====== Liberalismo ====== LDMH Seria um grave equívoco interpretar de forma estritamente política as alusões ao liberalismo espalhadas aqui e ali na obra de Heidegger. O pensamento heideggeriano sobre o liberalismo, que o encara a partir de sua base metafísica, é de uma ordem totalmente diferente das críticas socialistas ou nacional-socialistas que se levantam contra o mundo burguês, cujas insuficiências foram reveladas pela Primeira Guerra Mundial. Precisamente, a dificuldade desse pensamento consiste no fato de que o liberalismo, o comunismo e o nacional-socialismo são vistos por Heidegger como herdeiros da determinação metafísica do sujeito (ver “Koinon”, em A História do Ser, GA69). O liberalismo baseia-se essencialmente numa certa determinação da “liberdade” própria da figura subjetiva do ser humano. Como o liberalismo não pensa a política a partir da liberdade própria do ser humano, Heidegger tem o cuidado de escrever frequentemente a palavra “liberalismo” entre aspas, como no final deste curso sobre Nietzsche, onde se diz que o “liberalismo” não constitui a essência do humanismo moderno — o qual, tal como o liberalismo, se baseia numa determinação insuficiente do homem como subjectum (GA6.2, 152; Nietzsche II, p. 139). O liberalismo deve, portanto, ser entendido como um dos nomes adequados para o desenvolvimento moderno da subjetividade — “subjetivação” da existência humana, da qual o individualismo é apenas um aspecto (GA5, 92; Caminhos que não levam a lugar nenhum, p. 121). Essa fundação do sujeito por si mesmo sobre si mesmo é possibilitada pela mutação da verdade em certeza e pela subsequente aquisição de uma soberania total sobre tudo o que existe. Com o advento dos Novos Tempos, ocorre uma “libertação do homem com vistas à conquista criativa, ao domínio e à transformação do ser, em todos os domínios da existência humana » (GA42, 61; Schelling, p. 68). Mas essa «libertação com vista a uma nova liberdade» (GA41, 97) exige que o sujeito assegure novamente o domínio no qual consiste toda a sua liberdade. Mais ainda, a liberdade do liberalismo está enraizada no aumento da vontade de poder que se quer a si mesma. Essa independência do sujeito é a determinação ontológica que está na base dos conceitos políticos, caros aos liberais, de liberdade para (freedom to) e liberdade de (freedom from), assim como da oposição entre as duas formas “positivas” e “negativas” da liberdade (Isaiah Berlin). Mas, de forma mais global, ela está na base de toda “visão de mundo” como tal: Por mais antiliberal que seja uma visão de mundo em seu conteúdo doutrinário: como visão de mundo e na medida em que se concebe como tal, ela não deixa de ser puro liberalismo [Escritos políticos, p. 179]. Não deixa de ser verdade que o “mercado” é um elemento essencial da “viabilidade” integral do mundo. O intercâmbio econômico, e a avaliação que ele implica, estendendo-se sem restrições a tudo, incluindo o homem como “recurso humano”, é o melhor adjuvante da vontade de poder: A humanidade do homem e a materialidade das coisas se diluem [...] no valor mercurial de um mercado que não apenas abrange toda a Terra como mercado mundial, mas que, como vontade de vontade, mantém o mercado na própria essência do ser [GA5, 292; Caminhos que não levam a lugar nenhum, p. 351].