====== SZ §§72-77 ====== //KOCKELMANS, Joseph. Heidegger’s “Being and Time”: The Analytic of Dasein as Fundamental Ontology. Lanham (Md.): Center for Advanced Research in Phenomenology, 1989.// **Temporalidade e historicidade («Ser e tempo», §§ 72–77)** **I. Introdução** * A temporalidade (Zeitlichkeit) tornou compreensível o cuidado (Sorge) e a possibilidade de o ser-aí (Dasein) assumir-se como um todo diante da morte; resta, porém, esclarecer como essa totalidade inclui também o nascimento e a extensão da existência entre seus dois extremos. * A vida não consiste em uma sequência de vivências presentes que desaparecem e à qual se acrescentaria posteriormente a unidade de um sujeito constante; o ser-aí existe desde sempre estendido entre nascimento e morte, de modo que esse «entre» pertence à constituição de seu próprio ser. * O nascimento não é simplesmente um fato que deixou de estar presente, assim como a morte não é um acontecimento futuro ainda ausente; o ser-aí existe como nascido e, ao mesmo tempo, como ser-para-a-morte (Sein zum Tode), reunindo ambos na unidade temporal do cuidado. * A mobilidade própria da existência recebe o nome de acontecer histórico (Geschehen): investigar sua estrutura e suas condições temporais permite compreender a historicidade (Geschichtlichkeit) antes de transformar a história em objeto de uma ciência. * O ser-aí pode participar da história porque seu ser já é temporal em sentido originário; a historiografia (Historie) constitui uma possibilidade derivada dessa historicidade e deve ser esclarecida a partir dela. **II. A compreensão vulgar da história e o acontecer histórico do ser-aí** * A palavra «história» pode designar o que passou, os efeitos ainda vigentes de um passado, um processo que atravessa passado e futuro, as transformações humanas contrapostas à natureza ou o conjunto daquilo que foi transmitido; essas acepções convergem na referência ao acontecer da existência compartilhada. * A identificação do passado com aquilo que já não está presente deixa inexplicado o caráter histórico de objetos que permanecem diante de nós, como utensílios preservados em um museu; neles, o que passou foi sobretudo o mundo de usos e relações em que antes tinham seu lugar. * Os entes encontrados no mundo possuem historicidade em sentido derivado porque pertencem a um mundo aberto pelo ser-aí; seu caráter histórico antecede a pesquisa que posteriormente os toma como documentos ou vestígios. * O ser-aí é histórico em sentido primordial, sem que isso signifique apenas que o ser humano participa de acontecimentos datáveis; sua existência temporal torna possível que um mundo, suas práticas e seus entes tenham história. * A prioridade frequentemente concedida ao passado na compreensão vulgar da história exige, portanto, ser reinterpretada a partir do vigor de ter sido (Gewesenheit) do ser-aí, cuja relação com o que passou não equivale à distância entre dois instantes. **III. A constituição fundamental da historicidade do ser-aí** * A historicidade (Geschichtlichkeit) concretiza a temporalidade (Zeitlichkeit) do cuidado (Sorge): a existência projetada para suas possibilidades não parte de uma liberdade sem situação, pois assume possibilidades recebidas no mundo em que foi lançada. * A decisão antecipadora (vorlaufende Entschlossenheit), ao assumir a finitude do ser-para-a-morte (Sein zum Tode), liberta o ser-aí da dispersão entre possibilidades provisórias e permite escolher, como própria, uma possibilidade transmitida por sua herança. * O destino individual (Schicksal) não é uma imposição inevitável de acontecimentos externos, mas o acontecer da existência finita que se entrega resolutamente a uma possibilidade herdada e escolhida; por ser-no-mundo com outros, esse acontecer participa também de um destino comum (Geschick). * A repetição ou retomada (Wiederholung) responde a uma possibilidade que já foi vivida sem restaurar os fatos passados: ela a assume novamente no presente próprio, em confronto com as interpretações correntes, e abre sua força para uma existência vindoura. * O porvir (Zukunft) confere à historicidade sua orientação decisiva, pois a antecipação da morte reconduz o ser-aí à condição lançada e dá ao vigor de ter sido sua importância específica; a apropriação da história nasce dessa unidade temporal, antes de qualquer conhecimento historiográfico. **IV. A historicidade do ser-aí e a história do mundo: historicidade imprópria e própria** * A história não se reduz nem às alterações de objetos nem a uma sucessão interior de experiências subjetivas: ela acontece como ser-no-mundo (In-der-Welt-sein), no qual instituições, obras, instrumentos e ambientes participam de configurações históricas de sentido. * Os entes intramundanos têm caráter histórico-mundano (weltgeschichtlich) porque são descobertos e utilizados em mundos historicamente abertos; a pesquisa histórica encontra esse caráter, mas não o produz. * Absorvido nas ocupações e na publicidade do impessoal (das Man), o ser-aí compreende sua vida como uma série descontínua de fatos e procura depois ligá-los em uma narrativa; a pergunta pela unidade dessa série nasce de uma dispersão que já encobriu a continuidade originária da existência. * A decisão antecipadora reúne nascimento, morte e o «entre» na constância de uma existência que retoma possibilidades herdadas; essa fidelidade (Treue) a si mesmo não obriga a conservar cada decisão particular, pois pode exigir sua revisão conforme a situação. * A historicidade imprópria fixa-se no «hoje», espera a próxima novidade e retém do passado apenas fatos e restos disponíveis; a historicidade própria, ao contrário, deixa que possibilidades já vividas interpelem o presente a partir do porvir. **V. A fonte existencial da historiografia na historicidade do ser-aí** * A historiografia (Historie) pressupõe a historicidade (Geschichtlichkeit) tanto do ente que investiga quanto do mundo investigado; a abertura ao vigor de ter sido prepara o acesso ao passado antes da coleta, seleção e crítica dos documentos. * Vestígios, monumentos e registros podem tornar-se fontes porque pertencem a mundos historicamente vividos; sua interpretação exige reconstruir as relações em que tiveram sentido, ultrapassando a simples constatação de que ainda existem no presente. * O tema mais próprio da investigação histórica é a possibilidade de existência que efetivamente se realizou em um mundo, com suas escolhas, destinos individuais e compartilhados; fatos singulares e regularidades gerais recebem seu alcance histórico a partir desse horizonte. * A retomada (Wiederholung) permite compreender possibilidades do ser-aí que já existiu e fazê-las interpelar a existência atual; a objetividade historiográfica requer fidelidade ao que foi encontrado, mas não se confunde com a aplicação de regras gerais indiferentes à historicidade do investigador. * A pluralidade de mundos, práticas, técnicas, ideias e formas de convivência justifica a diversidade das pesquisas históricas; cada investigação alcança seu tema por meio de vestígios já transmitidos e interpretados, cuja própria história também precisa ser considerada. * A historiografia própria reúne o porvir de uma possibilidade escolhida, o respeito pelo que foi transmitido e a interpretação da situação presente; por isso, pode criticar a familiaridade pública do «hoje» e jamais ultrapassa inteiramente a situação hermenêutica da qual parte. {{tag>Kockelmans SZ tempo}}