===== Dasein (2013:Parte III) ===== //HERRMANN, Friedrich-Wilhelm von. Hermeneutics and reflection: Heidegger and Husserl on the concept of phenomenology. Toronto: University of Toronto Press, 2013.// § 1. A fenomenologia hermenêutica lançada no curso do semestre de emergência de guerra origina-se de uma experiência primordial temático-metodológica segundo a qual o acesso à vida a-teorética não pode ser reflexão, mas apenas hermenêutica, sendo essa experiência a que rege metodológica e tematicamente todos os cursos de Freiburg e Marburg até desembocar na elaboração sistemática de Ser e Tempo (Sein und Zeit). * a experiência primordial inclui a percepção de que a vida a-teorética e o mundo-da-vida a-teorético não constituem uma interconexão fundante em que a experiência sensorial fundamentaria a vida superior da consciência, pensamento este que só surge do acesso reflexivo-teorético e não da própria vida a-teorética * o § [[sz>7|7]] da Introdução de Ser e Tempo apresenta a apreensão antecipatória da fenomenologia hermenêutica do [[lx>termos:d:dasein|Dasein]], retomando a máxima husserliana de retorno às coisas mesmas ([[lx>termos:s:sachen-selbst|Sachen selbst]]) como princípio de tratamento, mas dela se diferenciando quanto ao logos, que em Husserl vigora nos atos de reflexão * a seção metodológica estrutura-se em dois princípios articulados — o modo de tratamento ([[lx>termos:b:behandlungsart|Behandlungsart]]) e o método de acesso ([[lx>termos:z:zugangsart|Zugangsart]]) —, sendo o primeiro comum a ambos os pensadores enquanto retorno às coisas mesmas, e o segundo divergente entre a redução fenomenológica hermenêutica (abertura, acesso e travessia, depois nomeadas redução, construção e destruição hermenêuticas) e a [[lx>termos:e:epoche|epoché]] e redução reflexivas husserlianas § 2. A fenomenologia é primariamente conceito metodológico e não designação de objeto temático, de modo que a caracterização heideggeriana da independência de ponto de vista ([[lx>termos:s:standpunkt|Standpunkt]]) e de direção ([[lx>termos:r:richtung|Richtung]]) retoma positivamente a autocompreensão husserliana do método fenomenológico ao mesmo tempo que dela se distancia, na exigência paralela de libertar-se também da efetivação concreta que o próprio Husserl deu a esse método. * (a) o conceito formal de fenomenologia comum a ambos assenta-se na tradução do grego [[lx>termos:p:phainomenon|phainómenon]] como aquilo que se mostra em si mesmo, distinguido terminologicamente da aparência privativa ([[lx>termos:s:schein|Schein]]) e do fenômeno-manifestação ([[lx>termos:e:erscheinung|Erscheinung]], exemplificado pelo sintoma que apenas anuncia algo sem mostrar-se ele mesmo), sendo o [[lx>termos:l:logos|lógos]] determinado como discurso que faz manifesto, de modo que fenomenologia formalmente significa deixar ver a partir de si mesmo aquilo que se mostra, tal como se mostra a partir de si mesmo * (b) a desformalização desse conceito formal em direção aos entes produz o conceito ordinário (positivista-científico) de fenomenologia, no qual toda pesquisa científico-positiva pode chamar-se fenomenológica quando se submete à máxima de apreender seu objeto por via de mostração e desvelamento, distinto do acesso pré-científico cotidiano que dispensa método * (c) a desformalização em direção ao ser dos entes produz o conceito fenomenológico-filosófico propriamente dito; por meio de quatro perguntas entrelaçadas, Heidegger conclui que aquilo que a fenomenologia deve deixar ver é o que primeira e predominantemente não se mostra, algo oculto que constitui o sentido e o fundamento daquilo que se mostra — a saber, o ser dos entes, articulado como disclosure autorreferencial-extático (existência) e disclosure horizontal (ser dos entes não-Dasein), cuja unidade indissolúvel recebe o nome de Dasein * (α) a desformalização heideggeriana segue, assim, em direção ao ser dos entes como disclosure autorreferencial-extático-horizontal, ao passo que (β) a desformalização husserliana segue em direção à vida pura, ou transcendental, da consciência, na qual o oculto a ser desvelado pela reflexão é a essência pura dos atos intencionais e sua correlação com os objetos-de-ato, ocultamento este que se dá na vivência ingênua não-refletida * (γ) confrontando-se os fenômenos fenomenológicos de ambos, aquilo que em Husserl são vivências intencionalmente constituídas da consciência corresponde, em Heidegger, aos comportamentos ([[lx>termos:v:verhalten|Verhalten]]) do Dasein enraizados na constituição ecstática do cuidado ([[lx>termos:s:sorge|Sorge]] — lançar-se-para-diante, ser-lançado e ser-junto-a extático), de modo que a intencionalidade ôntica do comportamento preocupado ([[lx>termos:b:besorge|besorgend]]) só se esclarece a partir da disclosure autorreferencial-extática que a funda * 3. quanto ao segundo princípio metodológico, o método de acesso ao campo temático de investigação, Heidegger distingue três diretivas — redução, construção e destruição fenomenológicas —, respectivamente encarregadas de assegurar a abertura da análise, o acesso ao fenômeno do ser e a travessia crítica através dos encobrimentos reinantes, ao passo que o método fundamental husserliano de acesso, a epoché e redução transcendentais, consiste no retraimento reflexivo da tese geral da atitude natural para alcançar o ser absoluto da consciência pura, a qual, do ponto de vista hermenêutico heideggeriano, fecha-se para a possibilidade de desvelamento existencial de sua própria constituição de ser § 4. A determinação final da fenomenologia como hermenêutica, ao término da seção metodológica de Ser e Tempo, revela que todos os passos anteriormente dados no estabelecimento do método fenomenológico devem ser compreendidos, retrospectivamente, como pertencentes a uma fenomenologia hermenêutica e não reflexiva, diferenciando-se assim o tratamento e o acesso hermenêuticos heideggerianos do tratamento e acesso reflexivos husserlianos. * o sentido metodológico da descrição fenomenológica é apreendido como interpretação ([[lx>termos:a:auslegung|Auslegung]]), terminologicamente fixada como [[lx>termos:h:hermeneuein|hermeneuein]] para distingui-la inequivocamente da reflexão, de modo que o lógos da fenomenologia do Dasein possui caráter de interpretação a-reflexiva e a-teorética, e não de reflexão teórica * a hermenêutica assim entendida articula-se em três sentidos concatenados: primeiro, a autointerpretação do entendimento-de-ser ([[lx>termos:s:seinsverstandnis|Seinsverständnis]]) próprio do Dasein quanto às suas estruturas fundamentais e ao sentido temporal do ser dos entes não-Dasein; segundo, a elaboração das condições de possibilidade de toda investigação ontológica regional; terceiro, e primariamente, a analítica da existencialidade da existência, da qual deriva de modo derivado a metodologia das ciências histórico-humanas * como método de acesso, o lógos hermenêutico realiza-se em redução hermenêutica (acompanhando o comportamento de ocupação sem refletir sobre ele), construção hermenêutica (que desvela a preocupação e a constituição de ser do à-mão, podendo ser apreendida como lançar-se-para-diante hermenêutico) e destruição hermenêutica (travessia crítica que impede a confusão entre fenômeno genuíno e fenômeno deslocado), todas de natureza hermenêutica e não reflexiva, em contraste com a epoché e redução reflexivas husserlianas * reconhece-se, contudo, que os passos dados adiante no desvelamento das coisas mesmas só se tornaram possíveis sobre o fundamento lançado por Husserl nas Investigações Lógicas — sobretudo pela descoberta da intencionalidade, que abriu pela primeira vez o caminho para uma pesquisa ontológica radical —, de modo que compreender a fenomenologia como possibilidade, e não como mera efetividade de uma direção filosófica, permite realizar o retorno às coisas mesmas não pela via da reflexão, mas pela via da hermenêutica {{tag>Herrmann Dasein}}