ser aprendido. * Daí a necessidade de estudar a arte grega para aprender o "uso livre" da sobriedade. * O retorno natal envolve também a relação entre o luto moderno pelos deuses e o tempo grego da presença divina. * Hölderlin fala de um "Zeus que é mais propriamente ele mesmo", um Zeus que estabelece limites e força decisivamente para a terra o ímpeto pânico. * Nesta economia do retorno natal, que é o próprio surgimento da história, Heidegger inscreve seu pensamento: ser um eco é suportar a paixão do pensamento, paixão que é a "silenciosa sobriedade". * Em //Ser e Tempo//, a sobriedade aparece discretamente mas significativamente na página 310. * É mencionada em relação à "resolução em marcha" (//vorlaufende Entschlossenheit//), que tem sua origem na "sóbria compreensão das possibilidades factivas fundamentais do //Dasein//". * O poder-ser que revela essas possibilidades se manifesta na "sóbria angústia... acompanhada da alegria de estar à altura dessa possibilidade". * A sobriedade aqui marca a assunção da finitude, onde o //Dasein//, sem fugir da morte, se abre ao seu mais próprio poder-ser. * Neste elogio da finitude, anuncia-se talvez, sem o conhecimento imediato do pensador, o início do retorno (//Kehre//) cujo sentido pleno só será descoberto posteriormente.