====== Angústia (Angst) ====== LDMH * A angústia, tradicionalmente explorada pela teologia (Schelling) e psicologia (Kierkegaard), adquire em Heidegger um sentido radicalmente novo na análise existencial, especialmente em //Ser e Tempo// e //O que é metafísica?// [GA9], onde é desvinculada da psicologia e tratada não como um "sentimento" subjetivo, mas como uma //Stimmung// (tonalidade afetiva) que precede a abertura do "aí" (//Da//), espaço onde os entes se manifestam; sua singularidade reside em revelar, de modo direto e integral, a existência como //cuidado// (//Sorge//), expondo a estranheza originária do //ser-no-mundo//, normalmente velada pela familiaridade cotidiana. * Na angústia, o tecido de significações que constitui a familiaridade do mundo se rompe: os entes perdem sua significação habitual, e o que se revela é o //nada// como "nada de ente", abalando a totalidade do ser-aí; esse fenômeno não é uma projeção subjetiva, mas a manifestação do próprio ser, que se retira e se oculta na cotidianidade, mas se desvela na angústia como o "outro de todo ente" (GA9, 306-307), oferecendo uma "prova do ser" e inaugurando a possibilidade da metafísica moderna como um //thaumazein// (admiração) radical, que a conferência de 1929 busca suscitar não como tema, mas como experiência viva (GA66, 376). * A angústia revela o //ser-para-a-morte// em sua nudez: o confrontar-se com o "nada da possível impossibilidade" (a morte como possibilidade mais própria) liberta o //Dasein// de sua alienação no "impessoal" (//das Man//), restituindo-o a si mesmo em sua singularidade; essa abertura originária do nada é condição para a //ipseidade// e a liberdade (GA9, 115), vinculando-se à criação, que exige uma ruptura com o habitual: "A angústia do audacioso [...] mantém uma aliança secreta com a alegria e a doçura do desejo criador" (GA9, 118); a //resolução// (//Entschlossenheit//) que conduz a existência a seus instantes mais autênticos nutre-se dessa angústia, que deve ser acolhida e amadurecida (ETFV, §68). * A recusa moderna da angústia e da morte — característica do "tempo de penúria" (GA5, 270-274) — agrava a alienação: a "negação da morte" e o esquecimento do nada, substituídos pela produção técnica totalizante do ente, aprofundam a "destituição" (//Entsetzung//) do ser, onde o próprio ser se "de-põe" (//ent-setzt//) de sua verdade sob a forma do //dispositivo// (//Gestell//); nesse contexto, a angústia assume uma dimensão //historial//, revelando não apenas a finitude individual, mas o abandono do ser pela época, que exige um novo "giro" (//Kehre//) no pensamento. * Nesse horizonte, a angústia transfigura-se em //temor// (//Erschrecken//), tonalidade fundamental do "outro início" da filosofia (GA65, §5), que percebe a destituição (//das Entsetzliche//) já consumada (GA7, 168): o //Entsetzen// (que arranca de si) não determina por si só uma virada histórica, mas pode contribuir para ela ao revelar o caráter aterrador da destituição, sustentando a "prova, no próprio ser, do desdobramento do ser como perigo" (GA79, 55); trata-se de ganhar uma nova proximidade com o mundo, correspondendo ao "relâmpago da verdade do ser" no "jogo espelhado" dos //Quatro// (terra, céu, divindades, mortais), onde o homem é chamado a "tornar-se mortal" (GA7, 180), assumindo seu lugar na abertura do ser que dá mundo.