====== Jogo ====== LDMH O jogo designa a relação entre a terra e o céu, os mortais e os divinos, os Quatro que constituem o que Heidegger chama de Geviert, a Uniquadridade. “A terra e o céu, os divinos e os mortais permanecem unidos entre si, a partir da simplicidade da Uniquadridade. No entanto, o jogo sugere algo mais do que uma vizinhança ou proximidade dos Quatro. Trata-se de um jogo de espelhos pelo qual “cada um dos quatro reflete, à sua maneira, o ser dos outros. Cada um se reflete, então, à sua maneira, em seu próprio ser, dentro da simplicidade dos Quatro” (GA7, 180; Ensaios e conferências, p. 213). É preciso entender isso como um espaço de jogo, ou mesmo um “espaço de jogo do tempo” (O Princípio da Razão, p. 150; Caminhada para a Palavra, p. 200) que liberta cada uma das quatro “regiões” enquanto elas permanecem em uníssono. Em A Coisa, Heidegger escreve: >Esse jogo que faz aparecer, o jogo do espelho [das ereignende Spiegel-Spiel] da simplicidade da terra e do céu, dos divinos e dos mortais, nós o chamamos de mundo [GA7, 181]. Consequentemente, a formulação de “jogo do mundo” que encontramos particularmente em A Coisa, O Princípio da Razão e Caminhada para a Palavra, mas também em Da Experiência do Pensamento, é quase uma tautologia. Que o jogo se chame mundo significa que o mundo não é outra coisa senão essas relações em movimento; é por isso que Heidegger pode escrever que o mundo só é mundo na medida em que se desdobra em mundo: die Welt west, indem sie weltet (GA7, 181). Em 1935, em A Origem da Obra de Arte, quando ele ainda não havia chegado à Uniquadridade, apenas à relação entre o que ele chama de mundo e terra, mas já se encaminhava para o que se passa ali, Heidegger, para dizer isso, fala de combate, de conflito ou de confronto (Streit), ainda não de jogo, mas o que ele diz sobre esse combate vale igualmente para o jogo que, por ser menos ofensivo, não é mais lúdico. Ele avança em três etapas. Primeiro: >O confronto entre mundo e terra é um combate [Streit]. Falsificamos com demasiada facilidade a essência da luta, confundindo-a com discórdia e disputa [...]. Mas na luta essencial, as partes adversárias se levantam uma contra a outra, defendendo contra tudo e todos a sua própria essência [...] Na luta, cada um eleva o outro acima de si mesmo [...] Quanto mais acirrada a luta se torna, mais rigorosamente os antagonistas se entregam à intimidade do simples pertencer a si mesmo. Em seguida: >A terra só surge através do mundo, o mundo só se baseia na terra na medida em que a verdade surge como a luta original [Urstreit] entre clareza e reserva. Por fim: >A verdade só surge se se instituir na luta e no espaço de jogo que ela abre. Porque a verdade é a reciprocidade adversa da clareza e da reserva... [GA5, 35; Caminhos que não levam a lugar nenhum, p. 53]. Combate ou jogo ecoam assim o “combate amoroso” (liebender Streit) que Hölderlin nomeia no hino “Retorno” ou o polemos heraclitiano, longe da dialética e da contrariedade que a anima, e o que se joga nele escapa a toda vontade de representação, como Heidegger se preocupa em precisar. É “um salto que [...] faz entrar o pensamento no jogo daquilo em que o ser desfruta, como ser, do repouso” (O Princípio da Razão, p. 240). Nada aparece em seu ser senão pelo jogo do mundo, “medida do imenso” (ibid., p. 241), no qual o ser humano, enquanto mortal, está envolvido, ou seja, colocado em jogo. Acrescentemos, para concluir, que o que se destaca com o jogo do mundo não é outro senão o Ereignis, que Heidegger menciona, aliás, em uma nota acrescentada em 1960 a A Origem da Obra de Arte (GA5, 42) a respeito da “luta originária” que faz advir o átrio mais próprio. Isso resulta, formulado em Identidade e diferença: >O átrio do ser é o jogo em si mesmo.