====== Devastação (Verwüstung) ====== LDMH * Apropriação filosófica do conceito de devastação como traço distintivo da época contemporânea não constitui singularidade do pensamento heideggeriano, havendo outros intelectuais e literatos, como Franz Kafka, Charles Péguy, Georges Bernanos ou Simone Weil, que souberam articular, cada qual conforme seu registro próprio, a potência do desenraizamento característico do presente. * Nesse panorama, Friedrich Nietzsche ergue-se como precursor essencial; no desfecho da quarta parte de //Also sprach Zarathustra//, a personagem do Viajante, que é a sombra de Zarathustra, entoa com voz grave um motivo que se tornou antífona do nosso tempo: //Die Wüste wächst: weh Dem, der Wüsten birgt!//, demonstrando que o alastramento do deserto não se reduz a fenômeno geográfico ou ecológico, existindo um abismo intransponível entre a desertificação dos solos e aquilo que deve ser nomeado como deserção da terra. * Exame do termo alemão //Verwüstung// revela que este não indica apenas expansão quantitativa do deserto, mas sim sua instalação organizada, um //ver-wüsten// que significa fazer ser o deserto, desdobrar o vazio desértico, a desolação intrínseca ao deserto. * Consideração heideggeriana da devastação exige que ela seja pensada sem pathos, ou seja, sem indignação moral e imune a qualquer pânico, à maneira da observação de Armel Guerne sobre a linguagem do naufrágio, que permanece inacessível àqueles que só falam a linguagem das navegações. * Aprender a soletrar essa linguagem do naufrágio próprio ao nosso tempo demanda, primariamente, manter distância crítica de toda pseudoliteratura da ameaça que estigmatiza o //Declínio do Ocidente// ou denuncia o absurdo dos //Tempos modernos//, ainda que, como observa ironicamente Heidegger, produzir tal discurso seja sempre mais fácil literariamente do que dizer algo essencial. * Aprender a linguagem do naufrágio requer, em seguida, capacidade de situar o deserto no espaço e no tempo, interrogando especificamente qual seja esse tempo de-finito pela devastação. * Esse é precisamente o esforço que empreendem os dois protagonistas de //A Devaastação e a Espera//, diálogo escrito por Heidegger na primavera de 1945, cujo cenário histórico é cuidadosamente delineado: 8 de maio de 1945 em um campo de prisioneiros de guerra na Rússia soviética, enquanto a Alemanha, cujo povo //se extraviou cegamente ao deixar-se conduzir ao erro//, é presa da devastação. * Esse cenário histórico não deve, contudo, ocultar a dimensão historial, pois se a devastação significa que //tudo, o mundo, o ser humano, a terra, é de-vastado, isto é, transformado em deserto//, isso não implica que o deserto resulte da extensão progressiva da devastação. * Pelo contrário: o deserto já está a priori, e, por assim dizer, em um nada de tempo, para, depois, tudo incluir em si – o que significa justamente: fazer ser a vastação do deserto, de-vastar. * Característica de estar já de antemão aí em um nada de tempo configura a temporalidade paradoxal do deserto, a qual participa do movimento daquilo que Heidegger, desde os anos 1930, nomeia //Ereignis//. * A devastação nos apreende antecipadamente na amplitude de seu acontecimento. * Determinação do que seja exatamente esse //mais amplo longínquo// a partir do qual advém a devastação do deserto encontra, no //Diálogo Russo//, dois horizontes de resposta – sobreponíveis, mas não obstante distintos. * Sob um ponto de vista originariamente metafísico, a devastação é pura e simplesmente o mal – não aquilo que seria moralmente ruim, mas a malignidade mesma do mal, que Heidegger define de maneira quase bíblica como a //fúria concentrada da revolta que nunca eclode por completo e que, mesmo quando eclode, ainda se dissimula, e em sua ameaça secreta muitas vezes é como se não fosse//. * Na época moderna, a figura predominante dessa fúria sempre em potência nada mais é que a da subjetividade, na qual o ser humano se revolta contra si mesmo. * Sob um ponto de vista, desta vez, livre da metafísica, isto é, pensado a partir do esquecimento do ser, o deserto é, como manifestação da desolação, a figura não apenas do abandono de toda vida, mas a do abandono do ser. * A devastação própria ao deserto é simultaneamente deserção e desertação do ser. * A devastação é, nesse sentido, o nome que o niilismo assume quando este se põe //em obra// tanto quanto //em desobra//. * Sob um ponto de vista historial, o niilismo só pode //ser algo de efetivamente real se advém algo como a deserção do ente pelo ser, deserção que, no entanto, deixa ainda assim ser o ente//. * Esse último aspecto é crucial, pois permite compreender – e Heidegger insiste muito nisso – que a devastação não é de modo algum sinônimo de destruição. * Diálogo de Franz Kafka com Gustav Janouch ilustra essa distinção: perante a afirmação de que vivemos em um mundo destruído, Kafka replica que, se tudo estivesse destruído, ter-se-ia alcançado o ponto de partida para uma nova evolução possível; a situação presente, contudo, é de um mundo //desarranjado//, no qual a imbricação entre valores do mundo e valores do eu não funciona mais, e cada um está mudo e isolado em si mesmo. * Heidegger pensa de modo análogo, afirmando que por devastação não se entende //a simples destruição do ente à mão, mas o trabalho de sapa que enterra a possibilidade de toda decisão inicial...//. * A devastação consiste na impossibilidade de estar em relação com o começo, impossibilidade à qual todos colaboramos, frequentemente com as melhores intenções, como explica Heidegger ao retornar ao sentido próprio da palavra. * Deserto: a persistência na interdição do começo. A devastação como asseguramento na duração de um desenraizamento integral de tudo, mas de tal modo que, na verdade, tudo o que vigora habitualmente permanece mantido; o fato de se preocupar com //política cultural// com a única finalidade de de-vastar. * Desse modo, como Heidegger também escreve a respeito de Jünger, a devastação se cumpre igualmente no cuidado e no gozo dos //bens culturais//. * Ou seja, enquanto desertificação, deserção e desenraizamento, a devastação manifesta-se tanto no desmatamento equatorial quanto na construção de grandes conjuntos urbanos, tanto na proliferação de cadeias de //fast-food// quanto na edificação do Grande Louvre, tanto nos autos-de-fé de livros quanto na erudição universitária ou no cuidado com a cultura, como exemplifica a leitura que Jünger faz de Tallemant des Réaux. * Sob outro ângulo, portanto: //A devastação da terra pode acompanhar-se da consecução do mais alto padrão de vida do homem e, igualmente, da organização de um estado de felicidade uniforme para todos os homens//. * Todos esses exemplos têm como horizonte comum uma relação com o tempo completamente cega, isto é, propriamente não historial. A devastação é //no ritmo máximo o banimento de Mnemósine//.